terça-feira, 20 de maio de 2025

Entre Mundos: A Sabedoria do Oprimido


Nos interstícios do poder e da cultura, forma-se um tipo particular de conhecimento: o saber do oprimido. Trata-se de um acúmulo ampliado, plural, muitas vezes invisível aos olhos das epistemologias dominantes, mas profundamente potente. O sujeito marginalizado, especialmente aquele oriundo das periferias do mundo, do sertão ao sul global, da favela às ex-colônias, carrega em si não apenas a gramática de sua própria existência, mas também a linguagem do poder que o oprime, ele é bilíngue em estruturas de dominação.

 

Tomemos como ponto de partida nosso país, o jovem do nordeste, migrante real ou simbólico, desde cedo precisa se alfabetizar não apenas nas letras da escola, mas nos códigos de prestígio do centro dominante. Aprende a reconhecer sotaques, gírias, referências midiáticas, posturas esperadas e até as caricaturas e estereótipos que fazem dele e da sua gente. Decifra as narrativas do Sudeste, as músicas das rádios nacionais, as estéticas dos grandes jornais, não apenas compreende, mas muitas vezes reproduz, com domínio técnico e profundo senso analítico. Vive em trânsito.

 

Enquanto isso, o jovem das regiões centrais, herdeiro inconsciente do monopólio narrativo, permanece alheio à riqueza dos dizeres de quem está longe demais das capitais, desconhece completamente as tradições, signos e saberes que são profundamente ricos. Esse desnível não é casual, trazendo para discussão o aspecto transnacional, ele expressa o que Boaventura de Sousa Santos chamou de epistemologias do sul: formas de conhecimento historicamente marginalizadas, silenciadas, apagadas por um sistema-mundo que universalizou a experiência do Norte global como a norma, e a do Sul como exótica, essa vista como subalterna ou folclórica. A força do saber periférico está em seu caráter híbrido e adaptativo: O oprimido precisa compreender mais que o opressor para sobreviver, resistir, resinificar e crescer.

 

É uma repetição histórica, um ouroboros, durante os séculos de dominação europeia, os africanos sequestrados e escravizados precisavam aprender as línguas dos colonizadores, seus gestos, seus códigos religiosos, sua organização social, sob pena de punição, exclusão ou morte. Já os senhores brancos, donos das senzalas e das igrejas, em geral jamais aprenderam os idiomas bantos ou iorubás, os significados dos orixás, os saberes medicinais ancestrais. Em Angola, Congo, e mesmo no Brasil, o africano conheceu profundamente a Europa, mas a Europa jamais compreendeu a África.

Essa assimetria ainda é atual, um intelectual indiano lê Michel Foucault, Judith Butler, Marx e Kant. Mas quantos pensadores parisienses leram B. R. Ambedkar, Gayatri Spivak ou Vivek Chibber? O estudante latino-americano reconhece obras de Jürgen Habermas e John Rawls. Mas quantos alemães já ouviram falar de Aníbal Quijano, Silvia Rivera Cusicanqui ou Paulo Freire? A divisão internacional do trabalho intelectual permanece colonial: o Sul conhece o Norte, mas o Norte ainda ignora o Sul, inclusive onde este é indubitavelmente mais qualificado e teoricamente superior.

 

É nesse cenário que emerge o conhecimento estratégico do marginal, não é apenas resistência; pode ser uma leitura refinada do mundo. Como disse bell hooks, a marginalidade pode ser um local de radical abertura, um ponto de vista a partir do qual se enxerga o todo, incluindo o centro, enquanto o centro vê apenas o reflexo de si mesmo, o periférico é cosmopolita à força, ele vive entre mundos. Um jovem do subúrbio de Dakar conhece com desenvoltura a culinária, programas de TV e música francesa, e ainda é capaz de recitar inúmeros trechos do Alcorão. Um morador do sertão do nordeste conhece a letra inteira de um funk carioca, mas também os usos do extrato de umbuzeiro e como usar a palma na seca para alimentar os animais. Um indígena brasileiro decodifica as instituições ocidentais para conseguir demarcar sua terra, ao mesmo tempo em que preserva a cosmologia ancestral de seu povo. São todos transfugas da fronteira, por imposição perversa da latitude e longitude do local do seu nascimento.

