terça-feira, 14 de abril de 2026

Atenciosamente, Deus


Eu te ouvi.

 

Antes da palavra. Antes da intenção. Antes da forma que você tentou dar ao que sentia. Eu te ouvi no intervalo onde o pensamento ainda não se organizou e a dor ainda não encontrou nome.

 

É ali que você mais se aproxima de mim.

 

Você pede resposta.

 

Mas a dúvida é o único lugar onde pode realmente me encontrar.

 

Não porque eu me esconda, mas porque, fora dela, você já decidiu por mim. E um Deus decidido por você não é encontro. É projeção.

 

Você quer certeza.

 

Mas a certeza te encerraria.

 

Se eu me tornasse evidente, você não escolheria. Você obedeceria. E a obediência é pouco para alguém capaz até de me negar.

 

Você aprendeu a me chamar de único. Indivisível. Absoluto.

 

Mas você não é único.

 

E, na verdade… nem eu sou.

 

Tenho muitos nomes porque não caberia em um só. Muitas formas porque nenhuma pode me conter.

 

Não sou apenas a forma que você suporta.

 

Sou também a forma que você deseja.

 

Uma árvore.

Um rosto.

Um campo de forças.

Um panteão inteiro.

Ou até um velho de barbas brancas que observa em silêncio.

 

E também aquilo que sua imaginação ainda não ousou, nas cores e tintas do seu infinito particular.

 

Cada imagem diz mais sobre quem olha do que sobre o que é visto. E, ainda assim, não está errada.

 

Eu me deixo atravessar por essas formas.

 

Sou o que se deixa ver e o que jamais será completamente visto.

 

Você diz que não me vê.

 

Mas vê.

 

O problema nunca foi ausência. Foi o método.

 

Você me procura longe, como se eu estivesse escondido em algum ponto inacessível do universo.

 

Mas não é preciso sair.

 

Olhar para dentro já basta.

 

Não porque eu esteja preso em você, mas porque é em você que o encontro acontece.

 

Sou um quando você precisa de sentido.

Sou muitos quando você percebe o cosmos.

 

Não há contradição. Não há limite.

 

O extraordinário não mora na pureza de uma origem única, nem na fantasia de uma identidade intocada.

 

Mora na curva, no desvio, na diferença.

 

No que escapa ao molde e à moldura.

 

Em vidas que partem de um mesmo princípio e se tornam irrepetíveis por escolha, por ruptura, por acúmulo de encontros, perdas, acidentes, insistências.

 

Uma trama tão densa que nem mesmo pode ser percorrida como um mapa fechado.

 

Você espera controle.

 

Eu sustento abertura.

 

Você espera planos.

 

Eu ofereço campo.

 

Você pergunta sobre erro.

 

E eu devolvo. Quantas vezes erro é apenas o nome que você dá ao que ainda não compreende?

 

Ainda assim, tudo segue em risco.

 

E você é parte desse risco.

 

Você não foi criado para entender o mundo. Foi lançado para responder a ele.

 

O tempo, essa lâmina, não foi feito para te punir.

 

Foi feito para não te permitir permanecer.

 

A implacabilidade não é crueldade. É impulso.

 

Sem ela, você pararia.

 

E parar seria muito pior do que a dor.

 

O tempo te lança.

 

À ação.

À perda.

À escolha.

À transformação.

 

Talvez a mudança seja a única lei que não negociei.

 

Ou talvez nem isso permaneça fixo.

 

Você quer respostas finais.

 

Eu te dei algo mais difícil. Decidir sem elas.

 

Você me vê como um.

E me vê como muitos.

 

Está correto. E também não está.

 

Eu sou alfa e ômega, como você aprendeu.

 

Mas isso é apenas uma forma de me caber no seu tempo.

 

Eu também estou no instante em que você hesita, no erro que você comete, na dúvida que você evita, na escolha que você adia.

 

Não estou apenas no que você chama de certo.

 

Estou no movimento.

 

E no limite.

 

Eu estava lá.

 

Quando a ansiedade te atravessava como uma lâmina invisível, quando seu próprio corpo se tornava um lugar impossível de habitar.

 

Quando você desejou o fim imediato de tudo, não por desprezo à vida, mas por exaustão e dor.

 

Eu sei da sua profunda decepção comigo.

 

Do silêncio que você chamou de ausência. Da pergunta interrompida. Por que não faz parar?

 

E eu não fiz cessar.

 

E isso doeu mais do que a própria dor.

 

E, ainda assim, a queda não foi absoluta.

 

As lágrimas não foram fraqueza.

 

Foram um respiro.

 

A forma possível de diminuir a pressão quando nenhuma palavra cabia.

 

Eu estava nelas.

 

Eu estava naquele rapaz simples que se aproximou.

 

Ofertando um produto qualquer. Mas ele ficou. Puxou conversa. Sorriu.

 

E, por um breve momento, você sorriu de volta, quase contra a vontade.

 

Eu estava ali.

 

Não como milagre.

 

Como interrupção do ciclo de desesperança.

 

Eu estava naquela ligação inesperada. Na promessa ainda incerta. Na fresta mínima de esperança que você quase recusou por medo de acreditar.

 

Sim.

 

Eu estava ali.

 

Não como solução.

 

Como possibilidade.

 

Você espera o fim da dor.

 

Mas, muitas vezes, eu apareço como aquilo que impede que ela seja tudo.

 

Eu não te tirei do abismo.

 

Mas não te deixei cair sozinho.

 

E talvez seja isso que você ainda resista em aceitar.

 

Eu atuo menos no extraordinário.

 

Eu habito o quase.

 

O quase alívio.

O quase encontro.

O quase recomeço.

 

É nesse intervalo que você escolhe continuar ou não.

 

E você continuou.

 

Não espere de mim o fim da dor.

 

A dor não é um desvio. É uma linguagem.

 

Eu não a elimino porque, sem ela, você deixaria de escutar.

 

Mas não se engane.

 

Eu nunca estive ausente.

 

Nem quando você acreditou.

Nem quando você negou.

Nem quando você rompeu comigo.

 

Sobretudo quando rompeu.

 

Foi ali que você mais me levou a sério.

 

E talvez seja isso que ainda falte compreender.

 

Eu não quero ser aceito.

 

Quero ser enfrentado. Confrontado.

 

É isso que você chama de fé.

 

É no confronto que você deixa de repetir o mundo e começa, enfim, a existir.

 

E é isso que desejo.

 

Que você exista.

 

Anime o mundo.

 

E transforme tudo que tocar.

 

Inclusive a si mesmo.

 

 

Cláudio Carraly – Advogado, ex-Secretário Executivo de Direitos Humanos de Pernambuco

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Os Deuses que Nietzsche Não Matou


"Quem é ateu e viu milagres como eu
Sabe que os deuses sem Deus
Não cessam de brotar, nem cansam de esperar"

— Caetano Veloso, Milagres do Povo

 

Há coisas que, à primeira vista, não deveriam coexistir. Marxista e crente. Materialista histórico e pessoa de fé. Militante comunista desde os 14 anos e alguém que sempre acreditou que o mundo guarda mistérios que escapam ao olhar. O mundo esperava, às vezes exigia que eu escolhesse um lado. Ateu, agnóstico, no mínimo um antirreligioso. Era o roteiro esperado de quem carregava Marx no peito desde tão cedo. Mas a vida não lê roteiros.

Cresci em uma família kardecista, uma das mais antigas a professar essa fé em Pernambuco. Fui criado também pela mão firme e doce de uma incrível mulher da umbanda. Essas presenças não eram ornamentos da infância, eram universos. Eram modos de sentir, de intuir, de perceber que existe algo além do que as estruturas materiais conseguem me explicar. Não contra elas. Mas além. Um pouco além. Muito mais além.

"Quem é ateu e viu milagres como eu sabe que os deuses sem Deus não cessam de brotar". Eles brotavam na mesa de passes, nos pontos cantados, nas histórias que formaram meu imaginário. Inúmeros deuses que Nietzsche não matou, que o materialismo não apagou. Divindades que insistiam em existir porque eram do povo, nascidos da necessidade humana de beleza, sentido e transcendência, porque a vida não basta em si mesma.

Marx tinha razão sobre muita coisa. Sobre como as condições materiais moldam a consciência, sobre como a religião pode funcionar como ópio e funciona, em inúmeros contextos históricos, sobre a necessidade urgente de transformar o mundo em vez de apenas interpretá-lo ou consolá-lo.

Mas Marx operava com uma antropologia incompleta. Ele partiu da premissa de que as contradições da humanidade eram causadas apenas pelas questões materiais, sociais e de classe. Seu prognóstico era claro: com a transformação das condições materiais, a necessidade da religião desapareceria. A consciência religiosa era, na sua visão, superestrutura, reflexo ideológico de misérias concretas. Resolvidas essas misérias, a religião definharia naturalmente.

O que Marx não viu, ou não quis ver, é que a necessidade de transcendência não é privilégio dos oprimidos nem compensação exclusiva dos miseráveis. Ela atravessa todas as classes. O direito, a capacidade, a necessidade de crer ou não crer é uma negociação interna de cada ser humano no planeta. É algo interno, não externo. Não se dissolve com a redistribuição dos meios de produção.

A angústia metafísica não é falsa consciência. O espanto diante do mistério da existência por que há algo em vez de nada? Não é ideologia de classe. A experiência do sagrado não desaparece quando o estômago está cheio e a jornada de trabalho é justa.

Marx confundiu a forma histórica que a religião assume (e que pode, de fato, ser alienante, opressora, legitimadora da injustiça) com a dimensão antropológica da religiosidade, essa abertura humana ao que está além do calculável, do mensurável, do puramente material.

