No
ano de 1913, Viena era uma cidade em efervescência. Uma metrópole na
encruzilhada de antigas tradições e inovações modernistas, um caldeirão de
ideias onde culturas e ideologias se misturavam. Era também o lar temporário de
figuras que, embora ainda não soubessem, moldariam profundamente todo o século
XX.
Entre
os mais notáveis residentes dessa época estavam Sigmund Freud, Leon Trotsky,
Joseph Stalin e Ludwig Wittgenstein, cada um em diferentes estágios de sua
jornada pessoal, mas todos movidos por uma busca insaciável por entendimento e
transformação.
Sigmund
Freud, o pioneiro da psicanálise, estava em Viena há décadas. Sua prática
clínica e suas teorias sobre o inconsciente desafiavam as noções tradicionais
sobre a mente humana. Freud via essa cidade como o epicentro de uma revolução
silenciosa na compreensão do comportamento humano, uma revolução travada nas
profundezas da psique.
Leon
Trotsky, na época, estava exilado da Rússia czarista e residia em Viena, onde
escrevia para um jornal revolucionário. Articulava suas ideias sobre a
revolução socialista e o papel da classe trabalhadora na luta contra a opressão
da monarquia russa. Para Trotsky, Viena representava um lugar de relativa
liberdade para organizar a oposição no exílio e planejar um futuro grandioso
para sua pátria.
Joseph
Stalin, ainda conhecido como Koba, estava em Viena por um breve período, também
exilado e em busca de refúgio. Era um verdadeiro trabalhador em prol da
revolução, profundamente envolvido com as atividades do partido. Entre os
citados, era sem dúvida o nome menos conhecido, mas suas ambições já eram
evidentes para aqueles que o conheciam.
Ludwig
Wittgenstein, um jovem filósofo austero e introspectivo, estava na cidade
durante uma pausa de seus estudos em Cambridge. Absorvido em questões de lógica
e linguagem, já começava a delinear as ideias que mais tarde formariam a base
de seus estudos. Para ele, Viena era um lugar onde as questões sobre o
significado e a expressão podiam ser exploradas em meio ao ruído do mundo real.
O
Lorde Rudolf von Lichtenberg, um aristocrata excêntrico e mecenas da
intelectualidade vienense, fascinado por debates, decidiu convidar algumas
mentes brilhantes para discutir e buscar influenciar o futuro da Europa e,
talvez, do mundo. A reunião visava juntar esses quatro personagens. Von
Lichtenberg, conhecido por suas excentricidades, estava convencido de que a
força dessas ideias em ebulição poderia dar origem a uma nova era, ou ao menos
lançar luz sobre os tempos conturbados que se aproximavam rapidamente.
A
carta-convite enviada aos participantes era direta, mas provocativa: — Em
tempos de transformação, as mentes que melhor compreendem o passado e desafiam
o presente são as únicas capazes de moldar o futuro. Reúnam-se em meu salão, a
história pede sua contribuição.
O
salão estava repleto de livros antigos e mobília de época, com um leve aroma de
tabaco impregnado no ar. Após algumas formalidades, a conversa se volta
rapidamente para os tópicos que mais consumiam suas mentes: o iminente colapso
do mundo como eles conheciam e as possibilidades de construir algo novo a
partir das cinzas.
Antes
do início dos debates, um serviçal serve bebidas, charutos e quitutes a todos,
ficando à postos no canto da sala, para não deixar que nada falte aos ilustres
convidados.
Freud
abre o debate, visivelmente preocupado:
—
Estamos diante de uma época de tensões incontroláveis, tanto dentro do
indivíduo quanto na sociedade. A guerra não é apenas uma possibilidade, é uma
consequência inevitável das repressões internas que cada um carrega. A psique
humana está em um estado de conflito perpétuo, e a civilização não é mais do
que uma camada fina que esconde nossos instintos mais primitivos. Vejam, por
exemplo, o nacionalismo crescente — é um exemplo evidente do retorno ao
instinto tribal, do desejo de destruir o “diferente”.
Trotsky,
profundamente idealista, contesta:
—
Camarada, a psique, como você a descreve, é moldada pelas condições materiais
da sociedade. É o sistema de opressão que gera essas tensões internas. Liberte
o homem das correntes do capitalismo e ele florescerá em algo novo, algo
melhor, um novo ser humano em todo seu potencial. A verdadeira causa do
conflito está fora, portanto, externo, não dentro. A Revolução Francesa, por
exemplo, foi impulsionada pela necessidade de sobrevivência e justiça, não por
impulsos inconscientes.