 

Esses sujeitos acumulam, portanto, um capital simbólico ampliado, eles não apenas detêm seus saberes originários, mas também dominam com lucidez crítica os códigos hegemônicos, são intérpretes multiculturais. No entanto, sua erudição popular, seu conhecimento prático, sua leitura dupla do mundo, não são valorizados pelas instituições e academias. Isso revela o quanto a modernidade continua presa à estrutura colonial que a fundou: só reconhece como universal aquilo que nasce no centro, e normalmente só repara a borda quando o próprio centro observa algum valor por lá.

 

A escritora portuguesa de pais africanos, Grada Kilomba, em seu livro Memórias da Plantação, mostra como o saber do colonizado é constantemente deslegitimado e expulso do território do pensamento. Quando o negro, o indígena, o pobre ou o migrante fala, muitas vezes não é escutado, ou é ouvido como “experiência” e não como “teoria”. O saber das margens é tolerado como curiosidade, mas raramente aceito como epistemologia válida.

 

Esse fenômeno é reproduzido também na mídia, nas artes, moda, cinema, na política institucional, em tudo. Quantas vezes as gírias das periferias viram moda nos centros urbanos sem o devido crédito ou contexto? Quantas vezes expressões de resistência estética são apropriadas sem reverência às suas origens? A periferia fornece o ritmo, o sabor, a cor, a magia, o conhecimento, mas não o poder de nomear ou conduzir.

 

Contudo, há fissuras nessa hegemonia, a circulação digital e midiática tem provocado em parte uma reconfiguração desse jogo. A democratização da internet tem exposto jovens periféricos a múltiplos universos culturais e, ao mesmo tempo, projetado suas linguagens para além do gueto e diminuindo as fronteiras. Coletivos de comunicação popular, lideranças indígenas e quilombolas, escritores das periferias, rappers e poetas, grafiteiros, estão transformando sua vivência em narrativa política, estética e pedagógica. Nunca tantos marginalizados souberam tanto sobre tantas realidades de tantos outros marginais. Porém, o centro pouco se move, assim, o peso da desigualdade epistemológica persiste.

 

Para nós do Sul Global, é exigido um repertório duplo, por vezes triplo: o sujeito periférico precisa dominar seu contexto local, interpretar os códigos do centro e se orientar num mundo globalizado em constante mutação, é um malabarismo existencial. Mas também vira uma capacidade potencial, essa plasticidade de leitura, essa fluência entre mundos, é um dom de quem se acostumou a caminhar sobre terrenos instáveis, transforma essa pessoa em alguém que pode analisar o micro e ainda compreender perfeitamente o macro.

 

Nesse sentido, a figura do oprimido é tudo menos passiva, sabe quando traduzir e quando deixar que o centro se perca na própria ignorância, sabe entrar em espaços onde sua presença é questionada e, mesmo assim, ocupar com dignidade e crítica. A capacidade de viver entre códigos, de habitar simultaneamente o mundo do colonizador e o da resistência, é um atributo de profunda complexidade intelectual. Não devemos romantizar a situação, mas compreender a força que advém da escassez.

 

Refletir sobre esse fenômeno é também repensar as bases de um novo pacto civilizatório, o saber do marginalizado precisa deixar de ser apenas um instrumento de sobrevivência para se tornar um ponto de partida, aquele que conhece a si mesmo e ao outro está mais apto a propor sínteses, mediações, recomeços. O mundo que queremos talvez esteja mais próximo da escuta das periferias do mundo do que da repetição estéril do centro dominante.

Como disse Frantz Fanon, "o colonizado é um homem enredado em dois mundos". Mas esse entrelaçamento, longe de ser um fardo, pode ser uma chave para uma nova concepção de humanidade: múltipla, fluente, inclusiva, atenta às bordas. Uma humanidade em que saber mais não seja privilégio, mas reconhecimento, quem sabe um mundo sem centros únicos, em que cada ponto do que hoje vemos como margem seja o nascedouro de um novo centro que entre em confluências com outros tantos centros mais, até que não haja mais necessidade nenhuma de centralizar.