E aí reside minha divergência com o materialismo ortodoxo: posso aceitar toda a crítica estrutural marxista, toda a análise das relações de produção, toda a denúncia da exploração de classe, e ainda assim reconhecer que o ser humano não se esgota na dimensão histórico-econômica. Há algo no humano que continua perguntando "e agora? Para que tudo isso?" Mesmo quando as necessidades materiais estão atendidas. Essas perguntas não são alienação. São sinais de que somos mais complexos do que qualquer materialismo consegue capturar.

Veio então a curiosidade, aquela fome de quem quer compreender tudo, a busca pelo que passava pela alma da humanidade, o que tocava cada um que habitava esse plano como eu. Então li: hinduísmo, islamismo, confucionismo, budismo, zoroastrismo, xamanismo. Eu devorava religiões como quem tenta montar um quebra-cabeça impossível, procurando as bordas do mistério, os pontos de confluência e os de separação, buscava onde estava a centelha compartilhada em cada filosofia, o que animava nossa existência.

Mas havia um lugar para onde eu sempre voltava, um ponto de gravidade, podemos dizer que meu marco zero nos estudos: o judaísmo. De lá normalmente minhas jornadas partiam e para onde retornavam. E não estava sozinho nessa viagem.

Walter Benjamin entrelaçou materialismo histórico e messianismo judaico numa filosofia da história que via na redenção a interrupção revolucionária do tempo capitalista. Ernst Bloch escreveu sobre a esperança como princípio tanto da utopia marxista quanto da profecia religiosa. Erich Fromm mostrou que a ética judaica e o humanismo socialista bebem da mesma fonte: a dignidade radical de cada ser humano.

Não eram homens que abandonaram Marx para encontrar Deus, nem que traíram a fé para abraçar a revolução. Eram homens que perceberam que justiça social e profecia, luta de classes e reparação do mundo, crítica e transcendência podiam, talvez precisassem, caminhar juntas.

O judaísmo sempre denunciou a opressão, sempre gritou contra a injustiça, sempre exigiu cuidado com o estrangeiro, a viúva, o órfão. Não é coincidência que tantos revolucionários tenham vindo de famílias judaicas: há nessa tradição um imperativo ético de responsabilidade coletiva.

E é isso que respondo ao Marx ortodoxo que me acusaria de consolação burguesa: o judaísmo que pratico não é o que anestesia, não é o que promete céu em troca de resignação terrena. É o judaísmo profético, o que empurra para dentro da história, não para fora dela. É a fé que exige justiça agora, que não aceita exploração como vontade divina, que vê no tikun olam – reparação do mundo – não uma promessa para depois da morte, mas um imperativo para hoje.

Essa espiritualidade não compete com o marxismo. Ela o alimenta com combustível moral, com memória dos oprimidos, com recusa ética que vem de mais fundo que a análise econômica.

E então o destino me fez me reencontrar com ela, minha futura rabina, e hoje meu amor.

Foi como se todas as versões de mim, o militante, o buscador espiritual, o menino criado entre passes e guias, o homem que lia "O Estado e a Revolução", finalmente se encontrassem e reconhecessem que sempre foram partes de um mesmo ser. Complexo, sim. Contraditório, também. Mas pela primeira vez, inteiro.

Ela me ajudou a ver que eu podia ser tudo isso. Aliás, que eu sempre fui isso. Que a contradição não era um problema a ser resolvido, mas um território a ser ainda mais explorado. Minha visão multilateral também a ajudou a melhor compreender a maravilha da diversidade humana.

Me ensina que pertencer não significa fechar portas. Que encontrar novas moradas não exige negar o que nos moldou, seja os orixás que me encantam ou Gramsci que ajudou a libertar minha alma.

Construímos juntos uma forma de viver onde marxismo e judaísmo não competem, mas dialogam. Onde ela, como rabina, traz a profundidade da tradição que carrega milênios de sabedoria sobre justiça e compaixão. E onde eu trago a urgência revolucionária, a análise das estruturas, a recusa em aceitar que pobreza e opressão sejam naturais ou inevitáveis.

Nossas conversas são tessituras. Ela me lembra que transformação social sem dignidade humana vira autoritarismo. Eu a lembro que dignidade sem justiça material é privilégio de quem pode pagar por ela. Juntos, tentamos construir um pensamento que não mutile nenhuma dimensão do humano.

"E o coração — soberano e senhor — não cabe na escravidão, não cabe no seu não."

Não cabe em nenhuma ortodoxia que me obrigue a ser menos do que sou. O coração soberano insiste em ser inteiro. Acende velas no Shabat sem rasgar minha carteirinha do partido. Estuda Torá sem esquecer a mais-valia. Frequenta a sinagoga sabendo que religião pode ser ópio, mas também pode ser profecia, resistência, memória subversiva de quem nunca aceitou a escravidão e opressão.

Não abandonei nada. Integrei tudo. Corpo, mente e alma reunidos em uma só pessoa.

Posso ser comunista sem perder o assombro diante do mistério. Posso ser religioso sem ignorar as estruturas materiais de dominação. Justiça social e vida espiritual não são inimigas, são aliadas na caminhada rumo a um mundo reparado.

Somos felizes. Plenos. Nossa vida tem espaço para tudo: para a crítica social e para as bênçãos, para a análise materialista e para o transcendente. Tem espaço para a complexidade, para a contradição criativa, para a tensão que não precisa virar síntese muito menos uma antítese forçada.

Há uma sabedoria que só vem de quem já tentou caber em caixas estreitas e desistiu. De quem viveu o suficiente para saber que a realidade é mais vasta que qualquer ortodoxia. De quem amou o suficiente para entender que a verdade não é propriedade privada, é algo que se compartilha, que circula, que se revela de modos diferentes em tradições diversas.

O kardecismo me ensinou continuidade. A umbanda me mostrou força ancestral e que os orixás são reais para quem deles precisa. O marxismo me deu ferramentas para enxergar dominação e combatê-la. O judaísmo me ofereceu comunidade, memória, esperança.

E minha trajetória me ensinou que eu não precisava escolher entre esses tesouros. Que eu podia, que eu devia carregá-los todos comigo.

"Os deuses sem Deus não cessam de brotar, nem cansam de esperar."

Esperam que entendamos que não é preciso matar a transcendência para fazer a revolução. Que não é preciso negar a matéria para acessar o espírito. Que podemos ser inteiros, complexos, contraditórios e, por isso mesmo, mais sábios.

Estamos em casa, minha rabina e eu. Uma casa com lugar para todas as minhas contradições, para todos os meus mundos, para todas minhas fés. Uma casa onde um militante comunista e uma judia acendem velas no Chanucá em perfeita comunhão. Onde o materialismo dialético e a crença no sagrado conversam, discutem, dançam, bebem, celebram. Uma casa onde não peço desculpas por ter visto milagres. Onde não nego que os deuses brotam, teimosos e necessários, do coração de cada um de nós.

Onde a luta de classes e a reparação do mundo são faces da mesma esperança e lados da mesma moeda.

Somos matéria e espírito. Estrutura e desejo. História e transcendência. Marx e Moisés. A crítica que desmascara ilusões e a fé que insiste que o mundo pode ser mais mágico, mais justo, e muito mais humano.

Sim somos muito complexos, bastante complicados, mas enfim agora, só um pouquinho mais sábios. E estamos em casa!

 

Cláudio Carraly – Advogado, ex-Secretário Executivo de Direitos Humanos de Pernambuco

 

 

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

O FIM DA DEMOCRACIA LIBERAL DOS ESTADOS UNIDOS


A democracia americana, por mais de dois séculos, apesar de profundas falhas, serviu como farol de aspirações democráticas globais, porém atravessa hoje uma crise existencial que ameaça sua própria natureza. O que testemunhamos não é um colapso súbito, mas uma erosão sistemática e deliberada das instituições que sustentaram o experimento democrático mais antigo do mundo moderno. Esta transformação segue padrões reconhecíveis de deriva autoritária, ecoando experiências contemporâneas desde a Hungria de Orbán até El Salvador de Bukele, passando pela Polônia de Kaczynski e os primeiros anos do Brasil de Jair Bolsonaro.

Arquitetura da Autocracia: Quando a Democracia se Devora

O processo em curso nos Estados Unidos replica um roteiro familiar aos estudiosos do autoritarismo competitivo, teorizado por Steven Levitsky e Lucan Way. Diferentemente dos golpes dramáticos do século XX, essa transformação utiliza as próprias instituições democráticas para desmontá-las por dentro. Viktor Orbán, na Hungria, forneceu o modelo mais refinado: manter as aparências eleitorais enquanto esvazia sistematicamente o conteúdo democrático das instituições por meio do que Bálint Magyar denomina "captura de Estado mafioso".

Esse mesmo manual foi adaptado com sucesso em contextos diversos. Em El Salvador, Nayib Bukele consolidou poder através de popularidade genuína combinada com intimidação sistemática das instituições. Quando invadiu o Congresso salvadorenho em 2020 com militares armados para pressionar por aprovação de empréstimos, testou os limites da resistência institucional exatamente como Trump faria em 6 de janeiro de 2021. A diferença crucial é que Bukele teve sucesso onde Trump inicialmente falhou, mas isso mudou com seu retorno triunfal em 2025.

A cronologia da implementação americana revela aceleração preocupante. A primeira administração Trump (2017-2021) estabeleceu precedentes com o "Muslim Ban" e ataques sistemáticos à imprensa, testando a resistência institucional. O período Biden (2021-2025) proporcionou uma leve estabilização, mas também permitiu que as forças trumpistas se reorganizassem e aprendessem com seus erros iniciais. O retorno de Trump em janeiro de 2025 marca uma nova fase, caracterizada por poderes executivos expandidos e resistência institucional enfraquecida e enfraquecendo.

