quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

A Queda da Hegemonia dos Estados Unidos

A hegemonia dos Estados Unidos, consolidada após a Segunda Guerra Mundial e ampliada com o colapso soviético em 1991, está em xeque, como bem observou o historiador Paul Kennedy no livro “Ascensão e Queda das Grandes Potências” de 1987. Impérios entram em declínio quando seus compromissos globais superam sua capacidade econômica. Hoje, em um mundo marcado por uma franca ascensão da China, desdolarização e fragmentação geopolítica, os EUA enfrentam desafios estruturais que apontam para o fim da sua hegemonia.

Para entender o declínio estadunidense, é essencial recorrer a duas perspectivas:  

- Ciclos de hegemonia global: cada ciclo hegemônico, seja espanhol, britânico ou estadunidense, dura cerca de 100 anos e termina quando a potência dominante prioriza a financeirização sobre a produção real. Os EUA seguem esse padrão: em 2023, o setor financeiro representava 20,4% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, contra 12% em 1980.  

- Soft power e imperialismo cultural: A capacidade de moldar preferências globais via cultura e valores estadunidenses está em declínio. O Soft Power 30 Index é um ranking anual que analisa e classifica o desempenho de países em termos de “soft power” — ou seja, a capacidade de influenciar preferências e comportamentos de outros atores no cenário internacional por meio de valores culturais, políticos, diplomacia, educação, entre outros fatores não coercitivos. Esse ranking em 2023 colocava os EUA em 3º lugar, atrás de Alemanha e França, refletindo erosão na credibilidade diplomática e diminuição gradual da sua influência cultural global.  

A economia estadunidense ainda lidera em termos nominais, US$ 26,8 trilhões em 2023, mas sua participação relativa no PIB global caiu de 31% em 2000, para 24% em 2024. Paralelamente, a China, que em 2000 respondia por 3,6% do PIB mundial, hoje alcança 18%, aproximando-se do parâmetro da armadilha de Tucídides — cenário em que uma potência emergente desafia a dominante, como Atenas vs. Esparta.  

A Guerra Comercial iniciada pelos EUA contra a China durante as administrações Trump/Biden 2018 a 2024, a sobretaxa de produtos chineses, bem como dificultar a compra de semicondutores e chips produzidos por Taiwan, visando refrear a veloz modernização da base industrial de quinta geração na China. Essa taxação, que incidiu em torno de US$ 370 bilhões nos produtos asiáticos, ao invés de reduzir a aceleração econômica, surtiu um efeito contrário e acelerou ainda mais a fragmentação da economia norte-americana.  A China respondeu a essa sobretaxa com subsídios estatais de US$ 300 bilhões para semicondutores, reduzindo profundamente a dependência de chips taiwaneses.  O comércio bilateral caiu 12% de 2019 a 2023, enquanto o comércio China e ASEAN (Association of Southeast Asian Nations), que é uma organização intergovernamental fundada em 1967, composta por países do Sudeste Asiático com o objetivo de promover a cooperação econômica, cultural e política na região, cresceu 40% até 2024.  

Além disso, a desdolarização avançou, em 2023, 31% do comércio sino-russo foi feito em yuan e rublos, e o BRICS estudam uma moeda comum lastreada em commodities, que venha brevemente substituir os dólares no comércio desses e talvez a longo prazo, até globalmente. O sistema de pagamento chinês CIPS (Cross-Border Interbank Payment System) é o sistema de pagamentos interbancário transfronteiriço da China, lançado em 2015 pelo Banco Popular da China (PBOC). Ele foi desenvolvido para facilitar e agilizar transações em âmbito global, contribuindo para a internacionalização da moeda chinesa, esse processou US$ 12,6 trilhões em 2023, ante US$ 1,2 trilhão em 2015. O SWIFT, fundado em 1973, é uma organização global que oferece serviços de mensagem financeira entre instituições bancárias. Ainda é o principal meio de comunicação para transferências internacionais de fundos e outras transações bancárias, mas vem perdendo espaço rapidamente.  

