Nos interstícios do poder e da cultura, forma-se um tipo particular de
conhecimento: o saber do oprimido. Trata-se de um acúmulo ampliado, plural,
muitas vezes invisível aos olhos das epistemologias dominantes, mas
profundamente potente. O sujeito marginalizado, especialmente aquele oriundo
das periferias do mundo, do sertão ao sul global, da favela às ex-colônias,
carrega em si não apenas a gramática de sua própria existência, mas também a
linguagem do poder que o oprime, ele é bilíngue em estruturas de dominação.
Tomemos como ponto de partida nosso país, o jovem do nordeste, migrante
real ou simbólico, desde cedo precisa se alfabetizar não apenas nas letras da
escola, mas nos códigos de prestígio do centro dominante. Aprende a reconhecer
sotaques, gírias, referências midiáticas, posturas esperadas e até as
caricaturas e estereótipos que fazem dele e da sua gente. Decifra as narrativas
do Sudeste, as músicas das rádios nacionais, as estéticas dos grandes jornais,
não apenas compreende, mas muitas vezes reproduz, com domínio técnico e
profundo senso analítico. Vive em trânsito.
Enquanto isso, o jovem das regiões centrais, herdeiro inconsciente do
monopólio narrativo, permanece alheio à riqueza dos dizeres de quem está longe
demais das capitais, desconhece completamente as tradições, signos e saberes
que são profundamente ricos. Esse desnível não é casual, trazendo para
discussão o aspecto transnacional, ele expressa o que Boaventura de Sousa
Santos chamou de epistemologias do sul: formas de conhecimento historicamente
marginalizadas, silenciadas, apagadas por um sistema-mundo que universalizou a
experiência do Norte global como a norma, e a do Sul como exótica, essa vista
como subalterna ou folclórica. A força do saber periférico está em seu caráter
híbrido e adaptativo: O oprimido precisa compreender mais que o opressor para
sobreviver, resistir, resinificar e crescer.
É uma repetição histórica, um ouroboros, durante os séculos de dominação
europeia, os africanos sequestrados e escravizados precisavam aprender as
línguas dos colonizadores, seus gestos, seus códigos religiosos, sua
organização social, sob pena de punição, exclusão ou morte. Já os senhores
brancos, donos das senzalas e das igrejas, em geral jamais aprenderam os
idiomas bantos ou iorubás, os significados dos orixás, os saberes medicinais
ancestrais. Em Angola, Congo, e mesmo no Brasil, o africano conheceu profundamente
a Europa, mas a Europa jamais compreendeu a África.
Essa assimetria ainda é atual, um intelectual indiano lê Michel
Foucault, Judith Butler, Marx e Kant. Mas quantos pensadores parisienses leram
B. R. Ambedkar, Gayatri Spivak ou Vivek Chibber? O estudante latino-americano
reconhece obras de Jürgen Habermas e John Rawls. Mas quantos alemães já ouviram
falar de Aníbal Quijano, Silvia Rivera Cusicanqui ou Paulo Freire? A divisão
internacional do trabalho intelectual permanece colonial: o Sul conhece o
Norte, mas o Norte ainda ignora o Sul, inclusive onde este é indubitavelmente
mais qualificado e teoricamente superior.
É nesse cenário que emerge o conhecimento estratégico do marginal, não é
apenas resistência; pode ser uma leitura refinada do mundo. Como disse bell
hooks, a marginalidade pode ser um local de radical abertura, um ponto de vista
a partir do qual se enxerga o todo, incluindo o centro, enquanto o centro vê
apenas o reflexo de si mesmo, o periférico é cosmopolita à força, ele vive
entre mundos. Um jovem do subúrbio de Dakar conhece com desenvoltura a
culinária, programas de TV e música francesa, e ainda é capaz de recitar
inúmeros trechos do Alcorão. Um morador do sertão do nordeste conhece a letra
inteira de um funk carioca, mas também os usos do extrato de umbuzeiro e como
usar a palma na seca para alimentar os animais. Um indígena brasileiro
decodifica as instituições ocidentais para conseguir demarcar sua terra, ao
mesmo tempo em que preserva a cosmologia ancestral de seu povo. São todos
transfugas da fronteira, por imposição perversa da latitude e longitude do
local do seu nascimento.