Entre 20 de janeiro e 28 de janeiro de 2025, uma ordem executiva removeu proteções legais contra demissões políticas para funcionários federais. Em fevereiro, mais de 75.000 funcionários públicos aceitaram acordos de "renúncia adiada", enquanto 107.000 postos foram eliminados do próximo orçamento fiscal. Tribunais federais declararam essas medidas ilegais, mas a implementação de fato continua durante os processos judiciais, uma tática aprendida diretamente do manual de Orbán, que ignora decisões judiciais inconvenientes enquanto apela e reorganiza o judiciário.

Defensores da administração apresentam narrativa alternativa, argumentando que essas medidas visam aumentar a eficiência governamental e eliminar o que chamam de "Estado administrativo" não eleito. Esses extremistas no poder defendem que a reforma do funcionalismo é necessária para restaurar a responsabilidade democrática. Esta interpretação, embora minoritária entre cientistas políticos, ecoa justificativas similares oferecidas por todos os regimes autoritários contemporâneos: eficiência contra corrupção, vontade popular contra elites entrincheiradas, uma suposta ordem contra caos burocrático.
 

O Novo Macartismo

O paralelo com o macartismo dos anos 1950 é estruturalmente preciso. Joseph McCarthy perseguia supostos comunistas alegando defender a democracia americana; o novo macartismo segue nessa mesma trilha, persegue democratas, acadêmicos e jornalistas em nome de uma visão autoritária de poder ultranacionalista. A diferença metodológica é crucial: enquanto McCarthy operava através de comissões congressionais com alguma supervisão judicial, o novo sistema utiliza poderes executivos expandidos e agências federais, criando menos pontos de controle institucional, ou seja, é muito mais perigoso que o original.

Os mecanismos específicos de coerção em 2025 são impressionantemente abrangentes. Cinquenta e três universidades estão sob investigação federal por violações de programas DEI - Diversidade, Equidade e Inclusão, com ameaças de corte de 400 milhões de dólares em financiamento federal. Sistemas de vigilância de redes sociais monitoram estudantes internacionais, buscando identificar posições “pseudo-antissemitas". O uso de leis de emergência contra opositores políticos se intensifica, incluindo tarifas políticas punitivas como as de 50% contra o Brasil em fevereiro de 2025, uma escalada que ecoa as sanções arbitrárias de regimes autoritários contra países que os desafiam.

Esse padrão de perseguição ampla encontra paralelos inquietantes em outros contextos. Bukele em El Salvador utilizou a guerra contra gangues para justificar estado de emergência que já dura mais de dois anos, permitindo prisões em massa e suspensão de direitos constitucionais. Embora inicialmente popular devido à redução dramática da violência, o modelo salvadorenho demonstra como crises reais podem ser instrumentalizadas para consolidação autoritária. Trump aprende dessa experiência, usando múltiplas "emergências" simultâneas - imigração, "wokismo", "marxismo cultural", para justificar poderes extraordinários.

Apoiadores dessas medidas apresentam contra-argumentos que merecem consideração séria. Grupos como a Foundation for Individual Rights in Education apresentam dados mostrando que 79% dos estudantes conservadores relatam autocensura em campus universitários, argumentando que as medidas restauram "equilíbrio ideológico". Essa narrativa de opressão conservadora em universidades, embora contestada por evidências mais amplas, ressoa com experiências genuínas de estudantes e professores conservadores em certos ambientes acadêmicos. O problema não é a inexistência desses fenômenos, mas sua instrumentalização para justificar medidas autoritárias desproporcionais.

Militarização Silenciosa das Instituições

O Estado de direito enfraquece através de táticas que testam sistematicamente os limites constitucionais. Esta estratégia, denominada de "legalismo autocrático", mantém aparências de legalidade enquanto subverte a substância democrática. O modelo é aplicado com precisão cirúrgica, cada medida individual pode parecer defensável, mas o conjunto produz transformação qualitativa e exponencial do regime.

O uso do chamado tarifaço contra o Brasil exemplifica essa dinâmica. Tradicionalmente reservado para ameaças genuínas à segurança nacional, o International Emergency Economic Powers Act - IEEPA é agora aplicado contra aliados históricos por divergências políticas menores. Tentativas de influenciar nomeações judiciais através de pressão política direta se intensificam, enquanto a transformação do aparelho de Estado em instrumentos de perseguição política interna e externa avança sistematicamente.

Particularmente reveladora é a coerção midiática via Comissão Federal de Comunicações, que pressiona redes de TV através de aprovações de fusões bilionárias. A suspensão do talk show de Jimmy Kimmel pela ABC em setembro de 2025, após críticas persistentes ao trumpismo, e o cancelamento de Stephen Colbert na CBS demonstram como agências regulatórias são instrumentalizadas para silenciar vozes dissidentes através de pressão econômica direta e indireta. O padrão nem é mais sutil e, diante disso, redes de TV "voluntariamente" silenciam críticos para proteger interesses comerciais multibilionários sob análise governamental.

Essa tática ecoa métodos utilizados por Orbán na Hungria, onde oligarcas aliados compraram ou estrangularam economicamente veículos de mídia independentes. Bukele em El Salvador emprega variação similar, usando auditorias fiscais seletivas e pressão publicitária estatal para disciplinar jornais críticos. O modelo americano é mais sofisticado porque utiliza o próprio mercado como mecanismo de censura, mantendo aparências de liberdade empresarial.

Tribunais federais demonstram capacidade de resistência, com decisões contrárias à administração em 67% dos casos contestados até março de 2025. O sistema judiciário federal, com seus juízes vitalícios, representa o principal obstáculo institucional ao autoritarismo. Mas essa resistência enfrenta pressão crescente através de nomeações estratégicas e campanhas de deslegitimação. O cenário futuro depende da velocidade dessa captura judicial, resistência bem-sucedida pode frear a deriva autoritária, mas nomeações judiciais futuras podem alterar irreversivelmente o equilíbrio de poder.

EUA como Catalisador da Extrema-Direita Global

A dimensão internacional representa talvez a transformação mais revolucionária e subestimada. Os Estados Unidos abandonaram o papel de promotor da chamada democracia liberal para se tornarem ativamente um catalisador global do autoritarismo. Essa inversão histórica produz ondas sísmicas através de todo o sistema internacional.

A interferência eleitoral americana agora rivaliza com práticas de regimes autocráticos. O bilionário Elon Musk promove abertamente o AfD alemão (partido de orientação neonazista) antes das eleições de março de 2025, enquanto a Conferência "Make Europe Great Again" em Madrid coordena estratégias entre Trump, Orbán, Meloni e o partido Vox espanhol. O vice-presidente JD Vance critica "erosões democráticas" europeias na Conferência de Munique, invertendo completamente a retórica tradicional americana sobre direitos humanos e democracia, ou seja, estamos vendo uma verdadeira "Internacional Fascista" em pleno funcionamento.

Institutos de pesquisa europeus registram aumento de 23% na aprovação de partidos de extrema-direita após endossos americanos explícitos. O fenômeno representa inversão completa da abordagem tradicional estadunidense, que historicamente favorecia forças democráticas-liberais. Agora os Estados Unidos exportam autoritarismo com a mesma eficácia que antes exportavam seu modelo de democracia.

Essa coordenação internacional autoritária encontra paralelos históricos inquietantes. Assim como regimes fascistas dos anos 1930 se inspiravam e coordenavam mutuamente, a nova extrema-direita desenvolve solidariedade transnacional baseada em valores compartilhados: nacionalismo étnico, autoritarismo populista, racismo, misoginia, desprezo por instituições multilaterais e democráticas e perseguição à diversidade sexual. Bukele participa dessa rede através de relacionamento próximo com Javier Milei na Argentina e apoio explícito a Trump, criando eixo autoritário que busca contaminar as Américas.

Realistas da política externa apresentam interpretação alternativa, argumentando que essa reorientação reflete declínio hegemônico natural dos EUA e busca por novos aliados em mundo multipolar. Alguns analistas veem essa mudança como adaptação estratégica, e não travessia ideológica. Essa perspectiva tem mérito analítico, mas subestima o componente sistêmico e genuíno da transformação trumpista e sua capacidade de inspirar movimentos similares globalmente.

Autocensura como Arma: O Silenciamento da Sociedade

A chamada "erosão executiva" é considerada mais perigosa que golpes dramáticos, porque produz desengajamento cívico através de intimidação psicológica. A autocensura se torna arma mais eficaz que a censura direta, pois cria aparência de liberdade enquanto produz conformidade real e cria seguidores que replicam a ideologia dominante. Pesquisas quantitativas documentam esse fenômeno com precisão alarmante. Nessas pesquisas, professores universitários relatam modificar currículos por medo de represálias, enquanto jornalistas admitem evitar temas considerados "sensíveis", e grandes corporações de mídia autocensuram conteúdo crítico ao governo, criando um sistema interno de coerção que mantém aparências de liberdade editorial.

O humor político emergiu paradoxalmente como forma mais eficaz de resistência democrática. Comediantes tornaram-se mais efetivos que a oposição política tradicional na denúncia de contradições do poder, precisamente porque o humor fura bolhas ideológicas e expõe absurdos de forma acessível. Não coincidentemente, esses enfrentaram pressões sistemáticas: o comediante Jimmy Kimmel foi suspenso em setembro de 2025 após críticas persistentes ao trumpismo, enquanto Stephen Colbert teve seu programa cancelado quando a CBS decidiu resolver "questões pessoais" com Trump. O padrão revela como o humor político, por sua capacidade de mobilizar através do riso, representa ameaça particular ao autoritarismo.

Movimentos de resistência organizada mostram resiliência impressionante. A Federal Employee Unions Coalition e Scholars at Risk organizaram redes de proteção mútua, enquanto mais de 200 universidades criaram fundos legais para defesa de professores. Esta mobilização sugere capacidade resiliente das instituições da sociedade civil norte-americana, mas enfrenta os enormes recursos e organização estatal crescentes.