Os limites do Hard Power e a Ascensão da Guerra Híbrida, o orçamento militar dos EUA em torno de US$ 886 bilhões em 2024 é insustentável, como alertou o general Mark Milley, "não podemos vencer guerras infinitas". A retirada do Afeganistão expôs os pés de barro do ídolo de ouro estadunidense, enquanto a China adota estratégias assimétricas e não opta pela ação militar como tática, como Rússia e Estados Unidos. A invasão russa à Ucrânia em 2022 revelou fissuras no modelo adotado no mundo no pós-guerra. A Europa, dependente do gás russo, 40% do consumo em 2021, expôs a profundidade da fragilidade das sanções lideradas pelos EUA, enquanto países importantes do Sul Global, como Índia e África do Sul, abstiveram-se de condenar a Rússia na ONU, sinalizando rejeição à atual ordem ocidental.   

A política externa estadunidense perdeu profundamente a coerência e o apoio inclusive de aliados históricos, o unilateralismo do chamado "America First" na era Trump que agora se reinicia, seja como farsa ou como tragédia, minaram o que restava de confiança dos seus aliados, além da situação interna de polarização que atinge níveis inconciliáveis, levando o país a uma divisão só vista na Guerra da Secessão, o parlamento já não legisla, muito menos discute com profundidade projetos, apenas se entrincheira contra o que vem do outro lado. Em 2023, a obstrução legislativa custou US$ 1,2 trilhão em possíveis projetos de infraestrutura paralisados. Após o ataque ao Capitólio em 2021, a aprovação global da democracia interna e externamente caiu para níveis do início do século XX.  

Enquanto isso, a China, que combina controle estatal e capitalismo tecnocrático, desafiando o liberalismo ocidental, avança como o futuro player número um do mundo, durante a COVID-19, doou 2,2 bilhões de doses a países em desenvolvimento, conquistando apoio em 54 países. O TikTok domina 60% do mercado global de redes sociais, enquanto a Huawei equipa 70% das redes 5G africanas e o próximo passo dessa expansão é a América Latina.  No entanto, a China não busca hegemonia global nos moldes tradicionais, e sim uma hegemonia sem responsabilidades, evitando custo de prover bens públicos globais, nem utilizando força militar para intervenção nos países para impor seu modo interno de política, amealhando apenas os bônus dessa liderança, sem o ônus de uma ação imperialista clássica.  

Cenários Futuros diante desse, admirável mundo novo, três caminhos são possíveis:  

1. Guerra Fria 2.0: EUA e China dividem o mundo em esferas de influência, com Europa e BRICS como "balançeadores".  

2. Fragmentação caótica: A proliferação de moedas digitais, IA descentralizada, implosão de mercados comuns e queda da importância dos organismos mundiais multilaterais levam a um sistema sem líder claro, onde o poder do mais forte voltará a prevalecer.  

3. Multilateralismo reformado: EUA aceitam poder relativo e reformam instituições internacionais como a ONU, incluindo o Sul Global no Conselho de Segurança e dividindo a governança global de forma mais equânime.  

A hegemonia estadunidense não desaparecerá nas próximas décadas, mas será reconfigurada, como escreveu Henry Kissinger em World Order de 2014, "nenhuma potência pode ditar sozinha as regras do século XXI". Para evitar o destino do Império Romano e tantos outros, os EUA precisam combater a desigualdade interna, reinvestir na indústria, reverter a financeirização, diminuir sua tendência belicista, aceitar a multipolaridade e compartilhar poder de governança com a UE, BRICS, ASEAN e outros organismos multipolares.  

A configuração multipolar do século XXI indica que o poder e a influência globais não se concentrarão em apenas uma nação. Tendências como a aceleração tecnológica, o fortalecimento de blocos regionais e a crescente interdependência econômica sugerem que o protagonismo no cenário internacional será distribuído entre diversos atores, cada qual com seus interesses e estratégias. A pluralidade de visões e a complexidade dos desafios, como a mudança climática e a cibersegurança, reforçam a ideia de que nenhum país deterá sozinho o controle sobre os rumos do mundo. O século XXI não será estadunidense, chinês ou russo, será plural e, por enquanto, imprevisível.