Esses sujeitos acumulam, portanto, um capital simbólico ampliado, eles
não apenas detêm seus saberes originários, mas também dominam com lucidez
crítica os códigos hegemônicos, são intérpretes multiculturais. No entanto, sua
erudição popular, seu conhecimento prático, sua leitura dupla do mundo, não são
valorizados pelas instituições e academias. Isso revela o quanto a modernidade
continua presa à estrutura colonial que a fundou: só reconhece como universal
aquilo que nasce no centro, e normalmente só repara a borda quando o próprio
centro observa algum valor por lá.
A escritora portuguesa de pais africanos, Grada Kilomba, em seu livro Memórias
da Plantação, mostra como o saber do colonizado é constantemente
deslegitimado e expulso do território do pensamento. Quando o negro, o
indígena, o pobre ou o migrante fala, muitas vezes não é escutado, ou é ouvido
como “experiência” e não como “teoria”. O saber das margens é tolerado como
curiosidade, mas raramente aceito como epistemologia válida.
Esse fenômeno é reproduzido também na mídia, nas artes, moda, cinema, na
política institucional, em tudo. Quantas vezes as gírias das periferias viram
moda nos centros urbanos sem o devido crédito ou contexto? Quantas vezes
expressões de resistência estética são apropriadas sem reverência às suas
origens? A periferia fornece o ritmo, o sabor, a cor, a magia, o conhecimento,
mas não o poder de nomear ou conduzir.
Contudo, há fissuras nessa hegemonia, a circulação digital e midiática
tem provocado em parte uma reconfiguração desse jogo. A democratização da
internet tem exposto jovens periféricos a múltiplos universos culturais e, ao
mesmo tempo, projetado suas linguagens para além do gueto e diminuindo as
fronteiras. Coletivos de comunicação popular, lideranças indígenas e
quilombolas, escritores das periferias, rappers e poetas, grafiteiros, estão
transformando sua vivência em narrativa política, estética e pedagógica. Nunca
tantos marginalizados souberam tanto sobre tantas realidades de tantos outros
marginais. Porém, o centro pouco se move, assim, o peso da desigualdade
epistemológica persiste.
Para nós do Sul Global, é exigido um repertório duplo, por vezes triplo:
o sujeito periférico precisa dominar seu contexto local, interpretar os códigos
do centro e se orientar num mundo globalizado em constante mutação, é um
malabarismo existencial. Mas também vira uma capacidade potencial, essa
plasticidade de leitura, essa fluência entre mundos, é um dom de quem se
acostumou a caminhar sobre terrenos instáveis, transforma essa pessoa em alguém
que pode analisar o micro e ainda compreender perfeitamente o macro.
Nesse sentido, a figura do oprimido é tudo menos passiva, sabe quando
traduzir e quando deixar que o centro se perca na própria ignorância, sabe
entrar em espaços onde sua presença é questionada e, mesmo assim, ocupar com
dignidade e crítica. A capacidade de viver entre códigos, de habitar
simultaneamente o mundo do colonizador e o da resistência, é um atributo de
profunda complexidade intelectual. Não devemos romantizar a situação, mas
compreender a força que advém da escassez.
Refletir sobre esse fenômeno é também repensar as bases de um novo pacto
civilizatório, o saber do marginalizado precisa deixar de ser apenas um
instrumento de sobrevivência para se tornar um ponto de partida, aquele que
conhece a si mesmo e ao outro está mais apto a propor sínteses, mediações,
recomeços. O mundo que queremos talvez esteja mais próximo da escuta das
periferias do mundo do que da repetição estéril do centro dominante.
Como disse Frantz Fanon, "o colonizado é um homem enredado em dois
mundos". Mas esse entrelaçamento, longe de ser um fardo, pode ser uma
chave para uma nova concepção de humanidade: múltipla, fluente, inclusiva,
atenta às bordas. Uma humanidade em que saber mais não seja privilégio, mas
reconhecimento, quem sabe um mundo sem centros únicos, em que cada ponto do que
hoje vemos como margem seja o nascedouro de um novo centro que entre em
confluências com outros tantos centros mais, até que não haja mais necessidade
nenhuma de centralizar.
Essa transformação exige uma ética da escuta, que os centros se abram a
silêncios longamente impostos, que o conhecimento deixe de ser um privilégio
geográfico e passe a ser uma partilha comprometida. Que o currículo,
universidades, bibliotecas, museus, parlamentos e as redações acolham vozes até
então secundarizadas, não como ato de caridade, mas como reparação histórica e
reinvenção do comum, pela beleza da busca de conhecimento mais pleno, porque,
como vimos, o saber do oprimido não é menor, ao contrário, é muito mais vasto,
pois abarca um conhecimento incontabilizável, o do seu mundo e o do dele.
Cláudio
Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.