Oriente Médio, uma das regiões mais complexas do mundo, tem sido historicamente um ponto de convergência de civilizações, culturas e poderes geopolíticos. Sua relevância no cenário internacional se deve tanto à sua localização estratégica, conectando três continentes, quanto à vasta riqueza em recursos naturais, principalmente o petróleo. Aqui observaremos as principais questões históricas e políticas que moldaram a região. O impacto do imperialismo europeu, o conflito árabe-israelense, as consequências da Primavera Árabe, a guerra fria regional entre Irã e Arábia Saudita e o papel das intervenções estrangeiras.
- Imperialismo Europeu e
Suas Consequências no Oriente Médio
No início
do século XX, o Oriente Médio estava sob o controle do Império Otomano, que
entrou em colapso após a Primeira Guerra Mundial. Com a retirada otomana, as
potências europeias, particularmente a Grã-Bretanha e a França, intervieram e
redesenharam as fronteiras da região por meio de acordos como o Acordo
Sykes-Picot de 1916. Essas novas fronteiras ignoraram as identidades e
lealdades étnicas, tribais e religiosas da população local, contribuindo para
décadas de conflitos e tensões.
O imperialismo europeu trouxe consigo profundas mudanças sociais e
políticas. As potências coloniais muitas vezes privilegiaram elites locais em
detrimento da maioria da população, alimentando o ressentimento e fomentando a
resistência. Movimentos nacionalistas árabes e persas começaram a surgir,
tentando unificar a região e criar estados independentes da influência
ocidental.
A descoberta de petróleo no início do século XX apenas intensificou o
interesse europeu pela região, com os recursos energéticos do Oriente Médio se
tornando uma fonte de poder econômico e geopolítico. A Grã-Bretanha, por
exemplo, garantiu uma presença estratégica no Golfo Pérsico, onde controlou o
petróleo do Irã e do Iraque por meio de concessões, enquanto a França exercia
domínio sobre o Líbano e a Síria. Esse controle externo dos recursos naturais
provocou ressentimento entre as populações locais, cujas economias estavam
sendo exploradas por interesses estrangeiros.
- O Conflito
Árabe-Israelense: Um Foco Central de Disputa
O conflito árabe-israelense é uma das questões mais duradouras e
impactantes no Oriente Médio. As raízes do conflito remontam ao final do século
XIX, com o surgimento do sionismo, um movimento nacionalista judeu, que
defendia a criação de um país para o povo judeu na Palestina, território até
então controlado pelo Império Otomano. Com a Declaração de Balfour, em 1917, o
governo britânico comprometeu-se com a criação desse estado judaico na
Palestina, o que acirrou os ânimos entre a população árabe local e os
imigrantes judeus.
A criação do Estado de Israel em 1948, como os palestinos à época não
aceitaram a criação conjunta determinada pela ONU de dois estados, Palestina e
Israel, exacerbou e desencadeou a primeira de muitas guerras entre os
estados árabes vizinhos e Israel. A situação aumentou as tensões na região. A
Guerra dos Seis Dias de 1967 e a Guerra do Yom Kippur, em 1973, consolidaram
ainda mais a posição de Israel como uma potência militar no Oriente Médio, e
geraram a consequente expansão territorial, criando uma crise de refugiados
palestinos enquanto a Questão Palestina tornou-se central na política
regional e global.
A luta pela autodeterminação palestina foi marcada pela resistência, com
a criação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em 1964, que
procurava estabelecer um estado independente para os palestinos. O conflito
árabe-israelense também viu o surgimento de vários grupos armados, complicando
ainda mais a questão. A presença ilegal israelense na Cisjordânia e em
Jerusalém Oriental continua a ser um ponto de disputa, com as negociações de
paz permanecendo sem solução definitiva.
- A Primavera Árabe:
Esperanças e Realidades
Em 2010, uma onda de protestos populares conhecidos como a Primavera
Árabe eclodiu no Oriente Médio e no Norte da África. O estopim foi o ato de
autoimolação de um vendedor de frutas na Tunísia, que protestava contra a
corrupção e a repressão estatal. O incidente levou a protestos em massa que
derrubaram o regime tunisiano e inspiraram movimentos semelhantes no Egito,
Líbia, Síria, Iêmen e outros países.