Cláudio Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

 

 

 

 

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

A SITUAÇÃO NA SÍRIA PÓS-ASSAD

A queda de Bashar al-Assad e seu exílio em Moscou marcaram o início de uma nova era para a Síria, após mais de uma década de guerra civil, esse conflito, cujas raízes podem ser rastreadas às tensões internas do regime, ao autoritarismo político, às demandas populares por reformas e aos interesses regionais e internacionais, resultou em uma devastação sem precedentes.

Relatórios do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) e do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) ilustram a gravidade da crise humanitária, enquanto análises de centros de pesquisa independentes, como o Carnegie Middle East Center, apontam para a complexidade da transição. Agora, o governo de transição, liderado por Mohammed al-Bashir, enfrenta a tarefa monumental de restaurar a estabilidade, a legitimidade institucional, a coesão social e a prosperidade econômica, ao mesmo tempo em que tenta consolidar uma nova ordem política que reflita a diversidade étnica, religiosa e cultural do país.

1. Reconstrução e Reorganização Política

A infraestrutura síria foi reduzida a escombros, instituições estatais carecem de legitimidade e funcionalidade, e o país precisa de uma nova Constituição que represente todos os segmentos da sociedade, o governo de transição, formado por líderes selecionados a partir de diversos grupos étnicos e religiosos, deve estabelecer eleições inclusivas e transparentes. Observadores internacionais da ONU, bem como de organizações da sociedade civil síria, estão colaborando para definir critérios de seleção de candidatos, monitorar a campanha eleitoral e assegurar um processo justo.

A instalação de comissões da verdade, com apoio de entidades como a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria, pode contribuir para investigar crimes de guerra e fortalecer a justiça de transição, garantindo que a reconciliação nacional não seja apenas retórica, mas um compromisso real com a prestação de contas e a reparação das vítimas do regime anterior. Para que esses mecanismos funcionem adequadamente, é fundamental investir em recursos técnicos, capacitar equipes independentes e, sobretudo, promover uma cultura de transparência nas instituições recém-formadas

2. Retorno dos Refugiados e Deslocados

Com mais de 6 milhões de refugiados espalhados pelo mundo e outros 6 milhões de deslocados internos, o retorno dessa população é essencial para a normalização do país. Contudo, a falta de segurança, moradia adequada e acesso a serviços básicos como água, saneamento, escolas e hospitais ainda é um entrave, o governo interino, apoiado por doadores internacionais como alguns países da União Europeia, Estados Unidos e Golfo, bem como instituições como o Banco Mundial, tem buscado recursos para reconstruir infraestrutura crítica.

Iniciativas locais de ONGs sírias e conselhos comunitários fornecem informações valiosas sobre as necessidades mais urgentes, apontando prioridades em regiões como Aleppo e Raqqa. Programas de capacitação profissional, incentivos fiscais para pequenas empresas e subsídios habitacionais podem acelerar o reassentamento e contribuir para a recuperação socioeconômica, também se faz necessária uma política clara de proteção aos direitos de propriedade dos deslocados, a fim de evitar novos conflitos relacionados à posse de terra e moradia.

3. Ameaça de Grupos Extremistas

Apesar da derrocada do regime anterior, a presença de células ativas do Daesh (Estado Islâmico) e outros grupos extremistas representa um desafio significativo, a estabilização do país depende do fortalecimento das forças de segurança locais, do compartilhamento de inteligência com parceiros internacionais e da criação de programas eficazes de desradicalização. Centros regionais de pesquisa em contraterrorismo, como o Hedayah Center, apoiam o treinamento de forças de segurança sírias e o desenvolvimento de estratégias preventivas, evitando a reprodução dos ciclos de violência.

Nesse cenário, é igualmente crucial a implementação de políticas voltadas para a juventude. A falta de oportunidades e a ausência de perspectivas concretas de emprego ou educação de qualidade podem alimentar o extremismo e o sectarismo político. Investimentos em programas esportivos, culturais e de formação profissional podem ampliar a sensação de pertencimento e, consequentemente, reduzir a vulnerabilidade dos jovens à propaganda de grupos radicais.

