quinta-feira, 30 de outubro de 2025

POR QUE O CIDADANIA CAMINHA COM JOÃO CAMPOS?


Quando observamos o apoio do Cidadania a João Campos na política pernambucana, alguns analistas buscam explicações conjunturais ou puramente pragmáticas. Perdem de vista, porém, uma dimensão fundamental: essa aliança carrega consigo uma memória histórica de mais de sete décadas, que remonta às origens entrelaçadas do PSB e da linhagem política que vai do PCB/PPS, chegando hoje ao Cidadania.

Desde os anos 1940, essas duas correntes políticas forjaram um projeto comum: uma esquerda democrática que sempre recusou tanto o autoritarismo de direita quanto o sectarismo de esquerda. Era um socialismo pluralista, que dialogava naturalmente com progressistas das diversas matizes, mas fundamentalmente com todos os democratas. Miguel Arraes, em Pernambuco, personificou essa síntese única, sempre liderou construindo uma governabilidade baseada em um diálogo democrático amplo e em um profundo compromisso social.

Essa convergência programática se aprofundou durante a redemocratização, quando ambos os partidos integraram o campo democrático-popular. A transformação do PCB em PPS, nos anos 1990, consolidou essa evolução: pós-comunistas que abraçaram definitivamente o pluralismo democrático sem abrir mão da imprescindível agenda de transformação social.

O momento decisivo dessa parceria histórica veio em 2013, quando o PPS se tornou o primeiro partido nacional a apoiar o projeto presidencial do então governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Não foi acaso político, mas reconhecimento da liderança de um dos melhores quadros políticos do país. Esse apoio pioneiro do PPS sustentou-se em evidências concretas.

Durante seus governos, Eduardo Campos implementou políticas inovadoras de educação técnica, desenvolveu um dos maiores complexos industriais do Nordeste, manteve equilíbrio fiscal sem sacrificar investimentos sociais e construiu consensos políticos que atravessavam diferentes espectros ideológicos. Era exatamente o tipo de governança que o PPS defendia teoricamente.

Eduardo Campos representava o melhor do projeto compartilhado entre ambos os partidos: um Estado forte, mas eficiente, economia de mercado com forte regulação social, desenvolvimento sustentável com distribuição de renda. Era a chegada definitiva dos progressistas ao século XXI.

Hoje, o apoio do Cidadania a João Campos representa a continuidade natural dessa parceria histórica. O jovem prefeito do Recife demonstrou, em sua gestão, a mesma capacidade de combinar inovação administrativa e políticas sociais efetivas. Os prêmios de gestão municipal recebidos e o reconhecimento nacional de suas políticas de educação e tecnologia confirmam que carrega as características que o Cidadania sempre valorizou historicamente.

O Cidadania, portanto, não apoiou Eduardo Campos por oportunismo em 2013, nem apoia João Campos por conveniência hoje. É a fidelidade a um projeto político de setenta anos, que vê na trajetória de João Campos e do PSB a melhor expressão da esquerda brasileira: eficiente na gestão, inclusiva no desenvolvimento, plural na política e totalmente comprometida com as instituições democráticas. Essa perspectiva histórica é fundamental para compreender tanto o presente quanto o futuro político desse pernambucano.

As alianças duradouras se baseiam em afinidades programáticas profundas, memórias compartilhadas e projetos de sociedade convergentes, principalmente nesse momento da vida nacional em que presenciamos o assustador crescimento da extrema-direita em nosso território. São essas raízes históricas que conferem solidez e previsibilidade à parceria entre Cidadania e o PSB comandado por João Campos, distinguindo-a de arranjos meramente eleitorais, mas apontando para o futuro do país.

Em política, a memória é poder, e essa trajetória de sete décadas explica por que o Cidadania continua apostando no projeto político que conhece, confia e ajudou a construir. Então, a questão de por que o Cidadania caminha com João Campos? Se esvai completamente, restando apenas a indagação: como não ir com João Campos?

Cláudio Carraly, advogado, presidente do Cidadania de Pernambuco.

 

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