Inicialmente, a Primavera Árabe foi vista como uma oportunidade de
democratização na região. No Egito, a queda do presidente Hosni Mubarak, que
governava há mais de 30 anos, gerou esperanças de uma transição democrática, no
entanto, a eleição vencida por extremistas religiosos levou os militares ao
poder com um golpe de estado em 2013, frustrando as expectativas de um governo
democrático duradouro.
Na Líbia, a intervenção militar da OTAN em apoio aos rebeldes que
lutavam contra o regime de Muammar Gaddafi resultou na queda do ditador, mas
também mergulhou o país em uma guerra civil contínua. O caos político permitiu
a ascensão de milícias e grupos extremistas, deixando a Líbia fragmentada e
direitos sociais, das mulheres e minorias foram revogados. O colapso do Estado
líbio foi um dos muitos exemplos de como a Primavera Árabe, em vez de trazer
estabilidade, gerou uma nova onda de conflitos na região e uma ascensão de
fundamentalistas ao poder.
Na Síria, os protestos rapidamente se transformaram em uma brutal guerra
civil, com o regime de Bashar al-Assad, apoiado pelo Irã e pela Rússia, lutando
contra uma variedade de grupos rebeldes apoiados por potências ocidentais e
árabes. A guerra civil síria não só causou centenas de milhares de mortes, mas
também gerou milhões de refugiados e deslocados internos. Além disso, o vácuo
de poder criado pela guerra permitiu o surgimento do autodenominado “estado
islâmico” ou Daesh, que declarou um califado em vastas áreas da Síria e do
Iraque, promovendo massacres, assaltos e destruição do patrimônio histórico,
principalmente da Síria.
- A Guerra Fria
Regional: Arábia Saudita e Irã
Uma das dinâmicas mais importantes do Oriente Médio contemporâneo é a
rivalidade entre Arábia Saudita e Irã. Essas duas potências representam os
principais blocos religiosos e geopolíticos da região – os sunitas e os xiitas
– e têm travado uma guerra fria por influência, que se estende por todo o
Oriente Médio.
A Arábia Saudita, que é sunita, aliada aos Estados Unidos, busca manter
sua hegemonia no Golfo Pérsico e impedir a expansão da influência iraniana. O
Irã, que é xiita, desde a Revolução Islâmica de 1979, tem procurado exportar
sua influência e desafiar a ordem estabelecida por potências sunitas na região.
Essa rivalidade se manifesta em conflitos por procuração em países como Síria,
Iraque, Iêmen e Líbano, onde ambos os países apoiam facções locais opostas.
No Iêmen, a guerra civil tornou-se um campo de batalha entre os sauditas
e os iranianos. A Arábia Saudita apoia o governo iemenita contra os rebeldes
houthis, milícia xiita que é financiada pelo Irã. A guerra, que começou em
2015, resultou em uma das maiores crises humanitárias do mundo, com milhões de
iemenitas enfrentando fome e falta de acesso a serviços básicos.
Na Síria, o Irã tem sido um dos principais apoiadores do regime de
Assad, fornecendo armas, tropas e apoio financeiro. A Arábia Saudita, por outro
lado, apoia vários grupos rebeldes que tentam derrubar Assad. A guerra civil
síria tornou-se um exemplo claro de como a rivalidade entre Arábia Saudita e
Irã tem implicações devastadoras para os países da região e reflexos globais.
- A Atual Guerra entre
Israel e o Hamas e a Invasão do Sul do Líbano
A guerra entre Israel e o Hamas, que explodiu em outubro de 2023, foi
desencadeada pelo Hamas, que aproveitando um feriado judeu, desferiu um ataque
coordenado, envolvendo o disparo massivo de foguetes e invasões de militantes
fortemente armados ao sul de Israel, pegando as forças de defesa israelenses de
surpresa. Esse ataque resultou em milhares de vítimas civis israelenses,
incluindo assassinatos, estupros e sequestros. O Hamas, que controla a Faixa de
Gaza desde 2007, reivindicou o ataque como uma resposta à ocupação israelense.