Stalin,
analisando de forma mais prática, interrompe:
—
Libertar o homem é um conceito romântico e muito subjetivo. O poder nas mãos
dos trabalhadores isso sim é real. E quem detém o poder hoje são as elites
burguesas, e essas controlam a sociedade, controlando assim as ideias.
Portanto, até mesmo a psique humana que você tanto fala, Freud. Com esse
controle opressivo, toda essa conversa é apenas filosofia simplista. Basta
olhar para a Rússia: sem a disciplina do partido, qualquer movimento
revolucionário cairá em uma semana.
Freud,
não ficando intimidado, responde:
—
E é precisamente esse controle que alimenta o conflito. O que você chama de
poder, Koba, é apenas uma outra forma de opressão. A mente humana não se
submete facilmente; ela se rebela, e é isso que estamos prestes a ver em uma
escala global. Não é apenas uma revolução externa, mas interna, uma revolta
contra os limites impostos à nossa liberdade. Veja o movimento expressionista
na arte, que busca romper com as formas tradicionais — é a psique buscando
desesperadamente se libertar.
Wittgenstein,
até então observando com calma, finalmente intervém com uma reflexão
aparentemente mais abstrata:
—
O que todos vocês parecem ignorar é que nossas discussões são, em última
análise, sobre a forma como entendemos o mundo através da linguagem.
“Revolução”, “poder”, “psique” — essas palavras moldam nosso entendimento, mas
são apenas representações figurativas. Nossa luta não é apenas contra as
estruturas do poder ou os impulsos reprimidos, mas contra as limitações do
nosso próprio pensamento. Pensem na confusão gerada por termos vagos como
“justiça” e “liberdade”; o que significam, realmente? Será que significam o
mesmo para cada um de nós aqui nessa sala? Já pensaram nisso?
Trotsky,
intrigado, desafia:
—
Wittgenstein, está sugerindo que nosso maior inimigo é a semântica? Qual
palavra usamos para articular nossos sonhos de liberdade e justiça? Isso não
parece uma questão prática no mundo real, para os milhões de trabalhadores que
enfrentam a opressão diariamente. A linguagem não muda a necessidade de pão e
dignidade. A linda experiência da Comuna de Paris não foi derrotada por
palavras, mas por balas e canhões.
Wittgenstein,
sem se abalar, responde:
—
Exatamente, o que você não percebe é que não há discordância concreta entre
nossos pensamentos. A prática e a teoria não estão tão separadas quanto você
imagina. A forma como pensamos determina a forma como agimos. Se não
compreendermos os limites de nossas próprias concepções, estaremos destinados a
repetir os mesmos erros, apenas mudando as bandeiras e os slogans, mas
cometendo os mesmíssimos erros. A guerra que parece se aproximar é o resultado
de conceitos nacionais e étnicos mal definidos, até fundamentalmente
inexistentes, usados para mobilizar massas em nome de um “inimigo” que na
verdade foi inventado por interesses inconfessáveis.
Stalin,
visivelmente impaciente, retruca:
—
Palavras não ganham batalhas, muito menos derrubam governos. Apenas agitação,
organização e propaganda fazem isso, e apenas dessa forma podemos fazer a
revolução, e assim levar as massas ao poder. Você, Wittgenstein, fala de
limites de pensamento, mas não vê que a história é feita pela ação, pela força
coletiva e em último caso pela aniquilação do velho regime. Sem isso, a
revolução que Trotsky tanto deseja nunca passará de uma utopia, repleta de boas
inteções mas fadada a virar literatura de ficção.
Freud,
normalmente contido, deixa escapar um suspiro de exasperação e remove os
óculos, esfregando os olhos com visível cansaço:
—
Koba, você me faz lembrar meus pacientes mais resistentes. Quanto mais negam
que há algo errado, mais evidente se ressalta o problema.
Recoloca
os óculos e olha diretamente para Stalin:
—
Diga-me, quando foi a última vez que você dormiu uma noite inteira sem
pesadelos?
Um
silêncio desconfortável preenche o salão. Stalin congela por um momento, o
cigarro suspenso entre os dedos. Seus olhos estreitam-se, mas algo na pergunta
o desestabiliza.