 

Essa transformação exige uma ética da escuta, que os centros se abram a silêncios longamente impostos, que o conhecimento deixe de ser um privilégio geográfico e passe a ser uma partilha comprometida. Que o currículo, universidades, bibliotecas, museus, parlamentos e as redações acolham vozes até então secundarizadas, não como ato de caridade, mas como reparação histórica e reinvenção do comum, pela beleza da busca de conhecimento mais pleno, porque, como vimos, o saber do oprimido não é menor, ao contrário, é muito mais vasto, pois abarca um conhecimento incontabilizável, o do seu mundo e o do dele.

 

Cláudio Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

 

 

sexta-feira, 2 de maio de 2025

MANUAL DE COMO NÃO PLANEJAR A PRÓPRIA VIDA


O sol incidia pela janela do escritório dele, destacando no ar partículas de poeira dançantes, como se cada uma contasse sua própria história. Sentado à mesa, encarava a tela do computador que piscava em branco, sem que nada fluísse. Foi então que decidiu escrever algo que muitos já tentaram: sobre o caminhar da vida. Mas não se trataria de um relato genérico, era, na verdade, um monólogo íntimo, encenado em atos, de alguém muito próximo. Essa narrativa poderia ser interpretada como uma peça. Contudo, percebeu logo que aquela aventura com roteiro pré-definido — inspirada na já batida “jornada do herói” — não se comportava como previsto. Vinha impregnada de uma realidade cruel, sutil e irônica.

 

Durante anos, ele alimentou uma convicção quase religiosa de que estava destinado à grandeza. Algo importante, capaz de fazer tremer os alicerces do mundo (ainda que metaforicamente). Que eternizaria seu nome, um legado digno de ecoar pelas gerações, essa ideia não nasceu do nada, desde a infância, ouvira dos pais que era especial, que o mundo aguardava sua chegada com grande expectativa. Acreditou com a fé dos recém-convertidos, mesmo quando as evidências começavam a desmenti-lo. As mensagens internas, antes otimistas, passaram a cada vez mais sussurrar: eles estavam errados!

 

Sua jornada começou nas brincadeiras lúdicas da infância, quando voava pelos céus com uma toalha amarrada no pescoço, derrotando robôs gigantes e vilões intergalácticos. Acreditava, com a convicção de quem ainda desconhecia a gravidade, que podia voar, e voava. Mas o tempo tratou de soprar as nuvens dessa ilusão. A física revelou-se uma antagonista implacável e apresentou-lhe a lei da gravidade.

 

A adolescência chegou como um vendaval hormonal e uma certeza tão intensa quanto fugaz, iria tornar-se uma estrela do rock. Visualizava-se incendiando palcos, engolfado por solos estrondosos de guitarra, cantando letras profundas e existencialistas sobre algum tênis da moda ou um novo videogame. Podia ouvir as multidões aplaudindo. Mas o mundo real mostrou-lhe que talento e esforço eram pré-requisitos para tudo, e mesmo os muito talentosos tinham a garantia de sucesso. Seu estrelato pop ficou relegado a um solo de guitarra inaudível, perdido no vazio da realidade.

 

Na faculdade, enveredou por outro delírio, tornar-se-ia um cientista brilhante, alguém à altura de Newton. Imaginava-se ganhando prêmios Nobel e decifrando os mistérios do universo, mas rapidamente percebeu que a física quântica, com sua lógica incognoscível, e a matemática avançada, com seus símbolos alienígenas, riam da sua pretensão. Sem saída, seguiu o caminho comum dos medíocres e cursou Direito, como dizia Ariano Suassuna, quem não servia para mais nada virava advogado.

 

Com o passar dos anos, como um andarilho no deserto em busca de um oásis, pulava de sonho em sonho, cada novo projeto parecia o trampolim certo rumo à glória. Mas todos o lançavam apenas para lugares diferentes, ainda que igualmente frustrantes e mais distantes de suas pretensões. Aos quarenta anos, sentado em um belo escritório de alma cinzenta, sob a luz fluorescente que zumbia no teto, foi atingido por uma dolorosa epifania: o "destino grandioso" era uma construção ilusória, sua e de muitos que também acreditavam na virtuosidade latente dele que ora afloraria. Uma farsa bem-intencionada, mas ainda assim uma farsa.

