Quando observamos o apoio do Cidadania a João Campos na política
pernambucana, alguns analistas buscam explicações conjunturais ou puramente
pragmáticas. Perdem de vista, porém, uma dimensão fundamental: essa aliança
carrega consigo uma memória histórica de mais de sete décadas, que remonta às
origens entrelaçadas do PSB e da linhagem política que vai do PCB/PPS, chegando
hoje ao Cidadania.
Desde os anos 1940, essas duas correntes políticas forjaram um projeto
comum: uma esquerda democrática que sempre recusou tanto o autoritarismo de
direita quanto o sectarismo de esquerda. Era um socialismo pluralista, que
dialogava naturalmente com progressistas das diversas matizes, mas
fundamentalmente com todos os democratas. Miguel Arraes, em Pernambuco,
personificou essa síntese única, sempre liderou construindo uma governabilidade
baseada em um diálogo democrático amplo e em um profundo compromisso social.
Essa convergência programática se aprofundou durante a redemocratização,
quando ambos os partidos integraram o campo democrático-popular. A
transformação do PCB em PPS, nos anos 1990, consolidou essa evolução:
pós-comunistas que abraçaram definitivamente o pluralismo democrático sem abrir
mão da imprescindível agenda de transformação social.
O momento decisivo dessa parceria histórica veio em 2013, quando o PPS
se tornou o primeiro partido nacional a apoiar o projeto presidencial do então
governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Não foi acaso político, mas
reconhecimento da liderança de um dos melhores quadros políticos do país. Esse
apoio pioneiro do PPS sustentou-se em evidências concretas.
Durante seus governos, Eduardo Campos implementou políticas inovadoras
de educação técnica, desenvolveu um dos maiores complexos industriais do
Nordeste, manteve equilíbrio fiscal sem sacrificar investimentos sociais e
construiu consensos políticos que atravessavam diferentes espectros
ideológicos. Era exatamente o tipo de governança que o PPS defendia
teoricamente.
Eduardo Campos representava o melhor do projeto compartilhado entre
ambos os partidos: um Estado forte, mas eficiente, economia de mercado com
forte regulação social, desenvolvimento sustentável com distribuição de renda.
Era a chegada definitiva dos progressistas ao século XXI.
Hoje, o apoio do Cidadania a João Campos representa a continuidade
natural dessa parceria histórica. O jovem prefeito do Recife demonstrou, em sua
gestão, a mesma capacidade de combinar inovação administrativa e políticas
sociais efetivas. Os prêmios de gestão municipal recebidos e o reconhecimento
nacional de suas políticas de educação e tecnologia confirmam que carrega as
características que o Cidadania sempre valorizou historicamente.
O Cidadania, portanto, não apoiou Eduardo Campos por oportunismo em
2013, nem apoia João Campos por conveniência hoje. É a fidelidade a um projeto
político de setenta anos, que vê na trajetória de João Campos e do PSB a melhor
expressão da esquerda brasileira: eficiente na gestão, inclusiva no
desenvolvimento, plural na política e totalmente comprometida com as
instituições democráticas. Essa perspectiva histórica é fundamental para
compreender tanto o presente quanto o futuro político desse pernambucano.
As alianças duradouras se baseiam em afinidades programáticas profundas,
memórias compartilhadas e projetos de sociedade convergentes, principalmente
nesse momento da vida nacional em que presenciamos o assustador crescimento da
extrema-direita em nosso território. São essas raízes históricas que conferem
solidez e previsibilidade à parceria entre Cidadania e o PSB comandado por João
Campos, distinguindo-a de arranjos meramente eleitorais, mas apontando para o
futuro do país.
Em política, a memória é poder, e essa trajetória de sete décadas
explica por que o Cidadania continua apostando no projeto político que conhece,
confia e ajudou a construir. Então, a questão de por que o Cidadania caminha
com João Campos? Se esvai completamente, restando apenas a indagação: como não
ir com João Campos?
Cláudio
Carraly, advogado, presidente do Cidadania de Pernambuco.
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