4. Reconfiguração do Poder Geopolítico

A saída de Assad do poder diminuiu a influência do Irã e Rússia, seus principais aliados, ao mesmo tempo em que ampliou oportunidades para que países como Turquia e Arábia Saudita expandam sua presença. A Turquia concentra esforços em consolidar sua influência no norte da Síria, enquanto a Arábia Saudita financia projetos de reconstrução na tentativa de construir pontes políticas e econômicas. Entidades como o International Crisis Group vêm alertando para o risco de a busca por influência degenerar em novas tensões e jogos de poder.

Nesse sentido, o governo interino sírio busca manter uma política externa equilibrada, pautada pelo pragmatismo e pela defesa dos interesses nacionais, para alcançar esse equilíbrio, é fundamental estabelecer canais de diálogo bilaterais e multilaterais, contando com mediação de organismos internacionais, para evitar que a competição regional se converta em novos conflitos por procuração dentro do território sírio.

5. Tensões entre Grandes Potências

A Rússia, apoiadora do regime derrubado, tenta agora preservar algum grau de influência nas negociações políticas, já que os únicos dois portos russos fora de seu território regional de influência se encontram na Síria, por outro lado, os Estados Unidos e países europeus sinalizam apoio ao governo de transição, condicionando sua assistência econômica e política ao respeito as minorias cristãs, direitos humanos e o mínimo de transparência administrativa. O resultado desse jogo de forças determinará o grau de autonomia da nova Síria, nesse contexto, uma diplomacia eficiente, baseada na construção de confiança e em princípios de não alinhamento cego a blocos rivais, pode ampliar o espaço de manobra do governo interino e evitar que o país seja novamente refém de disputas estratégicas entre grandes potências.

6. Estabilidade Regional

A estabilização síria impacta diretamente vizinhos como Líbano, Jordânia e Turquia, que abrigam milhões de refugiados, uma Síria em reconstrução pode facilitar o retorno gradual dessas populações, aliviando a pressão sobre infraestruturas sociais e sistemas econômicos já saturados. Por outro lado, um fracasso na transição poderia perpetuar a instabilidade, criando espaço para a atuação de grupos armados e ampliando o risco da massificação dos conflitos regionais. A necessidade de cooperação transfronteiriça em áreas como segurança, energia e gestão de recursos hídricos para consolidar a paz de longo prazo é fundamental. A facilitação do comércio legalizado e ações conjuntas de prevenção ao contrabando de armas podem reforçar tanto a estabilidade interna síria quanto o desenvolvimento econômico dos países vizinhos.

7. Reconciliação Nacional, Justiça e Governança Inclusiva

O futuro estável da Síria exige a criação de um governo que represente efetivamente o mosaico étnico-religioso do país, fóruns de reconciliação nacional, mediadores independentes e comissões da verdade apoiadas pela ONU são ferramentas cruciais para superar feridas históricas, promover o diálogo e garantir que antigos adversários políticos encontrem canais institucionais para resolver suas divergências. Mecanismos de justiça transicional, incluindo julgamentos e reparações, visam romper o ciclo de impunidade e evitar novos focos de conflito no futuro, além disso, a reconstrução do tecido social requer investimento em educação e programas culturais que incentivem a compreensão mútua entre diferentes comunidades, evitando que antigos preconceitos voltem a se inflamar.

8. Reconstrução Econômica e Humanitária

A reconstrução econômica requer uma estratégia abrangente, além da restauração de áreas urbanas, o governo precisa criar empregos, impulsionar a agricultura e a indústria leve, fomentar o retorno de profissionais da diáspora síria e estabelecer um ambiente regulatório transparente que atraia investimentos. A coordenação com doadores internacionais, a concessão de microcréditos para pequenos empreendedores e incentivos fiscais para setores-chave podem acelerar o processo de crescimento.

Ao mesmo tempo, a ajuda humanitária imediata, apoiada por organizações como o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), por seu braço islâmico, a Crescente Vermelha, é essencial para atender às necessidades básicas da população, construindo um alicerce para o futuro. A priorização de iniciativas que combinem a assistência emergencial com programas de desenvolvimento pode prevenir a dependência contínua de ajuda e facilitar a autonomia progressiva das comunidades mais vulneráveis.