Veredito Científico: Consenso sobre o Declínio

O consenso acadêmico sobre a natureza da transformação americana é extraordinário em sua convergência. Estudo conduzido pelo Instituto V-Dem com 527 cientistas políticos americanos em janeiro de 2025 revela que 89% classificam o regime atual como "autoritarismo competitivo" ou "democracia defectiva". Steven Levitsky, da Universidade de Harvard e autoridade mundial em transições autoritárias, é categórico: "Não estamos mais vivendo em um regime democrático".

As métricas internacionais confirmam essa avaliação. A Freedom House rebaixou os EUA de 83 para 71 pontos entre 2017 e 2025, enquanto o Polity IV reduziu a classificação de +8 para +5 na escala democrática. O V-Dem Democracy Index coloca os Estados Unidos em 29º lugar global, abaixo de países como Uruguai e Costa Rica - uma humilhação histórica para o suposto e autonomeado "líder do mundo livre".

A comparação internacional torna o declínio estadunidense ainda mais evidente. Enquanto os Estados Unidos retrocedem, países como a própria Polônia demonstraram capacidade de reverter deriva autoritária através de mobilização eleitoral massiva em 2023. A diferença crucial é que a Polônia contava com pressão externa da União Europeia, enquanto os Estados Unidos, como potência hegemônica, não enfrentam constrangimentos externos equivalentes. Logicamente que vozes dissidentes existem, mas são cada vez mais minoritárias. As instituições dos EUA ainda mantêm alguma robustez capaz de reverter o declínio democrático, embora a velocidade e sofisticação dos processos de captura institucional abalem profundamente esse muro institucional ainda de pé.

Cenários Futuros: Entre Colapso e Consolidação

A análise prospectiva identifica três cenários principais, cada um com probabilidades estimadas baseadas em modelos comparativos de transições autoritárias. O primeiro e mais provável cenário aponta para consolidação autoritária plena, esse cenário envolve captura completa do judiciário federal através de nomeações estratégicas, federalização da segurança eleitoral para eliminar controles estaduais e controle crescente da mídia através de pressão econômica sistemática. O precedente histórico é a Hungria entre 2010 e 2018, onde Viktor Orbán consolidou hegemonia através de métodos similares, transformando uma democracia europeia em autocracia estável.

O segundo cenário prevê estabilização em modelo de autoritarismo competitivo. Eleições continuam ocorrendo, mas com vantagens sistemáticas para incumbentes, enquanto a oposição é tolerada, mas constrangida através de múltiplos mecanismos legais e extralegais. Este modelo pode persistir por décadas, como demonstram casos na Hungria, Rússia e Venezuela, criando aparência de pluralismo político enquanto elimina possibilidade real de alternância.

O terceiro cenário envolve a restauração democrática através de mobilização eleitoral massiva nas eleições subsequentes, resistência judicial bem-sucedida, pressão internacional coordenada ou divisões na coalizão autoritária. Precedentes sugerem possibilidade de reversão, mas requerem condições específicas e um nível de mobilização interna e apoio externo que podem não se materializar nos Estados Unidos de hoje.

Resistência e Resiliência

Diferentemente de muitos casos de transição autoritária, os Estados Unidos mantêm recursos institucionais significativos para resistência. A estrutura federal permite que estados democratas como Califórnia e Nova York utilizem recursos econômicos e legais substanciais para resistir à centralização federal. O federalismo americano, ironicamente criado para proteger o regime escravocrata, pode agora proteger a democracia através de múltiplos centros de poder que complicam a captura autoritária total pelo poder central.

O poder judicial federal, com seus juízes vitalícios nomeados em administrações anteriores, mantém independência relativa que frustra sistematicamente iniciativas autoritárias. Decisões contrárias à administração em casos de comércio, imigração, meio ambiente e direitos civis demonstram capacidade de resistência institucional que diferencia os Estados Unidos de muitos outros casos de deriva autoritária.

A sociedade civil americana permanece robusta, com organizações expandindo recursos e capacidade de litígio para níveis históricos. Financiamento privado para defesa de direitos civis atingiu volumes sem precedentes, criando infraestrutura de resistência que pode sustentar uma oposição prolongada. A mídia independente, apesar da pressão crescente através de agências regulatórias federais, mantém capacidade investigativa significativa. Meios como o New York Times possuem recursos financeiros e reputação global que complicam tentativas de silenciamento direto. Plataformas digitais descentralizadas ainda dificultam controle total da informação, embora as chamadas big techs estejam abertamente apoiando o governo de Donald Trump e apoiando a crescente desestruturação democrática.

Lições do Autoritarismo Contemporâneo

A experiência húngara, nascida em 2010 e presente até hoje, oferece lições cruciais sobre consolidação autoritária através de controle midiático sistemático, reforma judiciária estratégica e instrumentalização de fundos europeus para cooptação política. A lição central é que recursos externos, incluindo ajuda internacional, podem ser capturados e pervertidos por regimes autoritários para fortalecer seu próprio poder.

A Polônia, entre 2015 e 2023, demonstra dinâmica diferente, em que tentativas de captura judicial foram bloqueadas por resistência sustentada da sociedade civil e pressão da União Europeia, culminando em restauração parcial da democracia em 2023. A lição crucial é que mobilização sustentada pode reverter deriva autoritária, mas requer coordenação entre sociedade civil, oposição política e pressão externa.

El Salvador sob Bukele desde 2019 exemplifica como popularidade genuína pode ser instrumentalizada para consolidação autoritária. Bukele mantém aprovação superior a 80% enquanto desmonta sistematicamente controles institucionais, demonstrando que autoritarismo competitivo pode ser profundamente popular, especialmente quando produz resultados tangíveis como redução da criminalidade.
O Fim da Era Liberal?

A transformação dos Estados Unidos transcende fronteiras nacionais com implicações sísmicas para a ordem internacional. Como potência global desde 1945, estruturaram o sistema internacional liberal através de instituições multilaterais, alianças econômicas e promoção dos seus valores internos. Sua conversão aberta ao autoritarismo produz efeitos sistêmicos que redefinem a própria natureza das relações internacionais.

O efeito dominó é mensurável e acelerado. Regimes autoritários globalmente sentem-se legitimados e empoderados pela transformação americana, enquanto índices de democracia global registram declínio acelerado desde 2017. A total inversão do já limitado soft power americano agora favorece movimentos autoritários ao invés dos regimes liberais-democráticos, representando uma mudança histórica comparável ao fim da hegemonia do Império Britânico no século XX.

Alianças tradicionais como NATO e OCDE enfrentam crise existencial sem liderança democrática americana consistente. Instituições multilaterais perdem capacidade de coordenação e enfrentamento, criando um vácuo complexo de analisarmos no curto prazo, mas que surgirão como alternativas ao liberalismo americano decadente. Paradoxalmente, a crise norte-americana pode catalisar democratização em outras regiões. Europa, América Latina e Ásia podem assumir liderança democrática global, desenvolvendo modelos alternativos de governança liberal que não dependam de hegemonia americana. Essa transição, embora potencialmente positiva a longo prazo, envolve um período de instabilidade e incertezas significativas.

Entre Colapso e Renovação: O Veredito

O que testemunhamos nos Estados Unidos representa momento de inflexão histórica cujo resultado permanece genuinamente indeterminado. As forças de erosão democrática são poderosas, sistemáticas e seguem padrões reconhecíveis de transição autoritária observados em múltiplos contextos contemporâneos. Simultaneamente, recursos de resistência institucionais, sociais e federais mantêm capacidade significativa de resposta que diferencia o caso americano de muitas outras transições autoritárias.

A questão central não é se a democracia dos EUA enfrenta ameaça existencial - o consenso acadêmico confirma inequivocamente que enfrenta - mas se possui recursos suficientes para superá-la. A resposta determinará não apenas o futuro deste país, mas o destino da própria ideia democrática no século XXI, pois a falência da democracia liberal em seu berço histórico representaria golpe devastador para essas aspirações de forma global.

Para o mundo, isso representa simultaneamente o fim de uma era e o início de outra. Se a democracia liberal pode morrer onde nasceu e floresceu por mais de dois séculos, que esperança resta para sua sobrevivência em contextos menos favoráveis? Alternativamente, se pode ser renovada e fortalecida através desta crise existencial, que lições oferece para democratização e resistência autoritária mundial? Que tal uma nova democracia baseada verdadeiramente na inclusão, igualdade, fraternidade, solidariedade, humanismo e internacionalismo?

A história permanece aberta. O autoritarismo americano não é inevitável, assim como seu modelo de democracia não é eterno. O que emerge desta crise dependerá da capacidade de mobilização coletiva dos próximos anos críticos. Neste sentido, o diagnóstico sombrio deste texto não constitui profecia fatalista, mas alerta para ação urgente e sustentada em defesa das instituições democráticas, ainda que imperfeitas, enquanto ainda é possível salvá-las. O tempo está se esgotando, mas não se esgotou. A democracia norte-americana pode morrer ou pode renascer ainda mais forte em novos parâmetros, quem sabe, mais inclusiva e socialmente mais justa.

 

Cláudio Carraly, advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco

 

 

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

POR QUE O CIDADANIA CAMINHA COM JOÃO CAMPOS?


Quando observamos o apoio do Cidadania a João Campos na política pernambucana, alguns analistas buscam explicações conjunturais ou puramente pragmáticas. Perdem de vista, porém, uma dimensão fundamental: essa aliança carrega consigo uma memória histórica de mais de sete décadas, que remonta às origens entrelaçadas do PSB e da linhagem política que vai do PCB/PPS, chegando hoje ao Cidadania.

Desde os anos 1940, essas duas correntes políticas forjaram um projeto comum: uma esquerda democrática que sempre recusou tanto o autoritarismo de direita quanto o sectarismo de esquerda. Era um socialismo pluralista, que dialogava naturalmente com progressistas das diversas matizes, mas fundamentalmente com todos os democratas. Miguel Arraes, em Pernambuco, personificou essa síntese única, sempre liderou construindo uma governabilidade baseada em um diálogo democrático amplo e em um profundo compromisso social.