Israel, em retaliação, lançou uma operação militar de grande escala
contra Gaza, envolvendo bombardeios intensos e uma invasão terrestre com o
objetivo de destruir as capacidades militares do Hamas, incluindo túneis
subterrâneos, arsenais de foguetes e centros de comando. A resposta israelense
também mirou a infraestrutura civil de Gaza, levando a uma crise humanitária
severa, com dezenas de milhares de deslocados e centenas de civis mortos. Além
do Hamas, outros grupos militantes menores, como a Jihad Islâmica, também se
envolveram no conflito, aumentando a complexidade do conflito.
O envolvimento de atores regionais é fundamental para entender essa
escalada. O Irã, que há anos apoia financeira e militarmente o Hamas e a Jihad
Islâmica, assumiu um papel importante ao fornecer tecnologia avançada de
foguetes e suporte logístico. Ao mesmo tempo, o Hezbollah, um poderoso grupo
xiita militante baseado no sul do Líbano e também financiado pelo Irã, aumentou
sua atividade ao longo da fronteira norte de Israel. O Hezbollah começou a
disparar foguetes contra o território israelense e realizar ataques de
artilharia, testando as defesas israelenses na região.
O sul do Líbano tornou-se, assim, uma segunda frente de batalha. O
Hezbollah, profundamente mais bem armado e organizado do que o Hamas, com uma
força estimada em milhares de combatentes e um estoque substancial de mísseis
de médio e longo alcance, representa uma ameaça mais significativa para Israel.
As incursões israelenses no Líbano, em resposta aos ataques do Hezbollah,
levantaram temores de uma guerra em duas frentes, o que complicaria ainda mais
as operações militares israelenses, que vêm respondendo com violência extremada
e desproporcionalidade de força, atingindo profundamente a população civil
libanesa.
O governo libanês, que luta com uma crise econômica e política interna,
tem sido incapaz de conter ou expulsar o
Hezbollah do seu território, fazendo com que a milícia opere praticamente de
forma independente no sul do país, outra dificuldade do Líbano está em agir
diplomaticamente junto ao Irã e Israel para conter o crescimento da crise, o
que pode levar o país de volta a uma guerra civil como ocorreu até 1985.
Esse conflito, portanto, não se limita a uma batalha entre Israel e o
Hamas e o Hesbollah, mas envolve uma teia de alianças regionais e globais, com
o Irã no centro, apoiando seus próxies em uma guerra por procuração contra
Israel. Além disso, a situação gera preocupação internacional, com potências
como os Estados Unidos apoiando Israel diplomaticamente e militarmente,
enquanto outras nações e blocos, como a Liga Árabe e a União Europeia, tentam
mediar ou mitigar as consequências humanitárias e políticas do conflito.
- Intervenção
Estrangeira e Suas Consequências no Oriente Médio
A intervenção estrangeira sempre foi um fator decisivo no Oriente Médio,
moldando as dinâmicas internas da região. No século XXI, as intervenções
militares de potências globais, especialmente dos Estados Unidos e da Rússia,
continuam a desempenhar um papel central nos conflitos locais.
A invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003, foi um dos eventos
mais significativos da política externa americana no Oriente Médio. O objetivo
declarado era derrubar o regime de Saddam Hussein e eliminar as supostas armas
de destruição em massa do país. No entanto, o colapso do governo iraquiano e a
subsequente ocupação americana resultaram em uma guerra civil que dividiu o
país entre sunitas, xiitas e curdos. Esse vácuo de poder também facilitou o
surgimento de grupos insurgentes, incluindo a Al-Qaeda no Iraque e,
posteriormente, o Daesh - estado islâmico.
O Irã aproveitou o colapso do regime de Saddam para expandir sua
influência no Iraque, que tem maioria xiita, apoiando milícias e ganhando
terreno político em Bagdá. O aumento da influência iraniana no Iraque gerou
preocupações entre os países árabes sunitas e, especialmente, na Arábia
Saudita. Para muitos analistas, a invasão americana não apenas desestabilizou o
Iraque, mas também mudou o equilíbrio de poder na região, permitindo que o Irã
ganhasse influência estratégica em uma área antes dominada pelos interesses
árabes sunitas e ocidentais.