Freud,
tentando mediar os extremos, propõe uma síntese:
—
Talvez o que precisamos seja uma compreensão mais holística. Sim, o poder é
necessário para a ação, mas sem um entendimento profundo das motivações
humanas, das forças inconscientes, qualquer revolução está fadada a se tornar
apenas mais uma forma de tirania. E, Wittgenstein, sua ênfase na linguagem é
válida, mas devemos lembrar que, por trás das palavras, há emoções e desejos
que as moldam. Aceito que a verdadeira mudança precisa considerar tanto o
interno quanto o externo. A tragédia das guerras são a repetição dos mesmos
impulsos de poder que sempre dominaram a história.
Trotsky,
aproveitando a deixa, comenta:
—
Então chegamos ao acordo que qualquer transformação verdadeira deve ser tanto
interna quanto externa, mas não podemos esquecer que há uma urgência. O mundo
está à beira de um colapso, e as massas não podem esperar por uma revolução do
espírito. Elas precisam de comida, trabalho e dignidade. E isso exige ação
concreta, imediata, não apenas reflexão.
Wittgenstein,
surpreendentemente, levanta-se e caminha até a janela, observando a avenida Ringstrasse
iluminada. Sem se virar, diz com uma simplicidade desconcertante:
—
Vocês todos falam de “as massas” como se fossem uma abstração. Lá fora há um
vendedor de castanhas que me vendeu seu produto ontem. Ele tem três filhos. O
mais novo está doente. Esse homem não se importa com suas teorias — ele quer
saber se o filho vai sobreviver ao inverno.
Vira-se
para o grupo, com intensidade incomum:
—
Talvez a verdadeira questão seja: como nossas palavras grandiosas se traduzem
em uma castanha quente nas mãos de uma criança faminta?
Trotsky
olha para Wittgenstein com renovado respeito, surpreso pela guinada pragmática
do filósofo.
Freud,
assentindo:
—
E talvez seja aí que resida o verdadeiro desafio: como equilibrar as
necessidades prementes do presente com a compreensão mais profunda das raízes
de nossos conflitos? Porque, sem essa compreensão, qualquer vitória será
superficial e temporária. O conflito que se avizinha não será apenas um
conflito entre nações, mas um reflexo das tensões internas de toda nossa
civilização. As armas, destruição e mortes – tudo isso será apenas uma
manifestação externa dos nossos impulsos mais primitivos reprimidos.
Trotsky,
refletindo sobre as palavras de Freud, acrescenta:
—
Talvez, mas a história nos ensina que as condições materiais moldam a
consciência. A Independência Americana, Revolução Francesa, todas foram movidas
pela fome, pela opressão tangível. A teoria é vital, Freud, mas o impulso
revolucionário nasce das ruas, fábricas, do campo, ou seja, da vida como ela se
apresenta de verdade. Como eu disse lá atrás, a Comuna de Paris caiu porque
faltou uma organização centralizada e disciplinada, não porque falharam em
compreender os desejos internos dos homens.
Mas
então Trotsky hesita, olhando para seu próprio reflexo no espelho veneziano da
parede. Sua voz baixa levemente:
—
Embora… devo confessar que às vezes, nas noites de insônia, me pergunto se
estamos preparados para o que virá. Se a revolução triunfar, será que teremos a
sabedoria necessária para não repetir os erros dos tiranos que derrubamos?
Ele
olha para Stalin, quase suplicante:
—
Koba, você nunca se pergunta isso? Se seremos capazes de comandar com poder absoluto sem que ele nos corrompa absolutamente?
Stalin,
concordando com Trotsky, complementa:
—
Exatamente, isso Camarada, a história não é feita por teóricos em salões
confortáveis, mas por aqueles dispostos a sujar as mãos e fazer o que deve ser
feito. As concessões que ocasionalmente possamos fazer podem ser necessárias
para ganhar um apoio mais amplo, mas, eventualmente, deverá ser o partido formado
pelo povo, quem ditará os termos pelo bem deste mesmo povo. A psique humana que
você tanto explora, Freud, é apenas um detalhe, não digo que menor, mas que
será superado quando o povo detiver os modos de produção, e romper os grilhões
da opressão burguesa, pois nesse momento surgirá uma nova humanidade e por
conseguinte uma nova psique humana.
Stalin
pausa, acende um novo cigarro com mãos que tremem quase imperceptivelmente. Por
um breve momento, a máscara de ferro cai:
—
Vocês falam de utopias e teorias, mas sabem o que eu vi na Sibéria? Homens que
começaram como revolucionários puros e terminaram como monstros. O exílio… o
exílio, tortura, dor, morte, tudo isso, muda as pessoas.