9. Integração Regional e Cooperação Econômica

Uma Síria estável pode abrir caminho para maior integração econômica no Oriente Médio, a reabertura de rotas comerciais históricas, a cooperação na gestão sustentável de recursos hídricos e a formação de alianças energéticas podem impulsionar o desenvolvimento e fortalecer laços antigos com os países da região.

Iniciativas de cooperação regional, como o Conselho de Cooperação do Golfo e acordos bilaterais com Jordânia, Líbano e Turquia, podem criar sinergias econômicas que facilitem a recuperação da Síria e do entorno regional. Ademais, a busca por parcerias em projetos de infraestrutura, como ferrovias e corredores comerciais, poderia integrar a Síria a novas cadeias globais de valor, garantindo benefícios recíprocos e consolidando a paz pelo viés econômico.

10. Cenários Futuros e Propostas de Melhoria

Dependendo da efetividade dessas iniciativas, podem-se vislumbrar três cenários para o futuro da Síria:

Positivo

Estabilidade política, reconciliação social e recuperação econômica avançam de forma conjunta, reduzindo a influência de grupos extremistas, incentivando o retorno de refugiados e promovendo a integração regional. Nesse contexto, instituições fortalecidas seriam capazes de conduzir eleições livres, garantir a segurança interna e articular uma política externa independente, mas cooperativa, para tanto, seria essencial continuar investindo em processos de justiça transicional, ampliando a participação popular e assegurando que a representatividade étnico-religiosa se reflita nas principais instâncias de decisão.

Neutro

Alguns avanços institucionais ocorrem, mas a lentidão na reconstrução e a persistência de tensões étnicas e religiosas limitam a recuperação completa, exigindo esforço contínuo da comunidade internacional. Embora haja melhoras pontuais, como eleições parciais e crescimento moderado em alguns setores econômicos, o país ainda ficaria refém de conflitos armados localizados em partes do seu território e disputas regionais de poder.

Negativo

Falhas na transição, ausência de justiça, corrupção endêmica e competição geopolítica intensificada resultam em novos ciclos de violência, impedindo a consolidação de um Estado estável e sustentável, a omissão ou o abandono dos organismos internacionais nesse cenário significaria a perpetuação de um vácuo de poder, no qual grupos extremistas ou clãs locais poderiam se fortalecer. Reestruturação dos grupos jihadistas, possível levante nacionalista curdo, crescimento de uma milícia xiita financiada pelo Irã, além do governo de Israel aproveitando a situação para anexar mais território ao seu país. Tudo isso levaria a uma fragmentação do atual território sírio em vários pequenos emirados e feudos.

A queda de Assad simboliza tanto um desafio quanto uma oportunidade histórica para a Síria e seus vizinhos, a transição não se limita ao âmbito interno, mas também reflete e afeta as dinâmicas regionais e internacionais. Para transformar esse palco de conflitos em um exemplo de superação e renovação, são necessários reconciliação nacional, reconstrução econômica sólida, governança inclusiva, mecanismos de justiça transicional e um esforço internacional coordenado e sustentado. Somente assim a Síria poderá emergir como um ator regional capaz de contribuir positivamente para a paz, o desenvolvimento e a estabilidade no Oriente Médio.

Em suma, a concretização de um cenário positivo, aquele em que a Síria se vê reconstruída, segura e inclusiva, depende de planejamento cuidadoso, participação ampla de todos os setores da sociedade e apoio consistente da comunidade internacional. A execução de políticas pautadas pela transparência, pela inclusão e pela responsabilidade compartilhada pode assegurar o rompimento definitivo com o passado de autoritarismo e guerra, viabilizando um futuro de paz e prosperidade para o país e seus vizinhos.

Para tudo isso, cabe ao novo governo abandonar a política sectária que os levou ao poder, para tratar o país dentro do pragmatismo da Realpolitik, se isso será possível só o tempo vai dizer, no caso do Afeganistão, não foi, e hoje o país é pior que antes da invasão estadunidense. Esperemos que a Síria seja um momento de inflexão do oriente médio no sentido da paz duradoura.