Outra intervenção estrangeira significativa foi a participação da Rússia
na guerra civil síria. Em 2015, a Rússia entrou oficialmente no conflito ao
lado do regime de Bashar al-Assad, com o objetivo de estabilizar o governo e
garantir sua presença militar na região. A intervenção russa, que incluiu
bombardeios aéreos maciços, ajudou Assad a recuperar grandes áreas de
território, especialmente contra grupos rebeldes apoiados por países ocidentais
e árabes sunitas. Essa intervenção consolidou a presença russa no Mediterrâneo
Oriental, garantindo-lhe uma posição de destaque. Hoje os russo tem bases
militares na região sendo parte fundamental nas negociações sobre o futuro da
Síria.
As potências ocidentais, especialmente os Estados Unidos, têm enfrentado
dificuldades para definir sua política no Oriente Médio após a Primavera Árabe.
Durante o governo de Donald Trump, os EUA se afastaram de muitas das alianças
tradicionais da região, ao mesmo tempo em que fortaleceram os laços com Israel
e Arábia Saudita. A decisão de Trump de retirar os Estados Unidos do acordo
nuclear com o Irã, em 2018, e de reimpor sanções econômicas severas ao país
intensificou as tensões regionais, tornando o futuro do Oriente Médio ainda
mais imprevisível.
Outra questão fundamentou foi a determinação da saída das tropas dos
Estados Unidos do Afeganistão, fato que só ocorreu em definitivo na gestão
Biden, abrindo caminho para o retorno do Talibã ao poder na região,
enfraquecendo os Curdos que lutaram ao lado dos norte-americanos por décadas.
Nesse vácuo de poder a Rússia surgiu como um novo aliado dos curdos, fazendo
mediação com o novo governo do Afeganistão.
No entanto, a intervenção estrangeira no Oriente Médio não se limitou a
operações militares. A crescente influência da China, particularmente através
de investimentos econômicos e acordos comerciais, está remodelando as alianças
regionais. A China tem ampliado sua presença econômica na região por meio da
Iniciativa da Nova Rota da Seda, buscando acesso aos recursos energéticos do
Golfo e fortalecendo parcerias estratégicas com países como o Irã e a Arábia
Saudita. Embora a China não tenha uma política de intervenção militar direta,
sua crescente presença econômica pode mudar a dinâmica geopolítica do Oriente
Médio nas próximas décadas.
- Desafios Futuros e
Perspectivas para o Oriente Médio
Os desafios que o Oriente Médio enfrenta são complexos e multifacetados.
A rivalidade entre Arábia Saudita e Irã, que se estende por várias décadas,
continua a ser um dos principais motores de instabilidade regional. Essa
"guerra fria" entre as duas potências regionais exacerba conflitos
sectários e gera guerras por procuração em países como Síria, Iêmen e Líbano,
resultando em um sofrimento humano imensurável e no atraso do desenvolvimento
econômico e social em várias partes da região.
O conflito árabe-israelense, embora tenha experimentado períodos de
negociações, ainda não foi resolvido de forma satisfatória. A expansão dos
assentamentos israelenses na Cisjordânia e as contínuas tensões em Jerusalém
continuam a alimentar o ressentimento entre palestinos e israelenses. Embora
alguns países árabes tenham normalizado suas relações com Israel por meio dos
Acordos de Abraão, assinados em 2020, a questão palestina permanece uma ferida
aberta que complica a paz duradoura no Oriente Médio.
Além das rivalidades geopolíticas e dos conflitos armados, o Oriente
Médio enfrenta uma série de desafios socioeconômicos que ameaçam a estabilidade
futura da região. O desemprego é uma questão crítica, com muitos jovens em
países como o Egito, Jordânia e Tunísia sem perspectivas de emprego. Essa falta
de oportunidades alimenta o descontentamento social, alimentando a
radicalização, além de poder gerar novas ondas de violência.
A crise dos refugiados é outro grande desafio. Milhões de sírios,
palestinos, iemenitas, iraquianos e agora libaneses foram deslocados pelos
conflitos em seus países, criando pressões sobre os países vizinhos, como,
Egito, Jordânia e Turquia, que abrigam grandes populações de refugiados. A
comunidade internacional, embora tenha fornecido assistência humanitária, ainda
não conseguiu resolver adequadamente a questão do reassentamento e da
reconstrução pós-guerra.