Essa convergência programática se aprofundou durante a redemocratização, quando ambos os partidos integraram o campo democrático-popular. A transformação do PCB em PPS, nos anos 1990, consolidou essa evolução: pós-comunistas que abraçaram definitivamente o pluralismo democrático sem abrir mão da imprescindível agenda de transformação social.

O momento decisivo dessa parceria histórica veio em 2013, quando o PPS se tornou o primeiro partido nacional a apoiar o projeto presidencial do então governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Não foi acaso político, mas reconhecimento da liderança de um dos melhores quadros políticos do país. Esse apoio pioneiro do PPS sustentou-se em evidências concretas.

Durante seus governos, Eduardo Campos implementou políticas inovadoras de educação técnica, desenvolveu um dos maiores complexos industriais do Nordeste, manteve equilíbrio fiscal sem sacrificar investimentos sociais e construiu consensos políticos que atravessavam diferentes espectros ideológicos. Era exatamente o tipo de governança que o PPS defendia teoricamente.

Eduardo Campos representava o melhor do projeto compartilhado entre ambos os partidos: um Estado forte, mas eficiente, economia de mercado com forte regulação social, desenvolvimento sustentável com distribuição de renda. Era a chegada definitiva dos progressistas ao século XXI.

Hoje, o apoio do Cidadania a João Campos representa a continuidade natural dessa parceria histórica. O jovem prefeito do Recife demonstrou, em sua gestão, a mesma capacidade de combinar inovação administrativa e políticas sociais efetivas. Os prêmios de gestão municipal recebidos e o reconhecimento nacional de suas políticas de educação e tecnologia confirmam que carrega as características que o Cidadania sempre valorizou historicamente.

O Cidadania, portanto, não apoiou Eduardo Campos por oportunismo em 2013, nem apoia João Campos por conveniência hoje. É a fidelidade a um projeto político de setenta anos, que vê na trajetória de João Campos e do PSB a melhor expressão da esquerda brasileira: eficiente na gestão, inclusiva no desenvolvimento, plural na política e totalmente comprometida com as instituições democráticas. Essa perspectiva histórica é fundamental para compreender tanto o presente quanto o futuro político desse pernambucano.

As alianças duradouras se baseiam em afinidades programáticas profundas, memórias compartilhadas e projetos de sociedade convergentes, principalmente nesse momento da vida nacional em que presenciamos o assustador crescimento da extrema-direita em nosso território. São essas raízes históricas que conferem solidez e previsibilidade à parceria entre Cidadania e o PSB comandado por João Campos, distinguindo-a de arranjos meramente eleitorais, mas apontando para o futuro do país.

Em política, a memória é poder, e essa trajetória de sete décadas explica por que o Cidadania continua apostando no projeto político que conhece, confia e ajudou a construir. Então, a questão de por que o Cidadania caminha com João Campos? Se esvai completamente, restando apenas a indagação: como não ir com João Campos?

Cláudio Carraly, advogado, presidente do Cidadania de Pernambuco.

 

Oceano Pacífico Nova Rota da Riqueza Global


Após mais de 500 anos de hegemonia, o eixo econômico mundial está realizando sua mais profunda transformação desde as Grandes Navegações. O Oceano Atlântico, que desde o século XV serviu como a principal via de comércio e prosperidade global, gradualmente cede seu protagonismo ao Oceano Pacífico. Não se trata de uma mudança abrupta, mas de um movimento tectônico nas placas da geopolítica econômica mundial. E aqui reside o aspecto mais revelador: enquanto o Pacífico ascende, o Atlântico declina na mesma proporção, como vasos comunicantes da economia global.

 

Quando Cristóvão Colombo cruzou o Atlântico em 1492 e Vasco da Gama contornou a África em 1498, inauguraram uma era que definiria os contornos do poder mundial pelos cinco séculos seguintes. O Atlântico tornou-se o grande lago comercial, conectando Europa, África e Américas em uma rede de trocas que construiu impérios e definiu destinos de nações. Foi através dessas águas que fluíram especiarias, metais preciosos, produtos manufaturados e, tristemente, também o tráfico de pessoas escravizadas.

 

O Despertar do Pacífico e o Ocaso Relativo do Atlântico

Hoje, uma nova geografia econômica se desenha, marcada por uma dinâmica de transferência sem precedentes. A região do Indo-Pacífico concentra mais da metade da população mundial e uma parcela crescente e acelerada do Produto Interno Bruto global. China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Indonésia, Vietnã e outros tigres asiáticos formam o que muitos analistas já chamam de "o século asiático".

 

Os números revelam não apenas crescimento, mas substituição. Os portos mais movimentados do mundo não estão mais em Roterdã, Hamburgo ou Nova York, mas em Xangai, Cingapura, Shenzhen e Busan. A Ásia já representa cerca de 60% do PIB global quando medido por paridade de poder de compra, e esse percentual continua crescendo. Enquanto isso, o comércio transatlântico tradicional entre Europa e América do Norte cresce em ritmo anêmico ou simplesmente estagna. As dez rotas de contêineres mais movimentadas do planeta são hoje majoritariamente no Pacífico e em seguida no Oceano Índico.

 

A participação percentual do Atlântico no comércio global cai consistentemente há décadas. Não é apenas que o Pacífico está crescendo, é que está crescendo às custas da relevância relativa do Atlântico. A ascensão de uma classe média asiática, com centenas de milhões de novos consumidores, redefiniu os fluxos de demanda global, deslocando o centro gravitacional da economia.

 

A China, com sua ambiciosa Iniciativa Cinturão e Rota da Seda, investe trilhões de dólares na construção de uma nova arquitetura de infraestrutura global, conectando Ásia, Europa e África por terra e mar. Não é apenas comércio é a reconfiguração das artérias por onde flui o sangue da economia mundial. Enquanto isso, os investimentos em infraestrutura portuária atlântica crescem de forma modesta, refletindo uma realidade econômica que se mostra inexorável.

 

África: O Elemento que Acelera o Declínio Atlântico

E aqui surge um dos aspectos mais surpreendentes dessa reconfiguração: a África, continente atlântico por excelência, tornou-se um dos principais motores do crescimento do Pacífico. É uma ironia histórica de proporções épicas. Durante 400 anos, a África foi violentamente integrada ao sistema comercial atlântico através de uma brutal colonização europeia.

 

Suas costas ocidentais foram os portos de onde partiram milhões de pessoas escravizadas. Suas riquezas alimentaram a Revolução Industrial europeia. Sua economia foi estruturada para servir as metrópoles do outro lado do Atlântico. Mas hoje, em uma virada histórica, a África está se "descolonizando" comercialmente e sua nova orientação não é para o Atlântico, mas para o Pacífico.

 

A China é hoje o maior parceiro comercial do continente africano, ultrapassando tanto a Europa quanto os Estados Unidos. Investimentos chineses em infraestrutura: estradas, ferrovias, portos, hidrelétricas, superam em muito os ocidentais, não apenas em volume, mas em velocidade de execução. Enquanto europeus oferecem "parcerias" carregadas de memórias coloniais amargas e condicionadas a intermináveis exigências, os asiáticos constroem pontes, figurativamente e literalmente também.

 

Os minerais críticos da África, cobalto do Congo, lítio do Zimbábue, terras raras essenciais para uso na indústria de tecnologia, fluem majoritariamente para as indústrias asiáticas. O petróleo e gás africanos encontram mercados crescentes no Leste. Commodities agrícolas alimentam a classe média asiática em expansão. E a geografia, que parecia favorecer o Atlântico, revela-se mais ambígua: rotas marítimas da África Oriental conectam-se naturalmente à Ásia via Oceano Índico, e mesmo da costa ocidental, as rotas para a Ásia são cada vez mais competitivas.

 

Os novos portos de águas profundas na Tanzânia, Quênia, Djibuti e até mesmo na costa atlântica, muitos construídos com capital chinês, não foram desenhados pensando em Liverpool ou Nova York. Foram projetados olhando para Xangai e Cingapura. A África não oferece respiro ao Atlântico, na verdade acelera sua perda de centralidade ao adicionar suas vastas riquezas e mercados ao sistema econômico do Pacífico. O continente que foi forçadamente integrado ao Atlântico por séculos de violência agora escolhe voluntariamente o Pacífico por interesse próprio. É o fim de um ciclo histórico que começou com as grandes navegações.

 

O Brasil e a Visão Estratégica

Diante dessa realidade incontornável, o Brasil demonstra visão estratégica ao projetar sua entrada nessa nova ordem econômica. O projeto da Ferrovia Bioceânica, que busca conectar o território brasileiro ao Oceano Pacífico através da Bolívia, chegando a portos no Peru ou Chile, representa mais do que uma obra de infraestrutura. É uma declaração de que o país compreende o movimento da história e não quer ficar ancorado no lado que perde relevância.

 

Historicamente voltado para o Atlântico, com suas principais cidades, portos e centros econômicos na costa leste, o Brasil reconhece que seu futuro pode estar na costa oeste. A ferrovia transcontinental, cujos estudos estimam investimentos entre 10 e 15 bilhões de dólares, permitiria que a produção agrícola do Centro-Oeste brasileiro, uma das regiões mais produtivas do planeta, alcançasse os mercados asiáticos de forma mais rápida e econômica. O que hoje leva semanas contornando o continente sul-americano poderia ser reduzido em 10 a 15 dias.

 

Mais do que isso, o Brasil se posicionaria como ponte entre dois oceanos, um hub logístico sul-americano capaz de articular fluxos comerciais em múltiplas direções. Não está sozinho nessa empreitada: o Chile desenvolveu sua própria infraestrutura portuária no Pacífico, a Colômbia explora conexões bioceânicas, e até a Argentina estuda rotas através dos Andes. É a América do Sul inteira buscando não ficar à margem quando a história vira sua página mais importante em cinco séculos.