 

Cláudio Carraly, advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco

 

 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

O Ultraliberalismo: Um Caminho Rumo ao Abismo

O ultraliberalismo representa uma fase ainda mais radical do neoliberalismo, caracterizando-se pela destruição do papel do Estado na economia e na sociedade. Ele intensifica privatizações, precariza o trabalho, promove políticas excludentes e eleva a repressão estatal para conter o indefectível descontentamento social, sua pseudológica, travestida de eficiência econômica, agrava desigualdades, monetiza a vida humana e ameaça os princípios democráticos, tornando-se um fenômeno que deve ser analisado e combatido.

 

1. O Desmonte deliberado do Estado: O Método

Se o neoliberalismo diminuiu a atuação estatal em prol do livre mercado, o ultraliberalismo aprofunda a ideia do desmantelamento do Estado, se antes era o Estado mínimo, agora resume-se apenas a um aparato de polícia, restringindo suas funções apenas à repressão pelo sistema de segurança pública. Como aponta a economista Wendy Brown em Undoing the Demos (2015), o ultraliberalismo reduz o cidadão a um mero agente econômico: “o humano é transformado em capital humano”. Isso significa que os direitos sociais deixam de ser uma garantia coletiva e passam a depender do desempenho econômico individual, e o possível mau desempenho é só responsabilidade da pessoa e nada a ver com a incompetência do Estado.

 

No Chile pós-ditadura, políticas ultraliberais implementadas durante o governo Pinochet resultaram em privatizações agressivas de setores como água e educação. Hoje, cerca de 82% dos chilenos dependem de sistemas de ensino privados ou mistos, o que aprofunda desigualdades e impede o acesso universal à educação, sem falar no sistema de previdência nas mãos de empresas privadas, que ao quebrarem deixaram milhões de pessoas desassistidas.

 

Desde que o governo ultraliberal assumiu o poder na Argentina, diversas medidas vêm sendo implementadas em ritmo acelerado e sem discussão com o parlamento ou a sociedade, obviamente gerou impactos imediatos no dia a dia da população. Logo nas primeiras semanas, foram anunciados cortes em ministérios e órgãos públicos, além de uma maior dolarização da economia para frear a hiperinflação que, no entanto, já pressiona ainda mais os preços de bens básicos. A orientação para privatizações de setores-chave, como energia e infraestrutura, ganhou força no discurso oficial, enquanto subsídios em áreas como transporte e serviços públicos sofrem reduções abruptas, encarecendo o custo de vida e aumentando o descontentamento social.

 

Ao mesmo tempo, sindicatos e movimentos populares organizam protestos contra a precarização do trabalho e a diminuição de programas de assistência, que antes atenuavam a pobreza em regiões mais vulneráveis, com a desigualdade em alta, a tensão política se acirra, e o governo dobra a aposta e diminui ainda mais os investimentos sociais, quando não os zera, para isso, utiliza o argumento de cumprir as metas fiscais, ainda que, na prática, o custo desse ajuste pese como sempre nas camadas mais vulneráveis da sociedade.

 

2. Privatizações e Desigualdade: O Avanço do Mercado

Os ultraliberais justificam privatizações agressivas como uma solução para crises fiscais, ignorando os impactos sociais, em muitos países, empresas estatais de setores estratégicos, como saúde, energia e transporte, foram entregues ao setor privado. Como consequência, os preços aumentam, a qualidade dos serviços se deteriora e o acesso se torna excludente. Um relatório do Banco Mundial (2020) mostra que a privatização de sistemas de abastecimento de água em países da África subsaariana resultou no aumento das tarifas em até 200%, inviabilizando o acesso para milhões de famílias.

 

No Brasil, entre 2016 e 2021, mais de 50 empresas públicas foram privatizadas, especialmente no setor de energia e saneamento, conforme dados do BNDES. A privatização da energia elétrica na África do Sul levou a apagões frequentes e tarifas mais altas, impactando sobretudo a população pobre, o que vimos aqui no Brasil, no estado mais rico da federação, que sofre com apagões, preços elevados e qualidade sofrível de atendimento, a falta de investimentos em infraestrutura é consequência direta da busca pelo lucro imediato das empresas privadas.