Sua
voz fica mais baixa, quase um sussurro:
—
Às vezes me pergunto se não estamos todos condenados a nos tornar aquilo que
combatemos. Se o poder não nos devorará como devorou todos os que vieram antes.
Se a revolução devora seus filhos, será que abusar do poder é um reflexo
inexorável disso tudo?
Então,
como se percebesse sua vulnerabilidade totalmente exposta, muda novamente o
semblante:
—
Mas não há espaço para dúvidas. A história não perdoa os vacilantes.
Freud,
claramente insatisfeito com a observação de Stalin, responde com uma
intensidade renovada:
—
O que você vê como um detalhe é, na verdade, o cerne de toda a nossa
civilização. Se ignorarmos a natureza humana – os desejos, os medos, os traumas
– a construção de qualquer ordem social, seja socialista, nacionalista ou
capitalista, estará sempre condenada a falhar. O inconsciente coletivo buscará
formas de expressar sua insatisfação, e se isso não for compreendido e
integrado, surgirão novos conflitos, e tudo recomeçará novamente e novamente,
seja como revolução ou mais uma guerra.
Wittgenstein,
tentando aproximar os pontos de vista com uma perspectiva mais filosófica,
sugere:
—
E se todos nós estivermos presos a um erro fundamental? Vocês falam de
revoluções externas e internas como se fossem processos separados, mas o
verdadeiro limite pode ser a nossa incapacidade de ver além das nossas próprias
e limitadas categorias de pensamento. Tomemos o conceito de “poder”: para
Stalin, é força; para Freud, é um jogo entre repressão e expressão; para
Trotsky, é uma ferramenta de emancipação popular. Mas, e se “poder” for apenas
uma palavra vazia que muda de forma conforme a nossa necessidade de sentido?
Será que não deveríamos primeiro questionar o próprio alicerce sobre o qual
estamos construindo essas ideias?
Trotsky,
movido pela provocação, rebate:
—
De verdade aceito a sua premissa, Wittgenstein. O que sugere, então? Que
abandonemos a luta porque nossas palavras são imperfeitas? E que podem não
refletir em completude o conceito individual que pensamos cada um e todos nós?
A sociedade não pode esperar por uma resolução final linguística enquanto morre
hoje de fome. Sim, a linguagem pode ser limitada, mas a necessidade de mudança
é urgente e podemos precificá-la em vidas perdidas todos os dias.
Wittgenstein,
com um sorriso enigmático, retruca:
—
Não sugiro inação, mas consciência. Entender que nossas ações são moldadas pela
forma como pensamos sobre elas pode evitar que caiamos nos mesmos erros de
nossos antecessores. Considere a ascensão dos nacionalismos extremistas: elas
prosperam sobre a simplificação da linguagem – “pureza”, “ordem”, “deus”,
“pátria”, “família”. A linguagem cria realidades, mas também as distorce.
Precisamos estar atentos a como definimos nossos propósitos e a quem servem
essas definições.
Stalin,
impaciente com os jogos de palavras, levanta-se abruptamente:
—
Enquanto vocês perdem tempo com abstrações, toda Europa está se armando para a
guerra. Cada dia de inação é um dia perdido para resolver o conflito antes que
esse comece. Eu, por exemplo, prefiro estar no campo de batalha onde as
decisões realmente são tomadas, onde a vitória não depende de palavras, mas de
ação. Se for preciso, tenho determinação para tomar essas decisões, por mais difíceis
que possam ser. Como sei também, que nenhum de vocês teria estômago para fazer
o que é preciso, fazer mesmo quando se é filosoficamente contrário ao que deve
ser feito, eu tenho essa fibra vocês claramente não.
Freud,
observando Stalin, murmura com uma voz cheia de presságio:
—
Essa é exatamente a antessala da tragédia: a crença ilusória de que a força
bruta e voluntarismo é a solução para os problemas humanos. Isso historicamente
é o que nos leva aos mesmos ciclos de violência. A mente humana é um campo de
batalha muito mais complexo do que pensam, e sem uma verdadeira compreensão e
integração e enfrentamento de nossos próprios demônios, continuaremos a repetir
as mesmas tragédias, apenas com novas roupagens em um eterno círculo vicioso.
