No próximo dia 1º de março, quando Recife e Olinda se embriagarem de
cores e sons, além da majestade do Galo da Madrugada, eu — que um dia, ainda
menino, sonhei em sair fantasiado de Capitão Marvel — completo meio século de
existência. São cinquenta anos de uma história escrita nem sempre nos
holofotes, mas nos cantos onde os invisíveis tecem a verdadeira resistência e
onde revoluções acontecem.
Como um bom pernambucano, aprendi desde cedo a amar a multidão e seus
cheiros e sabores, mas também aprendi a observar os degredados, perdedores,
aqueles de quem ninguém se importa. Percebi que ali estavam os heróis sem
estandarte, as vozes que ecoam nos becos das nossas ruas históricas na passagem
dos blocos de frevos de rua, líricos, maracatus, sambas e afoxés, como bem
disse o grande Chico em "Vai Passar":
"Palmas pra ala dos
barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do Boulevard"
Minha vida até aqui é um mosaico de papéis: advogado, gestor público,
ambos por indicação do partido, mas gostei, aprendi e surpreendi muito mais que
meus pares, mas a mim mesmo; sabia fazer direitinho as tarefas que me eram
propostas. Sou um político menor, que preferiu escutar as vozes das praças, os
discursos de quem pouco sabia estar sendo ouvido.
Também atuo como o que poderíamos chamar de um proto-escritor que
transformou decepções em letras, falando dos temas mais diversos possíveis,
sabendo de quase tudo um pouco, mas quase tudo mal. Alguns poucos leem o que
escrevo; lógico que, em minha vaidade, gostaria que meus pensamentos tatuados
no papel gerassem alguma inquietação e reflexão em algum incauto, porém, me
satisfaço em pôr pra fora essas coisas que estavam há muitos anos presas dentro
da minha cabeça e gritavam para sair.
Aos 14 anos de idade, escolhi o Partido Comunista Brasileiro – PCB, não
por modismo, até porque, naquele distante ano de 1989, o Partidão já sofria das
agruras e consequências da queda do Muro de Berlim, mas eu me sabia comunista.
Aliás, meu pai afirma que sempre fui. Lembro de um tio conservador que me
interpelou um dia: "Acho que você está sendo influenciado por algum
amigo", ao que respondi: "Na verdade, tio, sou eu quem influencia
meus amigos".
Mas os comunistas me deram um grande presente, e carrego comigo até
hoje: um norte para os que navegam mesmo sem bússola, uma preocupação para além
do meu torrão natal. Somos responsáveis também pelo mundo, e isso me deu uma
perspectiva global e um sentimento profundo de responsabilidade com o conjunto
da humanidade.
Formei-me em Direito em 1998, mas meu diploma virou ferramenta, não um
troféu. Nunca cobrei de pessoas físicas pela minha advocacia, e só o fiz para
empresas, mesmo assim, às quais eu tinha alguma aderência ideológica ou
afetiva. Não que meus colegas estejam errados em cobrar — é o trabalho deles,
nada mais justo —, mas era só minha singela forma de agradecer ao universo pela
oportunidade de um garoto crescido na periferia de Barra de Jangada ter obtido
tantas chances, espaços, voz e possibilidade de ocupar espaços importantes.
Como gestor, descobri que administrar é como reger uma orquestra:
harmonizar o conjunto, diminuir dissonâncias, valorizar o coletivo e ressaltar
os valores individuais de quem compõe a sinfônica, e algumas vezes,
logicamente, pôr feito à ordem. Enfrentei enchentes (não é figura de linguagem)
que arrastavam sonhos e matavam esperanças, cuidei da manutenção da vida de
adolescentes ameaçados pelo tráfico, auxiliei ações de assistência social à
população mais vulnerável. Tudo isso com a teimosia de quem sabe que a sombra
teme a persistência da luz. Sempre escolhi a porta estreita. Na hora de optar,
minha preferência era pelos mais desprezados, inquietos, os que desafiavam as
regras, os que ninguém mais queria. Talvez visse neles um pouco de mim.