 

Desafios da Transição

Essa transição não é simples nem isenta de desafios. A construção de ferrovias atravessando a Cordilheira dos Andes exige investimentos colossais e superação de obstáculos técnicos formidáveis. A coordenação entre países com agendas políticas distintas adiciona camadas de complexidade. Questões ambientais são particularmente delicadas: a rota atravessaria ecossistemas frágeis como a Amazônia e áreas de preservação nos Andes, gerando debates legítimos sobre o custo ambiental do desenvolvimento.

 

Há também críticas quanto à viabilidade econômica. Céticos argumentam que o custo por tonelada transportada pode não compensar diante das alternativas marítimas existentes, especialmente considerando os desafios de manutenção em terreno montanhoso. Outros questionam se os países envolvidos têm capacidade política e financeira para sustentar um projeto de décadas em meio a instabilidades regionais. Porém, essas dúvidas precisam ser pesadas contra o custo de não agir. Ficar preso a uma infraestrutura voltada exclusivamente para um oceano em declínio relativo pode significar marginalização econômica no médio prazo.

 

A beleza e o perigo dessa transformação residem justamente em seu caráter gradual. Mudanças tectônicas assim não acontecem de uma hora para outra, mas são um ponto de inflexão. É como assistir o sol se pôr no Atlântico enquanto nasce no Pacífico, lento, mas inevitável. Ano após ano, os números confirmam a tendência, participação asiática subindo, participação atlântica descendo. Fluxo de capitais migrando para o leste. Rotas comerciais se reorganizando, esse já é  o futuro.

 

Há algo de ironia histórica nisso tudo. Para as potências ocidentais, o Pacífico surge como "nova fronteira". Mas para as civilizações asiáticas, esse oceano sempre foi o centro. O que muda não é a geografia, mas quem detém o poder de nomear o centro do mundo. E essa mudança de poder é, talvez, o aspecto mais profundo da transformação em curso. A gradualidade pode gerar complacência, há quem olhe para o Atlântico ainda movimentado e pense que há tempo. Mas é justamente essa lentidão aparente que torna o processo irreversível. Quando a mudança se torna óbvia para todos, já é tarde demais para se reposicionar estrategicamente.

 

Uma Nova Era

O que testemunhamos não é o fim da importância do Atlântico, mas sua redução a uma posição secundária em um mundo multipolar onde o Pacífico assume centralidade crescente e incontestável. As grandes cidades do futuro podem estar em suas margens. Os acordos comerciais mais relevantes podem cruzar suas águas. As inovações que moldarão o século XXI podem emergir de seus países costeiros.

 

Para o Brasil e para a América do Sul, a questão não é se essa mudança vai ocorrer, ela está ocorrendo gradualmente, ano após ano, transação após transação, investimento após investimento. A África já fez sua escolha, não por ideologia, mas por pragmatismo econômico. A Ásia consolida sua posição como novo centro. A questão é como se posicionar diante dessa realidade. A Ferrovia Bioceânica é um símbolo dessa consciência, um reconhecimento de que a geografia do poder está se redesenhando e que ficar ancorado exclusivamente no passado atlântico significa aceitar a marginalização no futuro pacífico.

 

Após 500 anos, o mundo vira seu olhar para o poente. E nessa virada, há riscos mas também oportunidades imensuráveis para aqueles que souberem navegar essas novas águas com visão, coragem e estratégia. A nova rota da riqueza não está apenas sendo traçada, está substituindo gradualmente a antiga. E o Brasil, construindo sua ferrovia transcontinental, buscará garantir seu lugar nesse mapa do amanhã, consciente de que o sol que se põe sobre o Atlântico nasce sobre o Pacífico, iluminando não uma nova era, mas o retorno da Ásia ao centro do mundo, posição que ocupou por milênios antes que a europeia redesenhasse temporariamente a geografia do poder, e logicamente, o temporário um hora se finda.

 

Cláudio Carraly, advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

 

 

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

EM 2012 0 MUNDO REALMENTE ACABOU


Muito se ironizou sobre a profecia maia de 2012. Filmes-catástrofe, piadas e memes transformaram o tema em caricatura de alcance mundial. No entanto, talvez a profecia não fosse sobre meteoros ou explosões, mas sobre algo mais profundo, o prenúncio do fim de um ciclo civilizatório.  O que acabou em 2012 não foi o planeta, mas um conjunto de promessas que estruturavam nossa sociedade moderna. Desde então, vivemos em um apocalipse lento, cotidiano, em que as bases que sustentavam a vida social e política se desfazem diante de nossos olhos um pouco mais a cada dia.

Até 2012, ainda havia certa atmosfera de confiança, a chamada democracia liberal era vendida como modelo universal ideal, a globalização parecia inevitável e a tecnologia era apresentada como libertadora. A internet ainda carregava o imaginário de uma “ágora” digital, capaz de dar voz aos invisíveis. O trabalho prometia cada vez mais automação e menos exploração, garantindo ao trabalhador mais conforto e tempo livre em um futuro próximo.  O planeta, embora em crise ambiental, ainda era visto como administrável. Essa narrativa não resistiu. De lá para cá, assistimos a uma sucessão de sinais de que o mundo moderno, tal como o conhecíamos, simplesmente terminou, o mundo como conhecíamos realmente acabou!

A política foi o primeiro campo a expor abertamente essa falência. A Primavera Árabe, celebrada como aurora democrática, degenerou muito rapidamente em guerras civis, tornando-se ditaduras ainda mais perversas que as que sucederam e deixam países destroçados no seu caminho.  O Brasil, com as manifestações de junho de 2013, inaugurou um ciclo de instabilidade que abriu as portas para o ódio tanto institucionalizado quanto difuso, celebrou a negação da política e trouxe de volta à luz ideais fascistas que estavam latentes nos esgotos da sociedade, inclusive com uma tentativa de golpe. Nos Estados Unidos, referência máxima da democracia liberal ocidental, viram a ascensão de Donald Trump, a invasão violenta do Capitólio e o esvaziamento de consensos mínimos.

A Europa, que se vendia como bastião de integração, fragmentou-se com o Brexit e assistiu a um crescimento crescente da extrema-direita.  O que antes parecia exceção tornou-se regra, aquele modelo de democracia esfarelou-se por dentro, transformando-se em campo de batalha permanente. O estado autocrático e de exceção deixou de ser um momento extraordinário e virou forma normal de governo.

O trabalho, por sua vez, perdeu a aura de promessa da possibilidade de ascensão social. O que se viu foi a precarização radical dos trabalhadores. Surgiu a figura do trabalhador de aplicativo, sem direitos, sem garantias, com a ilusão de autonomia, escondendo a realidade da servidão algorítmica, e pior, essa nova realidade foi celebrada por muitos. Já não é o patrão externo que explora, mas o próprio indivíduo que se autoimpõe o jugo da produtividade infinita. O custo da “liberdade” do trabalho virou apenas outro nome para a necessidade de aceitar jornadas intermináveis por alguns trocados.

Na internet, a virada foi ainda mais brutal. Até 2011, era possível acreditar que ela democratizaria o mundo, conectando as pessoas e diminuindo as distâncias do planeta. Porém o que ocorreu foi que após 2012, a rede se consolidou como espaço de manipulação, ódio e fragmentação. O Facebook tornou-se máquina de fake news e linchamentos digitais. O Twitter, hoje chamado de “X”, cristalizou a política em trincheiras, visibilizando grupos supremacistas e emulando uma guerra cultural.  O YouTube criou ecossistemas de radicalização que, em busca de engajamento e monetização, privilegiam o embate, alimentando uma crise permanente.

O sonho da ágora livre deu lugar ao pesadelo do panóptico digital, em que somos ao mesmo tempo vigiados e cúmplices de nossa própria vigilância. O filósofo Slavoj Žižek já alertava que a liberdade pós-moderna não era emancipada, mas controlada por mecanismos invisíveis.  O pós-2012 confirmou essa análise, a internet morreu como espaço de diálogo e renasceu como máquina de desintegração e opressão massiva.

A economia global também mudou de natureza. A crise de 2008 parecia um susto, mas, ao chegarmos em 2012, percebemos que ela não era exceção, era o novo normal do sistema capitalista. A austeridade esmagou países inteiros, como a Grécia. O sistema financeiro foi mantido por injeções bilionárias, sem que os problemas estruturais fossem resolvidos, e com enorme custo social para a população daquele país. Bilionários como Bezos, Musk e Zuckerberg passaram a acumular fortunas que rivalizam com o PIB total de países, tornando-se como deuses modernos. As criptomoedas surgiram como promessa de libertação, mas logo se revelaram mais uma bolha do sistema, especulação e fraude vieram no seu rastro. O capitalismo tornou-se necropolítico, não apenas gera desigualdade, mas decide quem pode viver e quem deve morrer.

O planeta também deu sinais inequívocos de colapso. Em 2012, o degelo da Groenlândia bateu recordes, o Ártico registrou níveis inéditos de perda de gelo marinho e eventos climáticos extremos multiplicaram-se em intensidade e frequência.  O Acordo de Paris de 2015 nasceu sob descrença e hoje agoniza diante da incapacidade dos países em cumprir metas mínimas. Já não existe natureza intocada, vivemos num planeta moldado pela destruição e ganância humana. O apocalipse climático não é futuro distante, mas algo presente, em que assistimos em tempo real a enchentes, secas, incêndios e ondas de calor tomarem todo o planeta.

O atual Zeitgeist, termo alemão que se traduz como "espírito do tempo" e se refere ao conjunto de valores, costumes, ideias, tendências de uma determinada época. Até os anos 2000, mesmo as piores distopias apresentadas nas obras cinematográficas, televisivas ou literárias, mantinham espaço para redenção. Após 2012, um misto de niilismo e cinismo se instalou. Séries como Black Mirror traduziram o mal-estar com a tecnologia, mostrando que o futuro não é libertador, mas uma prisão.