Trotsky,
pensativo, conclui com um tom de esperança cautelosa:
—
Talvez, então, o verdadeiro desafio de nossa geração seja tentar unir essas
perspectivas: reconhecer que precisamos da firmeza de propósito de Koba, da
compreensão da mente humana de Freud e da cautela filosófica de Wittgenstein. A
utopia, como compreendo agora, não é um estado estático, ou um projeto
definitivo, mas um esforço contínuo para equilibrar o poder, compreensão e a
sabedoria, em um processo tanto coletivo quanto individual de crescimento de
toda humanidade.
Wittgenstein,
olhando para o horizonte além das janelas do salão, murmura quase para si
mesmo:
—
Ou talvez a utopia seja simplesmente um jogo de linguagem, uma meta que muda
conforme tentamos defini-la, e ao chegar ao ponto que buscávamos ela já não
está mais lá e sim muito mais à frente, e assim sucessivamente. Talvez, ao
buscar respostas definitivas, estejamos perdendo de vista a verdadeira questão:
como viver com nossas incertezas, como fazer paz com os paradoxos que somos e
ainda assim aceitar nossas incertezas.
A
conversa continua em uma teia complexa de ideias e confrontos intelectuais,
refletindo as diversas visões e os brilhos individuais que definem cada um dos
participantes. Trotsky visualiza um mundo sob a utopia proletária, Stalin vê a
necessidade de fortalecer cada conquista antes de seguir adiante, Freud insiste
na importância basilar de entender o inconsciente sem o qual nenhuma
possibilidade de completude é possível, já Wittgenstein desafia a todos a
repensar as bases de suas certezas, questionando até os fundamentos do que
chamamos de realidade.
Enquanto
o debate flui, de pé no fundo do salão, quase imperceptível aos olhares das
grandes personalidades, estava o serviçal do Lorde. Ele está atento a cada
palavra da acalorada discussão, embora sua presença fosse insignificante aos
convidados. Absorvia tudo com muito interesse e um profundo silêncio.
Esse
jovem, cujo destino se entrelaçaria tragicamente com o futuro da Europa, era
chamado Adolf Hitler. Pintor fracassado que, sem conseguir se destacar, havia
aceitado o trabalho humilde na casa de Lichtenberg. Nos intervalos entre suas
tarefas, ele se dedicava a leituras ultranacionalistas, alimentando uma visão
cada vez mais sectária e odiosa do mundo. Desconhecido pelos gigantes que ali
debatiam o futuro do mundo, sua sombra em breve começaria a se projetar sobre o
futuro.
Ao
final da tarde, o anfitrião Von Lichtenberg observa atentamente seus convidados
se despedirem ao final dos debates, e este reflete sobre o peso histórico
daquele encontro. Embora sua tentativa de influenciar diretamente os destinos
de seu tempo fosse ambiciosa, ele sabia que cada uma daquelas personalidades
deixaria marcas indeléveis na história, por caminhos distintos, mas
inevitavelmente marcantes.
Cada
um desses homens sairia para seguir seu próprio destino, levando consigo as
marcas daquele encontro: uma reunião improvável de mentes em um momento de
crises e oportunidades, no futuro perceberíamos que aquele instante era um
ponto de virada na trajetória dos povos.
Viena
naqueles dias tornara-se um ponto de convergência para algumas das ideias mais
poderosas e perigosas do século, um microcosmo das tensões que logo iriam
explodir no palco da história global. A cidade, como seus célebres moradores,
estava à beira de uma transformação — uma transformação que seria tanto uma
promessa quanto uma ameaça, conforme o velho mundo começava a desmoronar e um
novo, cheio de incertezas e esperanças, começava a emergir.
Quanto
ao jovem pintor fracassado que vagueava pelas sombras, este deixaria de ser
apenas uma figura marginal. Brevemente no futuro, se tornaria a figura mais
trágica e destrutiva de todas, conduzindo o mundo à maior guerra que a
humanidade já havia testemunhado. Como Freud previra, essa guerra seria
alimentada pelas forças reprimidas do inconsciente coletivo — um conflito
nascido da luta pelo poder, do ressentimento e do ódio forjado na distorção da
linguagem e na exclusão do outro.
Assim,
Viena, em 1913, era o prenúncio de uma enorme tempestade. As pessoas que ali
viveram, intelectuais, revolucionários e ditadores em potencial, carregavam em
si as sementes de um século de conflitos e revoluções. E a cidade, que um dia
fora o epicentro do pensamento livre e da cultura, ficaria para sempre
associada a um momento na história, ao ponto de virada que transformou o mundo indubitavelmente
para sempre.
Cláudio
Carraly – Advogado, ex-Secretário Executivo de Direitos Humanos de Pernambuco