Ser comunista nesse século é um exercício de reinterpretar e adaptar os princípios clássicos de igualdade e justiça social a um mundo globalizado e digitalizado, marcado por novas formas de exploração, alienação e desafios ambientais. Em um cenário diferente daquele que inspirou Karl Marx e Friedrich Engels, o comunismo contemporâneo requer uma análise crítica das inúmeras transformações do capitalismo e um engajamento com problemas globais. Hoje, entender esse fenômeno implica não só revisitar o pensamento clássico, mas dialogar com teóricos que recontextualizam esses, observando os desafios do nosso tempo, enquanto analisamos experiências que vem dando certo.
Desde suas origens, a essência do comunismo,
como apresentada no Manifesto Comunista (1848), é a crítica ao capitalismo, que
se baseia na exploração da força de trabalho. Marx, em O Capital (1867),
explica que o capitalismo depende da extração da mais-valia, ou seja, da
apropriação do valor excedente gerado pelo trabalho e conservação nas mãos da
burguesia dos modos de produção. Esse processo de exploração gera alienação,
pois o trabalhador é separado do produto de seu esforço e das decisões sobre o
excedente da produção. Embora esses conceitos permaneçam centrais, o mundo
mudou profundamente desde o século XIX, e os desafios enfrentados atualmente
são mais complexos e multifacetados, exigindo adaptações, na prática, sem
logicamente perder a essência.
A partir da segunda metade do século XX, o
capitalismo globalizou suas engrenagens e intensificou a financeirização. David
Harvey, em O Enigma do Capital (2010), enfatiza que o capital atual é
transnacional e permeia quase todos os aspectos da vida. Essa complexidade
exige que as práticas da esquerda em geral atualizem suas formas de resistência
e organização política. Além disso, o sistema financeiro agora circula em
fluxos globais, fragmentando lutas e dificultando resistências locais. Aqui, um
caminho promissor são as alianças globais de trabalhadores e sindicatos
internacionais, como o Sindicato Internacional de Trabalhadores da Amazon, que
unificam a luta em setores globais.
A tecnologia transformou profundamente a relação
entre trabalho e exploração, hoje o capital não apenas explora o trabalho
físico, mas também se apropria das capacidades criativas e intelectuais dos
trabalhadores. Antonio Negri e Michael Hardt, em Império (2000), discutem o
conceito de "trabalho imaterial" – a produção de conhecimento,
serviços e cultura – que reflete uma nova forma de alienação. Plataformas como
iFood, Uber e redes sociais mostram como trabalhadores estão presos a um ciclo
de precarização e isolamento, sem o apoio dos modelos tradicionais de
organização trabalhista. Aqui, o comunismo atual precisa defender políticas
como o direito de sindicalização digital e garantias trabalhistas específicas
para esses freelancers, que hoje são iludidos com a propaganda de que são
empreendedores individuais e que trabalham para si, quando, na verdade, são o
novo exército de reserva do capitalismo moderno. Cabe assim aos comunistas
explicitar essa nova forma de exploração, e cooperar com a criação de
cooperativas digitais, oferecendo uma alternativa de trabalho digital justo e
colaborativo.
No capitalismo digital, a alienação atinge a
esfera imaterial, com trabalhadores monetizando seu "eu" nas redes
sociais e aplicativos, sem segurança ou direitos assegurados. A precarização
leva a problemas de saúde mental e física, como o aumento de depressão e
ansiedade, além da falta de apoio para aqueles que trabalham como motoristas de
aplicativo ou de entrega de comida, quando sofrem acidentes no desempenho de
seu trabalho. Entre os trabalhadores de setores instáveis, o comunismo contemporâneo
pode defender uma carga de trabalho reduzida, uma renda básica universal e
investimentos em saúde e um seguro em caso de acidentes. Tais políticas
ajudariam a mitigar os impactos da alienação moderna, oferecendo qualidade de
vida a indivíduos em um sistema mais humano e sustentável.
Outro desafio central é a fragmentação da classe
trabalhadora, enquanto no século XIX os trabalhadores eram principalmente
operários fabris, hoje incluem trabalhadores precarizados, informais e
terceirizados. Pierre Bourdieu, em A Miséria do Mundo (1993), aborda a
emergência do "precariado", uma classe sujeita à instabilidade e a
nenhum direito. Essa fragmentação exige que se encontrem formas de organização
política que consigam reunir uma classe dispersa. O Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra (MST) no Brasil, que organiza trabalhadores rurais em uma
estrutura democrática, representa um exemplo inspirador de como é possível
integrar diversos grupos em uma luta coesa, promovendo modelos horizontais de
organização.
A questão ambiental também é essencial para o
nosso comunismo contemporâneo, Naomi Klein, em Isso Muda Tudo: Capitalismo vs.