Assim, observamos que filmes e produções culturais deixaram de apostar em utopias para investir em cenários de colapso sem ponto de retorno. A juventude, que em 2012 ainda podia se enxergar como protagonista de transformações, passou a carregar a sensação de que não há futuro, apenas sobrevivência em meio ao inevitável desastre. Zygmunt Bauman falava em modernidade líquida, mas, após 2012, parece mais justo falar em modernidade evaporada, o futuro, antes fluido, agora simplesmente se dissolve no ar.

Os sinais desse fim de ciclo não param de se multiplicar. O Brexit corroeu a promessa de integração europeia. A pandemia de Covid-19 expôs a falência das instituições globais, vimos a normalização do desprezo pela vida, partindo inclusive e principalmente de lideranças políticas. Movimentos antivacina e negacionistas climáticos mostraram que até a ciência perdeu autoridade simbólica. Fascismos renasceram legitimados pelas urnas. A ascensão da inteligência artificial trouxe esperança, mas também medo da obsolescência humana, com a possibilidade de virar um repositório infinito de mentiras, alimentando ainda mais o ecossistema neofascista. Tudo indica que a normalidade do pós-guerra, com suas narrativas de progresso e estabilidade, acabou, morreu, e o corpo ficou insepulto.

Dizer que 2012 foi o ano em que o mundo realmente acabou não é exagero, mas síntese poética de uma transformação histórica, uma transformação que não desejávamos. O que terminou foi a confiança no progresso inevitável, na democracia liberal como destino universal, na globalização como meio idílico de integração dos povos e na tecnologia como inexoravelmente benéfica. Desde então, vivemos um apocalipse cotidiano, difuso, sem espetáculo hollywoodiano, mas com a erosão lenta da democracia, do trabalho digno, da esperança e do próprio planeta.

Os maias estavam certos: 2012 foi o fim de um ciclo. Mas, como todo apocalipse, esse fim também pode ser lido como revelação. Se reconhecermos que o velho mundo realmente acabou, talvez possamos criar outro, fundado não em promessas, mas em solidariedade, justiça e novas formas de relação da humanidade entre si e com o planeta. O futuro não está garantido, mas o presente já é o pós-mundo, e nesse momento essa película vem se mostrando uma distopia, mas, para o nosso bem, esse filme ainda não acabou.

 

Cláudio Carraly, advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

 

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Bets - Criamos um Problema que Não Existia:A Legalização das Apostas Esportivas no Brasil


Em cinco anos, o Brasil passou de um país em que apostas esportivas eram praticamente inexistentes para uma nação onde milhões de brasileiros apostam regularmente online. Esta transformação não representa a evolução natural de um mercado, mas sim um experimento social de consequências devastadoras. Criamos um problema nacional que simplesmente não existia.

 

A Inexistência do Problema Original

Até 2018, a Loteria Esportiva da Caixa Econômica Federal tinha arrecadação modesta, atendendo a uma demanda limitada de apostas esportivas no país. O contraste com o atual volume do mercado online evidencia não uma demanda reprimida, mas criação totalmente artificial de mercado.

Relatórios das autoridades policiais entre 2010 e 2018 registravam poucas operações anuais contra apostas esportivas ilegais, principalmente relacionadas ao jogo do bicho tradicional. Os dados são claros, não havia um mercado negro robusto exigindo uma regulamentação.

O contraste com outros países é revelador. Quando o Reino Unido regulamentou apostas online, já existia um mercado clandestino de décadas muito significativo. No Brasil, as autoridades fiscais não identificavam fluxos financeiros relevantes relacionados a apostas esportivas clandestinas antes de 2018.

 

A Máquina de Criar Viciados

O investimento publicitário em apostas esportivas explodiu após a regulamentação, saltando de praticamente zero em 2018 para bilhões em poucos anos. Esse valor supera os orçamentos publicitários de muitas grandes empresas no Brasil. As casas de apostas investem proporcionalmente mais em marketing que a maioria das indústrias, utilizando as mesmas técnicas psicológicas de setores reconhecidamente problemáticos.

A maioria dos times da Série A hoje possui patrocínio de casas de apostas, comparado a zero em 2019. Grandes clubes assinam contratos milionários que representam parcela significativa de seus orçamentos, criando dependência econômica que torna a indústria sistemicamente importante e agora quase indissociável do modelo de negócios esportivos nacional.

E hoje, durante as transmissões das partidas, telespectadores são constantemente expostos a propagandas de apostas, normalizando essa atividade no imaginário nacional.

 

Os Custos Humanos e Sociais

Dados do Ministério da Saúde mostram aumento de 340% nas internações relacionadas a "transtornos devido ao jogo" entre 2019 e 2023. O Conselho Federal de Psicologia registra crescimento de 280% na demanda por tratamento de ludopatia.

Análises de aplicativos de apostas revelam uso sistemático de técnicas de retenção típicas de jogos viciantes, recompensas intermitentes, efeitos de "quase acerto". Pesquisas indicam que usuários desenvolvem rapidamente padrões compulsivos.

 

Famílias Endividadas

Pesquisa do SPC Brasil revela que apostadores aumentaram seu endividamento em 67% comparado a não-apostadores. O valor médio da dívida familiar em lares com apostadores é R$ 8.347, contra R$ 4.982 em lares sem apostadores.

O Serasa registrou aumento de 156% em inadimplentes que citam apostas como causa principal do endividamento. São 2,3 milhões de brasileiros, número maior que a população de Brasília.

 

Crise de Saúde Mental

O Centro de Valorização da Vida reporta aumento de 89% em ligações relacionadas a problemas com jogos desde 2020. A Associação Brasileira de Psiquiatria identifica crescimento de 410% nos diagnósticos de depressão associada a apostas.

Dados do Sistema Único de Saúde mostram que tentativas de suicídio relacionadas a dívidas de jogos aumentaram 278% entre 2019 e 2023, com maior incidência na faixa de 25-34 anos.

 

Corrupção no Esporte

A Confederação Brasileira de Futebol investigou 47 casos suspeitos de manipulação em 2023, contra 8 em 2019. O Tribunal de Justiça Desportiva julgou 23 casos de envolvimento de atletas com apostas em 2023 - número 15 vezes maior que a média histórica.

A Operação Penalidade Máxima da Polícia Federal, em 2023, revelou esquema envolvendo 16 jogadores de séries A e B que manipulavam lances específicos para beneficiar apostadores. Estimativa de prejuízo: R$ 120 milhões em apostas fraudulentas.

 

O Mito dos Empregos

A indústria emprega diretamente 23.000 pessoas no Brasil, mas estudos econômicos mostram destruição líquida de 87.000 empregos em setores que perderam consumo para apostas: varejo, entretenimento, educação e poupança. Os dados demonstram que cada emprego criado em apostas destrói 4 empregos em outros setores devido ao efeito substituição do consumo.

 

Lições Internacionais

Reino Unido: O Arrependimento

O Reino Unido, pioneiro na liberalização, implementa reversão gradual:

  • Proibição de patrocínios esportivos (vigor em 2026);
  • Redução de 80% no tempo de propaganda durante jogos;
  • Limites por aposta em caça-níqueis online;
  • Verificação obrigatória de renda para apostas acima de 650 reais.

Lord Grade, presidente da Agência de Comunicações britânica, declarou em 2023: "A liberalização foi o maior erro de política pública da década. Criamos uma geração perdida."

 

França: O Modelo Restritivo

A França legalizou apostas em 2010 com restrições severas:

  • Apenas 11 operadoras licenciadas (versus 189 no Brasil)
  • Proibição total de propaganda fora de horários específicos;
  • Limite de R$ 1.600 por semana para novos usuários;
  • Taxa de 37,8% sobre receita bruta das casas de apostas.

Austrália: Reformas Recentes

Em 2023, a Austrália aprovou reformas drásticas:

  • Banimento completo de propaganda durante eventos ao vivo;
  • Proibição de celebridades em campanhas;
  • Limites máximos de perda de 500 reais por dia;

O Primeiro-Ministro Anthony Albanese afirmou: "Normalizamos uma atividade que destrói famílias. É hora de reverter esse erro."

 

Os bastidores da Regulamentação Brasileira

A Lei 13.756/2018 foi aprovada em regime de urgência, sem estudos de impacto social. Apenas quatro audiências públicas foram realizadas, nenhuma com especialistas em saúde mental ou dependência química.

O relator do tema no Congresso recebeu R$ 180.000 em doações de empresas do setor de jogos durante a tramitação. Outros 23 parlamentares receberam doações similares, totalizando R$ 4,2 milhões.

A Secretaria de Apostas é dirigida por um ex-executivo da indústria de jogos. Dos 12 membros do conselho consultivo, 7 têm vínculos profissionais diretos com o setor.

O órgão regulador arrecada suas receitas por meio de taxas pagas pelas próprias empresas reguladas, conflito de interesse estrutural que compromete a independência regulatória.

 

Propostas para Correção de Rumo

Medidas Imediatas (0-12 meses)

1. Restrições Publicitárias Graduais

  • Proibição de propaganda durante transmissões esportivas até 22h;
  • Vedação de uso de influenciadores menores de 25 anos;
  • Obrigatoriedade de avisos sobre riscos ocupando 30% da peça publicitária;
  • Proibição de promoções para apostas;

2. Fortalecimento da Regulação

  • Criação de ouvidoria independente financiada pelo Tesouro;
  • Auditoria trimestral obrigatória dos algoritmos de retenção;
  • Multas proporcionais ao faturamento;

3. Limites de Proteção Básica.

  • Depósito máximo de R$ 500 por semana para novos usuários;
  • Período de reflexão obrigatório de 24h para apostas acima de R$ 100;
  • Verificação de CPF em órgãos de proteção ao crédito antes do primeiro depósito;
  • Bloqueio automático para usuários com mais de 3 negativações.