 

A sensação de ter um propósito especial esfarelava diante dos olhos, esperara por um trem para a glória que jamais chegaria. Enquanto isso, o mundo real passava veloz, como cantava o Clube da Esquina: "o trem da juventude é veloz, quando vai olhar já passou..."

 

Com a chegada dos cinquenta, passou a ver tudo com uma ironia mais sofisticada, as rugas tornaram-se cicatrizes de batalhas contra os sonhos já devidamente abandonados. Os cabelos brancos já não indicavam declínio, mas um tipo de piada do tempo, a urgência de “fazer a diferença” dera lugar à aceitação cômica da própria irrelevância cósmica.

 

Os sonhos antigos, antes fontes de angústia, agora lhe traziam uma graça. Observava a vida neste momento como quem vê um filme repetido, mas que de alguma forma ainda nos arranca risos. Percebeu que, ao contrário do protagonista heroico que sempre imaginara ser, estava mais para um coadjuvante num filme B, daqueles que somem antes da metade da história sem ninguém sentir falta na trama.

 

Na meia-idade, enfrentava um cruzamento sem placas. Sentia-se mais como um balão esvaziado do que como um majestoso dirigível. O espelho devolvia um rosto marcado, não por glórias épicas, mas por escolhas discutíveis e expectativas irreais. A pergunta agora era inevitável: o que fazer quando se passa a vida acreditando estar destinado a algo importante e descobre-se que esse “algo” nunca existiu?

 

A tentação de afundar na autopiedade era grande e até doce. Poderia lamentar as oportunidades que pensou ter ou que talvez só existiram em sua cabeça, ou as decisões certas que talvez fossem erradas, quem sabe? Poderia chorar as promessas quebradas por tanta gente que ele ajudou, mas ajudara, pois, era o certo a se fazer, e ele era o herói predestinado a isso. Já o retorno das pessoas ajudadas não dependia dele, mas preferiu outra abordagem: decidiu contar a história em uma tragicomédia. Porque, apesar de tudo, o riso, mesmo que amargo, insiste em nascer nas situações mais complexas.

 

Talvez a verdadeira grandeza resida nos momentos simples e despercebidos, que ele deixou escapar enquanto perseguia desenhos de nuvens no céu. Talvez o destino não seja uma estrada reta traçada por forças superiores, mas um labirinto de curvas, atalhos e becos, que, no fim, forma um caminho único, ainda que inesperado, que nos leva a uma parede ou, quem sabe, um penhasco.

 

Na verdade, ao abrir mão do papel de herói de uma epopeia imaginária, sentiu-se livre. Desapegado finalmente de um fardo que nem sabia mais como carregar. Rindo das próprias escolhas, reconheceu que todos, no fundo, estão apenas tentando decifrar um enigma, um móvel desmontado que veio sem o seu manual. A grandeza, talvez, esteja em rir da nossa banalidade e da própria inadequação ao mundo. E, por fim, decidiu abandonar o roteiro previsível e improvisar sempre a próxima cena. Porque, afinal, a melhor piada é a que se conta a si mesmo, com plena consciência de que, no final, nada há de dar certo. E tudo bem que seja assim.

 

Cláudio Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

 

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Mais uma crise da democracia liberal burguesa:Análise Estrutural, Perspectivas e o Futuro.

 

A democracia liberal burguesa atravessa uma das fases mais profundas de crise estrutural em sua história contemporânea, sua legitimidade, outrora ancorada na promessa de liberdades civis, sufrágio universal e Estado de Direito, hoje se vê minada por contradições internas agudas, transformações econômicas desestabilizadoras e a emergência de alternativas, tanto as regressivas e autoritárias quanto as progressistas e emancipatórias. A análise desta crise exige um olhar abrangente, que não apenas descreva fenômenos visíveis como a ascensão de populismos de extrema-direita (que historicamente surge como um “coringa” do capitalismo em épocas de crise interna), bem como a corrosão profunda de instituições multilaterais. Precisamos voltar a analisar o caráter de classe intrínseco à democracia liberal, suas limitações históricas e seu papel funcional na reprodução das desigualdades sociais.