Em termos ambientais, o Oriente Médio também enfrenta desafios
crescentes relacionados à escassez de água e às mudanças climáticas. A
desertificação e a falta de recursos hídricos estão pressionando ainda mais as
populações em áreas rurais e fomentando migrações internas e tensões sociais. A
cooperação regional em questões ambientais é crucial, mas os conflitos
geopolíticos muitas vezes dificultam a implementação de soluções sustentáveis.
Por fim, as questões de governança e corrupção são problemas
profundamente enraizados em muitos países do Oriente Médio. Regimes
autoritários, que se perpetuam no poder por décadas, enfrentam crescente
resistência das populações locais que clamam por maior transparência, justiça
social e direitos políticos. Embora as tentativas de democratização durante a
Primavera Árabe tenham fracassado em muitos países, o desejo de mudança
continua presente, especialmente entre as gerações mais jovens. A questão
fundamental é que tipo de mudança? Essa mudança também pode ser para pior.
A Paz
O Oriente Médio é uma região de complexidades geopolíticas e históricas
únicas. Desde as intervenções imperialistas europeias até os conflitos
contemporâneos, a região tem sido palco de profundas transformações políticas e
sociais. O imperialismo europeu no início do século XX, o conflito
árabe-israelense, a Primavera Árabe e a rivalidade entre Arábia Saudita e Irã
moldaram as estruturas de poder e os desafios enfrentados atualmente.
Para que a paz e a estabilidade possam ser alcançadas na região, são
necessárias várias abordagens integradas. Em primeiro lugar, o diálogo
diplomático multilateral é essencial. Um esforço coordenado que envolva as
principais potências regionais — como Arábia Saudita, Irã e Israel — juntamente
com atores globais como Estados Unidos, Rússia, China e a União Europeia,
poderia criar uma plataforma para a mediação de conflitos e a prevenção de
escaladas. A criação de fóruns regionais para a cooperação em segurança,
comércio e questões ambientais seria um passo importante para fortalecer os
laços entre nações e reduzir a desconfiança mútua.
Além disso, a solução para o conflito palestino-israelense é crucial. A
retomada das negociações de paz, com base em parâmetros acordados internacionalmente,
incluindo uma solução de dois estados, deve ser uma prioridade. Essa solução
deve ser acompanhada de garantias de segurança tanto para Israel quanto para os
palestinos, e medidas concretas para melhorar as condições de vida nos territórios
palestinos, incluindo o fim do bloqueio de Gaza e a promoção de desenvolvimento
econômico.
No âmbito das rivalidades sectárias e regionais, um acordo de paz entre
Arábia Saudita e Irã, baseado em uma coexistência pacífica e no respeito às
esferas de influência de ambos, seria fundamental para reduzir as tensões que
alimentam guerras por procuração no Iêmen, Síria e Líbano. Isso poderia ser
facilitado por mediações neutras ou por organismos multilaterais como a ONU,
incentivando compromissos em áreas-chave como a redução da militarização e o
combate ao extremismo.
Internamente, a promoção de governos mais transparentes, democráticos e
responsáveis é vital para a estabilidade a longo prazo. As demandas populares
por reformas políticas e econômicas não podem ser ignoradas. Os países da
região devem adotar políticas que fomentem a inclusão social e econômica,
proporcionando oportunidades para as gerações mais jovens e diminuindo as
desigualdades que frequentemente geram revoltas. Investimentos em educação,
infraestrutura e sustentabilidade ambiental são peças essenciais para a
construção de uma paz duradoura.
Finalmente, a cooperação em questões transnacionais, como as mudanças
climáticas e a escassez de recursos hídricos, pode ser uma oportunidade para os
países do Oriente Médio encontrarem soluções comuns e construírem uma base de
confiança mútua. A criação de iniciativas regionais de conservação ambiental e
de gerenciamento sustentável dos recursos naturais poderia ajudar a mitigar os
impactos das crises ambientais e fomentar uma integração econômica mais forte.
A paz e a estabilidade no Oriente Médio dependerão da capacidade das
lideranças locais e globais em enfrentar esses desafios com uma abordagem
multilateral, inclusiva e voltada para o futuro. Somente com cooperação,
diálogo e compromisso será possível construir uma região mais pacífica e
próspera nas próximas décadas.
Cláudio Carraly, advogado, ex-Secretário
Executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.