 

3. A Precarização do Trabalho e o Aumento da Exclusão Social

Essa ideologia político-administrativa também promove a retirada de direitos trabalhistas conquistados e a precarização do emprego em nome da "flexibilidade do mercado". Isso resulta em aumento do desemprego, informalidade e insegurança econômica, o economista francês Thomas Piketty, em O Capital no Século XXI, destaca que o ultraliberalismo favorece os detentores de capital e amplia a desigualdade de forma estrutural, pior, sob o argumento falacioso da meritocracia e empreendedorismo, parte da classe trabalhadora abraça esse discurso como se oprimido pelo seu esforço pudesse virar o opressor.

 

Segundo a Organização Internacional do Trabalho – OIT, entre 2010 e 2020, a informalidade no trabalho aumentou em 25% na América Latina em países que implementaram reformas nas linhas do sistema econômico do coração dos mercados financeiros. O relatório de 2022 da Oxfam revela que o 1% mais rico do mundo detém quase 50% da riqueza global, enquanto bilhões vivem com menos de US$ 2 por dia, e a tendência é essa distância se elevar mantidas as atuais condições do sistema financeiro global e a falta de uma regulação dos super-ricos.

 

4. Repressão Social: O Papel do Estado Nessa Verdadeira Distopia

Diante do aumento da desigualdade e do descontentamento popular, os ultraliberais defendem o fortalecimento do aparato repressivo, ao invés de atuar como mediador e promotor de justiça social, o Estado assume um papel de controle e vigilância, criminalizando protestos e movimentos sociais, como um retorno à máxima do século XIX de que questões sociais eram um problema de polícia, sim, como a moda é cíclica e as roupas do passado retornam à moda, políticas sectárias, ao que parecem, também voltam. Na França, os protestos contra as políticas ultraliberais foram fortemente reprimidos. Segundo a Anistia Internacional, a violência policial resultou em centenas de feridos e dezenas de prisões arbitrárias.

 

5. O Impacto na Democracia: Uma Crise Global

Ao transferir o poder decisório para grandes corporações e aceitar a influência financeira e politica dos super-ricos, enfraquecem-se os mecanismos democráticos, decisões que afetam milhões passam a ser guiadas por interesses privados inconfessáveis e o lucro destas se sobrepõe aos interesses da coletividade, subsequentemente o espaço para políticas públicas inclusivas é totalmente eliminado. Essa lógica contribui para o aumento exponencial do extremismo de direita e do seu populismo autoritário. Como afirmou o sociólogo Zygmunt Bauman, “a privatização do público é o golpe mais profundo que se pode dar na democracia”.

 

O ultraliberalismo não é uma solução para crises econômicas, ao contrário ele as aprofunda. Seu legado é a desigualdade, a exclusão e a destruição de direitos sociais conquistados ao longo de centenas de anos de lutas e acúmulos por parte da classe trabalhadora do campo e da cidade. A experiência global demonstra que as políticas ultraliberais falham em promover prosperidade e justiça social, beneficiando apenas uma elite econômica em detrimento das maiorias e deixando, ao final, o que resta do Estado de joelhos para essas corporações.

 

Alternativas Possíveis:

A. Fortalecimento do Estado Social: A reconstrução e manutenção de políticas públicas robustas e universais é fundamental.

B. Regulação do Mercado: O controle do mercado por parte do Estado é essencial para garantir justiça econômica.

C. Tributação Progressiva: A taxação das grandes fortunas é necessária para reduzir desigualdades e financiar políticas sociais para o conjunto da população mundial.

D. Mobilização Social: A resistência por meio de movimentos partidários, sociais e também difusos é crucial para barrar o avanço ultraliberal.

 

Como cidadãos, é necessário compreender que a luta contra as várias formas de metamorfose capitalista, é urgente, mais ainda diante de sua veia mais agressiva, que ressurge de tempos em tempos, essa, na verdade, é uma luta pela dignidade humana, pela justiça social e pela preservação da democracia, e estamos apenas no início dessa longa e difícil caminhada, unamo-nos então.

                       

Cláudio Carraly, advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

 

 

 

 

 

Atenciosamente, Deus

Eu te ouvi.   Antes da palavra. Antes da intenção. Antes da forma que você tentou dar ao que sentia. Eu te ouvi no intervalo onde o ...