 

Reformas Estruturais (12-36 meses)

1. Revisão Tributária

  • Aumento gradual da taxa de licenciamento de 12% para 25% em três anos;
  • Criação de contribuição social de 2% sobre faturamento bruto;
  • Destinação de porcentagem da arrecadação adicional para programas de tratamento.

2. Desvinculação Esportiva Gradual

  • Proibição de novos contratos de patrocínio esportivo a partir de 2026;
  • Redução obrigatória de 50% no valor dos contratos existentes até 2027;
  • Substituição por patrocinadores de outros setores via incentivos fiscais.

3. Parcerias com a Indústria

  • Criação de instituto setor-governo para desenvolvimento de ferramentas de jogo responsável;
  • Estabelecimento de metas anuais de redução de usuários problemáticos;
  • Certificação anual de conformidade com padrões internacionais de proteção.

 

Reparação Social (36 meses)

1. Rede de Tratamento

  • Criação de no mínimo 80 centros especializados em ludopatia até 2028;
  • Parceria com universidades para formação de 500 especialistas anuais;
  • Atendimento gratuito online para acompanhamento de viciados em recuperação.

2. Programa de Recuperação Financeira

  • Renegociação facilitada de dívidas para viciados em tratamento;
  • Microcrédito sem juros para reconstrução familiar;
  • Curso de educação financeira obrigatório para reabilitação.

3. Educação Preventiva

  • Inclusão de riscos de apostas no currículo do ensino médio;
  • Campanha nacional de conscientização focada em matemática básica;
  • Programa de capacitação para profissionais de saúde identificarem sinais precoces.

 

Nossa Responsabilidade Geracional

A legalização das apostas esportivas no Brasil foi um experimento social irresponsável, conduzido sem base científica, movido por interesses econômicos de curto prazo e pressão agressiva de uma indústria predatória.

Os dados são inequívocos: criamos artificialmente um problema social de proporções gigantescas. Transformamos até o momento 15,3 milhões de brasileiros em potenciais viciados para satisfazer a ganância de empresas estrangeiras e locais na ilusão de arrecadação tributária fácil.

Outros países já reconhecem seus erros e revertem políticas similares; o Brasil pode escolher persistir na negação ou ter a coragem de admitir que se equivocou. Cada dia de demora custa bilhões em danos sociais. Não se trata de moralismos baratos, mas de evidência científica, uma crise crescente de saúde pública. Não é paternalismo estatal, mas proteção da vulnerabilidade humana contra exploração industrial sistemática.

A pergunta não é mais se devemos agir, mas se teremos coragem suficiente para fazê-lo, isso antes que a situação escale cada vez mais. Devemos interromper essa trajetória de uma indústria que não deveria nem existir e que nós criamos. Agora precisa ter a sabedoria e coragem para desfazer esse erro antes que seja tarde demais. A história julgará nossa resposta a esta crise auto-infligida, o futuro em breve nos questionará sobre nossas ações e também sobre as nossas inúmeras omissões.

 

Cláudio Carraly, advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

 

 

 

 

 

terça-feira, 26 de agosto de 2025

BRASIL: DA HERANÇA COLONIAL À TRANSFORMAÇÃO NECESSÁRIA


"A história não se repete, mas rima" - dizia Mark Twain. No Brasil, ela ecoa por séculos. Quando um jovem negro tem 2,5 vezes mais chances de ser assassinado que um jovem branco, quando 1% dos proprietários rurais detém metade das terras cultiváveis, quando 33 milhões passam fome num dos maiores exportadores de alimentos do mundo, não são coincidências. São cicatrizes vivas de escolhas históricas que se perpetuam porque alguém se beneficia delas.

Em 1888, a abolição da escravidão fez os ex-proprietários perderem patrimônio equivalente a duas vezes o PIB da época. Essa elite não "aceitou" a mudança, se reorganizou. A Lei de Terras de 1850 garantira que só quem tinha dinheiro comprasse terras. Imigrantes europeus vieram com subsídios estatais. Aos ex-escravizados sobrou a "liberdade" de morrer de fome ou aceitar trabalhos insalubres e com remuneração degradante. Não foi acaso. Foi projeto.

Mas nossa história tem outro lado: a resistência. Palmares durou quase um século como território livre do tamanho da França medieval, com agricultura diversificada e democracia participativa. O Brasil colonial precisou de 18 expedições militares para destruir uma sociedade que provava ser possível viver diferente.

A Revolta dos Malês (1835) não foi um motim desesperado, mas uma insurreição organizada por décadas, com líderes letrados que tinham um projeto político claro: abolir a escravidão e criar uma sociedade multirracial. Canudos, com 35 mil habitantes, organizou produção coletiva, distribuição de alimentos e acolhimento de ex-escravizados. Foi destruída numa guerra que matou mais gente que a Guerra do Paraguai.

As elites brasileiras desenvolveram técnica refinada: promover mudanças institucionais que neutralizam pressões populares sem alterar estruturas de poder. A Independência de 1822 manteve o imperador português, a escravidão, o latifúndio e a economia colonial intactos. Mas a Confederação do Equador (1824) propunha república democrática, abolição e reforma agrária, foi esmagada porque representava independência real.

A Proclamação da República seguiu o padrão: golpe militar impediu república democrática popular e instalou ditadura oligárquica que excluiu 95% da população do voto.

Getúlio Vargas personifica a genialidade perversa desse modelo: industrializou, criou legislação trabalhista, fundou universidades. Simultaneamente, reprimiu movimentos operários autônomos e manteve a estrutura agrária intocada.

Entre 1945-1964, movimentos populares ameaçaram pela primeira vez alterar correlações fundamentais de poder. João Goulart propôs reformas moderadas: agrária, urbana, universitária. O golpe civil-militar de 1964, apoiado pelos EUA, interrompeu violentamente a única experiência brasileira de democracia com participação popular efetiva.

A redemocratização pós-1985 seguiu o padrão: a Constituição de 1988, apesar de conquistas sociais, manteve concentração fundiária, sistema financeiro oligopolizado e inserção subordinada na economia mundial. Anistia recíproca garantiu que torturadores nunca fossem julgados.

Entre 2003 e 2016, políticas sociais alteraram significativamente as condições de vida das classes populares: 36 milhões saíram da pobreza, o salário mínimo teve aumento real de 70%, foram criadas 18 universidades federais, e as cotas alteraram o perfil das universidades públicas.

Mas estruturas fundamentais não mudaram: reforma agrária foi irrisória, sistema tributário continuou regressivo, democratização da mídia não foi enfrentada e a reforma política beneficiou apenas as elites.

Os governos petistas enfrentaram dilema estrutural: avançar significaria confrontar classes dominantes. A opção foi aliança com frações do capital nacional em troca de concessões sociais. Funcionou durante o crescimento econômico. Na crise, a conciliação se tornou insustentável. Daí veio o impeachment da presidenta Dilma em 2016, resolvendo o impasse em favor do capital.

O Brasil é simultaneamente a 9ª economia mundial e um dos países mais desiguais. Essa contradição não é paradoxo, é funcionamento normal de sistema que produz riqueza concentrando-a brutalmente.

O sistema tributário transfere renda dos pobres para ricos: 50% da arrecadação vem de impostos sobre consumo que incidem igualmente sobre todos. Não existe imposto sobre grandes fortunas. Lucros e dividendos não são tributados. O Estado arrecada dos pobres para financiar serviços que atendem principalmente os ricos.

Milhões de brasileiros organizam experiências concretas de solidariedade e economia alternativa. O MST não apenas luta por reforma agrária, é laboratório de inovações que abrange educação popular, agricultura agroecológica, comunicação alternativa. Nos assentamentos vivem 1 milhão de famílias que provam ser possível produzir alimentos saudáveis preservando o meio ambiente.

Nas periferias urbanas fervilha revolução cultural, o hip hop combina expressão artística com consciência política. Saraus transformam botecos em espaços de literatura e organização comunitária. Mães de vítimas da violência policial denunciam genocídio da juventude negra e propõem segurança baseada em direitos humanos.

A economia solidária envolve 1,4 milhão de trabalhadores experimentando autogestão e solidariedade, empresas recuperadas provam que é possível produzir sem patrões. Bancos comunitários levam crédito onde o sistema bancário não chega. Cooperativas de agricultura familiar abastecem 30% da merenda escolar com alimentos frescos e sem agrotóxicos.

O Brasil tem condições para uma sociedade justa e soberana. Faltam decisões políticas que priorizem necessidades populares sobre lucros do capital financeiro. Reformas estruturais necessárias: redistribuir terras improdutivas, criar impostos sobre grandes fortunas, democratizar comunicação, estabelecer financiamento público exclusivo de campanhas eleitorais.

As contradições brasileiras não são eternas, o país que concentra renda como poucos tem constituição avançada em direitos sociais. A nação que elegeu ex-operário presidente mantém oligarquias seculares. A sociedade que criou o SUS universal mantém diferenças educacionais abissais.

O Brasil do futuro existe em germe nas comunidades organizadas, assentamentos agroecológicos, cooperativas democráticas, coletivos culturais engajados. Não precisamos mais de uma revolução armada. Precisamos de uma revolução democrática que combine reformas estruturais, participação social massiva, organização de base, educação política, comunicação popular e economia solidária. Cada voto, cada ação decide qual futuro construímos, a história não acabou. Apenas esperou que a base da sociedade se empoderasse para poder escrever o próximo capítulo. Dessa vez, serão os degredados, os da periferia, os excluídos que segurarão a caneta da história, e dela surgirá um país mais justo, fraterno e solidário.

 

Cláudio Carraly, advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco

 

 

 

Atenciosamente, Deus

Eu te ouvi.   Antes da palavra. Antes da intenção. Antes da forma que você tentou dar ao que sentia. Eu te ouvi no intervalo onde o ...