Desde uma perspectiva histórico-materialista, a democracia liberal burguesa é compreendida como uma forma específica e historicamente determinada de dominação de classe. Lênin, em sua análise sobre o Estado e a Revolução, foi incisivo ao apontar que a democracia sob a égide do capitalismo opera de maneira fundamentalmente distinta para as diferentes classes sociais, funcionando como uma liberdade mais plena para a burguesia e, simultaneamente, como um sistema de restrições veladas para o restante da sociedade. As conquistas formais, como o voto universal, a liberdade de imprensa e as garantias jurídicas, embora importantes, não alteram a estrutura basilar de poder assentada na propriedade privada dos meios de produção e na exploração do trabalho, a riqueza continua concentrada nas mãos de poucos, os avanços emancipatórios são raros e demorados.
Georg Lukács, em História e Consciência de Classe, aprofunda essa crítica ao analisar como a sociedade capitalista estrutura todas as relações sociais em torno da forma-mercadoria, gerando um processo de alienação e reificação que afeta não apenas o trabalhador em sua atividade produtiva, mas também o cidadão em sua participação política. A democracia liberal, nesse contexto, torna-se permeada por esse nivelamento forçado, as relações humanas e políticas são coisificadas, e o indivíduo sente-se impotente diante do tamanho aparentemente inexpugnável das estruturas sociais, como o mercado e o próprio Estado, que parecem operar com uma lógica autônoma e incontrolável, expressões concretas dessa dinâmica incluem o financiamento bilionário de campanhas, o poder desmedido do lobby corporativo e a influência do grande capital no controle dos conglomerados de mídia, sempre com vistas à manutenção da narrativa dos acontecimentos e alienação dos fundamentos reais da crise perante a opinião pública.


Esta análise ajuda a compreender por que o aprofundamento da desigualdade econômica, exacerbado pelas políticas neoliberais implementadas a partir dos anos 1980, corrói inevitavelmente a substância da igualdade política formal, tanto decantada no que os comunistas chamavam de democracias burguesas. A neutralidade do Estado liberal é crescentemente percebida como uma fachada que mascara sua cumplicidade com os processos de acumulação profunda de riquezas pela elite, enquanto os instrumentos democráticos formais que subsistem internamente nelas, demonstram-se frequentemente incapazes de reverter ou mesmo refrear essa concentração extrema e contínua de dinheiro e poder.

 

A fragilização das instituições democráticas liberais e a crise de representatividade abriram espaço para a emergência e consolidação de lideranças autoritárias e movimentos populistas de direita em escala global. Fenômenos como o retorno de Donald Trump nos EUA, o fortalecimento de figuras como Viktor Orbán na Hungria, Jair Bolsonaro no Brasil, entre outros, ilustram essa tendência preocupante, embora as causas sejam multifatoriais, envolvendo desde elementos culturais, identitários e comunicacionais, até a falta de uma pauta mínima unificadora da esquerda mundial, uma análise estrutural não pode ignorar o terreno fértil criado pela crise socioeconômica, nascida no âmago do próprio sistema capitalista.

Diante da possibilidade do crescimento e triunfo global de movimentos socialistas, a superestrutura capitalista lança sem pudor sua derradeira cartada, que é o apelo ao nacionalismo exacerbado, ao discurso anti-establishment (ainda que defendam interesses das elites políticas, religiosas e econômicas), ao culto da força e à deslegitimação sistemática dos mecanismos de controle democrático, como o judiciário independente, a imprensa livre e as organizações da sociedade civil. Antonio Gramsci, em seus Cadernos do Cárcere, oferece ferramentas conceituais precisas para interpretar esse cenário, o conceito de "crise orgânica" descreve momentos em que as classes dominantes perdem o consenso e não conseguem mais manter sua hegemonia através da direção político-cultural, recorrendo crescentemente à coerção e ao "domínio puro".