Clima (2014), argumenta que a crise climática é um subproduto do capitalismo,
que esse opera com uma lógica de crescimento infinito. O ecossocialismo,
resgata as contradições ecológicas do capitalismo, defendendo uma reorganização
radical da economia global. Exemplos de políticas verdes, como as de países
nórdicos que almejam neutralidade de carbono, mostram que uma economia sustentável
é possível. Além disso, o Green New Deal, promovido por Alexandria
Ocasio-Cortez nos EUA, oferece uma visão de transição para uma economia mais
sustentável. Essas propostas nascidas em várias vertentes da esquerda
alinham-se com os princípios do comunismo ao priorizar o bem-estar humano e
ambiental.
Para ser efetivo, o comunismo do século XXI
também precisa integrar as diferentes dimensões das lutas sociais em uma
estratégia coesa. Ao contrário do comunismo clássico, focado unicamente na
divisão de classes, o comunismo atual deve reconhecer e combater as opressões
interligadas de gênero, raça e sexualidade. Angela Davis, em Mulheres, Raça e
Classe (1981), e Silvia Federici, em O Patriarcado do Salário (1975), mostram
como o capitalismo explora mulheres e minorias, relegando-as a trabalhos
invisíveis e não remunerados. A luta comunista contemporânea, ao abraçar essa
diversidade de opressões, constrói um projeto social que combate todas as
formas de discriminação.
Movimentos como Black Lives Matter e Me Too
representam respostas atuais à fragmentação da classe, engajando uma nova
geração de ativistas que resistem a múltiplas opressões. Ao reconhecer a
diversidade dessas lutas, o comunismo do século XXI precisa integrar as
questões de raça, gênero e sexualidade à luta de classes. Essa inclusão permite
uma visão mais abrangente de “classe trabalhadora” e incorpora experiências de
opressão que vão além da exploração econômica, criando um movimento social que
combate todas as formas de injustiça.
Não podendo cair na armadilha propagada por
parcela da própria esquerda que o “identitarismo” estaria afastando à esquerda
do conjunto da população, que ao priorizar o retorno a questão de classes,
simplesmente, tudo mais estaria resolvido, a história provou que não. Concordo
que questões menores indenitárias e perfumarias semânticas podem atrapalhar o
debate confundindo o cidadão médio, por isso devemos manter o foco no
principal, para não embotar o que é fundamental, e esse, é a defesa inegociável
de todas as minorias.
Além disso, teóricos como Nick Srnicek e Alex
Williams, em Inventando o Futuro (2015), propõem o "aceleracionismo de
esquerda", defendendo o uso da tecnologia e automação para criar uma
sociedade sem trabalho compulsório. A renda básica universal e a automação, sob
controle democrático, podem garantir que todos tenham acesso a uma vida digna.
Esse futuro exige uma intervenção democrática forte, capaz de regulamentar o
uso da tecnologia em favor do bem comum, promovendo uma sociedade onde o trabalho
compulsório seja minimizado e o lazer priorizado.
Finalmente, enfrentamos o desafio de construir
uma nova hegemonia que seja atrativa para as novas gerações. Exemplos como
sistemas de saúde e educação gratuitos, nos países social-democratas e
socialistas, já demonstram que políticas inspiradas nos avanços dos comunistas
podem melhorar a qualidade de vida e reduzir desigualdades. Assim, aceitar o
desafio de adaptar um ideal centenário a um mundo em transformação. Isso exige
uma prática inclusiva, interseccional e coletiva, capaz de integrar demandas de
justiça econômica, climática, digital, e velocidade de lidar com o que mais
surgir.
O comunismo contemporâneo enfrenta o desafio
essencial de reinterpretar seus princípios fundamentais para um mundo
drasticamente alterado desde o século XIX. Mais do que uma crítica ao
capitalismo, ele deve ser uma alternativa que resgate a dignidade do trabalho e
da vida humana, colocando-as acima da lógica do lucro. A realidade atual –
marcada pela exploração digital, precarização do trabalho imaterial,
fragmentação das classes, luta pelas minorias e crise climática – exige que o
comunismo atualize suas práticas, priorizando a interseccionalidade e a
sustentabilidade.
Nesse cenário, é necessário abraçar uma
abordagem que considere as múltiplas formas de opressão e ofereça alternativas
concretas e coletivas, promovendo uma visão de futuro onde o bem-estar e a
qualidade de vida superem os imperativos de mercado. Construir essa nova
hegemonia exige inovação e articulação global. Para voltar a ser relevante, o
comunismo precisa unir trabalhadores e setores marginalizados em torno de um
projeto que não apenas reivindique igualdade, mas ofereça esperança concreta.
Esse é o grande desafio e, ao mesmo tempo, a promessa do sonho socialista
contemporâneo: ser um movimento capaz de criar um mundo mais justo, sustentável
e inclusivo para as próximas gerações.
“Os trabalhadores não têm nada a perder em uma
revolução comunista, a não ser suas correntes.”
(Engels e Marx)
Cláudio Carraly, advogado, ex-Secretário Executivo
de Direitos Humanos de Pernambuco.