Mas minha verdadeira alegria não está nos cargos ocupados ou em uma
veloz ascensão partidária. Estavam, na verdade, nos versos que nasceram de
madrugadas insones, nos telefones que tocaram quando mais precisava, nos
convites feitos de tanta gente boa quando eu mais precisava, no apoio cotidiano
de tantos que, nos momentos de dificuldades, se punham à disposição.
Minha felicidade, na verdade, é bem simples, ela mora nas arquibancadas
do Estádio dos Aflitos, onde aprendi o que é esperança, compreender o que é fé,
mesmo quando o placar insiste em mentir pra a gente. Mas, principalmente, na
força do apoio incondicional da minha família, onde aprendi que não existe
medida para o amor. Meu chão e meu céu estão em perfeita harmonia quando estou
ali com eles.
Houve também muitas agruras, noites em que parecia que queriam me
apagar, que nada fazia sentido, deixando-me envolver em intrigas,
meias-verdades, pelejas palacianas, em um jogo torto cujas regras eu não
conhecia e que nunca quis aprender a jogar. Nessas horas sombrias, era amparado
pelo pequeno Claudinho, que me lembrava do meu herói favorito da infância,
então eu usava uma palavra mágica, gritando-a a plenos
pulmões... Shazam! E tudo ficava bem.
Chegar aos 50 num sábado de Carnaval não é coincidência: na verdade é
uma bela metáfora. No espelho, o rosto que vejo agora não é o que conhecia;
vejo uma cara talhada por batalhas e tempo, mas meus olhos ainda se iluminam
com um "e por que não?". Reconheço em mim várias das pessoas que fui,
nas várias etapas da vida: o adolescente que colecionava histórias em
quadrinhos e lutava por justiça social, o gestor que enterrou a vaidade pelo
serviço às pessoas, o homem que sabe que o jogo mais bonito é aquele que se
joga de coração aberto, mesmo sem plateia na arquibancada ou nenhum
reconhecimento.
As derrotas momentâneas podem ser ensaios para uma revanche no futuro, e
quando não há essa revanche, ou a derrota se repete, é aceitar seu fracasso e
seguir, simples assim. Afinal, a existência é complexa, e, na maioria das
vezes, vamos cair e cair novamente. Assim, dedico este texto a várias pessoas
que compartilharam esta dança comigo e dividiram tantos êxitos e os fracassos
com a mesma altivez. Mas antes que ressoem os clarins, deixo meus profundos
agradecimentos:
À minha família, que
transformou um sonhador em gente.
Aos mestres, que me ensinaram que poder é efêmero, mas servir é eterno.
Aos alunos rebeldes, que viraram meus professores mesmo sem saber.
Aos companheiros de utopias e copos, irmãos de causas impossíveis.
Aos invisibilizados, que mostraram que heroísmo mesmo é suportar o dia a dia.
E a todos que duvidaram, vocês abasteceram o combustível da minha teimosia e
inflaram o dirigível dos meus mais profundos sonhos.
Meu futuro? Não tenho ideia! Mas devo continuar nas trincheiras do
improvável, talvez escrevendo, às vezes governando, mas sempre e sempre,
torcendo. E quando chegar o dia em que o frevo parar de tocar em mim, saibam
que estarei ali, na margem da rua, agora também invisível, seguindo o “Nem
Sempre Lily Toca Flauta” cantando a boa vida que levei. Sabendo-me feliz,
amante do Carnaval, mas, principalmente, e por mais simplório que pareça,
orgulhoso do cara que não negava seu sorriso pra ninguém. Enquanto existir
música, poesia e possibilidade de sonhar, seguirei feliz. E quanto a mim neste
momento? Tou me guardando pra quando o carnaval chegar. Sendo assim, EVOÉ,
camaradas!
Cláudio
Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.