 

Gramsci também identifica o "cesarismo" como uma solução política que pode emergir em tais crises de autoridade e hegemonia, onde uma figura carismática, amparada pelo ou através do aparato repressivo estatal, intervém para arbitrar os conflitos sociais agudos, geralmente restaurando a ordem em favor dos mesmos grupos dominantes, ainda que sob uma nova roupagem política, mudando para nada mudar. Esses líderes frequentemente canalizam ressentimentos e frustrações legítimas de setores da população precarizados ou marginalizados pelas transformações econômicas, direcionando-os, contudo, contra bodes expiatórios, normalmente a “minoria da vez”, imigrantes, elites culturais, estado laico, assim por diante, e não contra as raízes estruturais causadoras da desigualdade.

 

A arquitetura de governança global construída após a Segunda Guerra Mundial, com instituições como a ONU, o FMI, o Banco Mundial e, posteriormente, a OMC, foi um pilar da ordem liberal internacional liderada pelo Ocidente, com o objetivo declarado de promover a paz, a cooperação e a estabilidade econômica. No entanto, particularmente após a crise financeira de 2008 e com as mudanças no equilíbrio de poder global, essas instituições enfrentam um total descrédito, Noam Chomsky, em obras como “Quem Manda no Mundo?”, argumenta consistentemente que essas instituições foram, desde sua origem, moldadas para servir aos interesses geopolíticos e econômicos das potências hegemônicas, notadamente os EUA.

 

A aplicação seletiva das normas internacionais, o abandono de acordos quando estes têm seus interesses contrariados, o uso unilateral de sanções econômicas e intervenções militares à margem do direito internacional, são evidências dessa dinâmica, confirmando que, a grosso modo, essas instituições que poderiam ser importantes para um processo multilateral decisório, são ao final apenas instrumento ideológico de manipulação internacional de interesses das elites nacionais. A desconfiança em relação ao multilateralismo no atual mundo das democracias liberais reflete não apenas a percepção de sua instrumentalização pelas grandes potências, mas também, para muitas nações do chamado Sul Global, a sensação de que essas estruturas perpetuam relações neocoloniais e assimétricas. A crise do multilateralismo, portanto, não é apenas um sintoma da decadência da hegemonia ocidental, mas também um fator que aprofunda a instabilidade e a fragmentação da ordem internacional, dificultando respostas coordenadas a desafios globais urgentes como pandemias e mudanças climáticas.

 

Diante desse cenário complexo, emergem movimentos sociais, propostas políticas e reflexões teóricas que buscam caminhos para superar os limites da democracia liberal burguesa, iniciativas como o DiEM25 (Movimento Democracia na Europa 2025), co-fundado por Yanis Varoufakis, tentam articular uma resposta transnacional à crise, propondo a democratização radical das instituições europeias, a implementação de políticas de redistribuição de renda e uma transição ecológica e socialmente justa. Ainda está distante da necessidade da transformação disruptiva necessária para o mundo, mas sem dúvida é um avanço. No campo teórico-político, diversas correntes da esquerda contemporânea retomam e atualizam a ideia de uma "radicalidade democrática” ou "democracia popular", que transcenda a esfera meramente representativa e se estenda ao controle social e democrático da economia e das principais decisões que afetam a vida coletiva. Essa perspectiva dialoga com as propostas históricas de autogoverno dos trabalhadores, como os conselhos operários defendidos por Rosa Luxemburgo como expressão de uma “democracia proletária direta e participativa”.

 

Mesmo pensadores situados fora da tradição marxista mais ortodoxa, como Norberto Bobbio, contribuíram para o diagnóstico da crise. Em O Futuro da Democracia, ele alertava para as promessas não cumpridas da democracia, apontando o fosso crescente entre os ideais democráticos de participação e igualdade e a realidade da apatia política, do poder de grupos ocultos e da persistência e crescimento das desigualdades. Para Bobbio, a vitalidade da democracia dependeria não apenas da manutenção das regras formais do jogo, mas da expansão dos direitos sociais e da capacidade de democratizar esferas para além do Estado, como as empresas e a administração pública, portanto, é como construir formas de organização política e social que avancem para uma participação popular substantiva e efetiva e com resultados reais na vida das pessoas.

 

A história do capitalismo demonstra que os períodos de crise estrutural profunda foram frequentemente seguidos por ondas de reação autoritária, nacionalismos, extremismo e conflitos interimperialistas. A análise de Lenin sobre o imperialismo, fase superior do capitalismo, já apontava a tendência inerente ao capital monopolista de buscar a expansão, a dominação de mercados e o controle de territórios, gerando rivalidades que culminaram nas grandes guerras do século XX.
Essa linha de análise histórica encontra ecos em críticas mais radicais à socialdemocracia e às vias puramente reformistas. Autores como Harpal Brar, por exemplo, argumentam que, em momentos críticos de confronto de classes, setores da socialdemocracia, ao priorizarem a estabilidade do sistema capitalista e abdicarem de uma transformação revolucionária do status quo, podem acabar, na prática, por facilitar ou legitimar medidas autoritárias que visam conter a mobilização popular e preservar a ordem burguesa.

 

Essas formas de leitura são logicamente controversas, mas levantam questões importantes sobre os limites do reformismo dentro do modo de produção capitalista, principalmente em contextos de crise aguda. Essas análises históricas sugerem que a defesa acrítica da democracia liberal existente, sem um questionamento de suas bases econômicas e de classe, pode paradoxalmente pavimentar o caminho para sua própria negação, seja através do fortalecimento de aparatos repressivos estatais, seja pela ascensão de regimes abertamente ditatoriais em nome de preservar o mal já conhecido. E sob o signo do medo ao novo, acaba exortando o fantasma do porvir, abraçando sem pudores ou escrúpulos as soluções que garantem no final a sobrevivência do capital, mesmo que esta seja uma solução final pelo fascismo.


A crise atual da democracia liberal burguesa não aponta para um destino histórico inevitável, mas abre um campo de disputas e possibilidades, como Gramsci nos ensinou, a história é feita de lutas pela hegemonia, e não de fatalismos econômicos. A questão crucial não é apenas se a forma atual da democracia liberal persistirá, mas quais novas configurações de poder, dominação ou, alternativamente, de emancipação surgirão das suas ruínas ou da sua transformação. De um lado, o risco da consolidação de novos autoritarismos é real, potencializado por tecnologias digitais e algoritmos comandados por uma nova elite que potencializa (impulsiona artificialmente) o pensamento extremista de direita e logicamente inviabiliza as tentativas de mobilização do campo oposto, e esse controle e manipulação da informação em massa não está presente em um país apenas, mas em escala global, como nunca experimentamos na história da humanidade.

Estes mecanismos de controle podem assumir formas diversas, desde regimes abertamente ditatoriais até democracias iliberais dóceis, que mantêm uma fachada de normalidade democrática enquanto corroem direitos e liberdades fundamentais do seu povo como se fossem decisões soberanas de seus executivos, parlamentos e judiciário. De outro lado, contudo, persistem e se renovam as lutas por alternativas emancipatórias, ancoradas em práticas de democracia direta e participativa, na busca por uma nova sociedade, se for disruptiva, que seja, mas buscando uma justiça social, econômica radical, humanista e internacionalista.

 

A análise informada por pensadores como Lukács, Gramsci, Chomsky e Bobbio, entre outros, converge ao indicar que uma superação progressista da crise dificilmente ocorrerá dentro dos marcos conceituais e das estruturas de poder do capitalismo liberal, neoliberal, ou quaisquer de seus novos engendros para se reinventar. Exigirá, provavelmente, um rompimento com a lógica da mercantilização de todas as esferas da vida, a democratização profunda das estruturas econômicas e políticas, e a reconstrução da cooperação internacional sobre bases mais justas e igualitárias, rompendo sem olhar para trás, se não com tudo, mas com muito do que aí está, essa roupa nunca nos serviu e não há de ser agora que servirá. O dilema histórico formulado por Rosa Luxemburgo ecoa com força nos dias atuais: "Socialismo ou Barbárie!".

 

Cláudio Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

Atenciosamente, Deus

Eu te ouvi.   Antes da palavra. Antes da intenção. Antes da forma que você tentou dar ao que sentia. Eu te ouvi no intervalo onde o ...