sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

A Festa do Galo da Madrugada é Minha(50 Anos de Carraly)


No próximo dia 1º de março, quando Recife e Olinda se embriagarem de cores e sons, além da majestade do Galo da Madrugada, eu — que um dia, ainda menino, sonhei em sair fantasiado de Capitão Marvel — completo meio século de existência. São cinquenta anos de uma história escrita nem sempre nos holofotes, mas nos cantos onde os invisíveis tecem a verdadeira resistência e onde revoluções acontecem.

Como um bom pernambucano, aprendi desde cedo a amar a multidão e seus cheiros e sabores, mas também aprendi a observar os degredados, perdedores, aqueles de quem ninguém se importa. Percebi que ali estavam os heróis sem estandarte, as vozes que ecoam nos becos das nossas ruas históricas na passagem dos blocos de frevos de rua, líricos, maracatus, sambas e afoxés, como bem disse o grande Chico em "Vai Passar":

"Palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do Boulevard"

Minha vida até aqui é um mosaico de papéis: advogado, gestor público, ambos por indicação do partido, mas gostei, aprendi e surpreendi muito mais que meus pares, mas a mim mesmo; sabia fazer direitinho as tarefas que me eram propostas. Sou um político menor, que preferiu escutar as vozes das praças, os discursos de quem pouco sabia estar sendo ouvido.

Também atuo como o que poderíamos chamar de um proto-escritor que transformou decepções em letras, falando dos temas mais diversos possíveis, sabendo de quase tudo um pouco, mas quase tudo mal. Alguns poucos leem o que escrevo; lógico que, em minha vaidade, gostaria que meus pensamentos tatuados no papel gerassem alguma inquietação e reflexão em algum incauto, porém, me satisfaço em pôr pra fora essas coisas que estavam há muitos anos presas dentro da minha cabeça e gritavam para sair.

Aos 14 anos de idade, escolhi o Partido Comunista Brasileiro – PCB, não por modismo, até porque, naquele distante ano de 1989, o Partidão já sofria das agruras e consequências da queda do Muro de Berlim, mas eu me sabia comunista. Aliás, meu pai afirma que sempre fui. Lembro de um tio conservador que me interpelou um dia: "Acho que você está sendo influenciado por algum amigo", ao que respondi: "Na verdade, tio, sou eu quem influencia meus amigos".

Mas os comunistas me deram um grande presente, e carrego comigo até hoje: um norte para os que navegam mesmo sem bússola, uma preocupação para além do meu torrão natal. Somos responsáveis também pelo mundo, e isso me deu uma perspectiva global e um sentimento profundo de responsabilidade com o conjunto da humanidade.

Formei-me em Direito em 1998, mas meu diploma virou ferramenta, não um troféu. Nunca cobrei de pessoas físicas pela minha advocacia, e só o fiz para empresas, mesmo assim, às quais eu tinha alguma aderência ideológica ou afetiva. Não que meus colegas estejam errados em cobrar — é o trabalho deles, nada mais justo —, mas era só minha singela forma de agradecer ao universo pela oportunidade de um garoto crescido na periferia de Barra de Jangada ter obtido tantas chances, espaços, voz e possibilidade de ocupar espaços importantes.

Como gestor, descobri que administrar é como reger uma orquestra: harmonizar o conjunto, diminuir dissonâncias, valorizar o coletivo e ressaltar os valores individuais de quem compõe a sinfônica, e algumas vezes, logicamente, pôr feito à ordem. Enfrentei enchentes (não é figura de linguagem) que arrastavam sonhos e matavam esperanças, cuidei da manutenção da vida de adolescentes ameaçados pelo tráfico, auxiliei ações de assistência social à população mais vulnerável. Tudo isso com a teimosia de quem sabe que a sombra teme a persistência da luz. Sempre escolhi a porta estreita. Na hora de optar, minha preferência era pelos mais desprezados, inquietos, os que desafiavam as regras, os que ninguém mais queria. Talvez visse neles um pouco de mim.

Mas minha verdadeira alegria não está nos cargos ocupados ou em uma veloz ascensão partidária. Estavam, na verdade, nos versos que nasceram de madrugadas insones, nos telefones que tocaram quando mais precisava, nos convites feitos de tanta gente boa quando eu mais precisava, no apoio cotidiano de tantos que, nos momentos de dificuldades, se punham à disposição.

Minha felicidade, na verdade, é bem simples, ela mora nas arquibancadas do Estádio dos Aflitos, onde aprendi o que é esperança, compreender o que é fé, mesmo quando o placar insiste em mentir pra a gente. Mas, principalmente, na força do apoio incondicional da minha família, onde aprendi que não existe medida para o amor. Meu chão e meu céu estão em perfeita harmonia quando estou ali com eles.

Houve também muitas agruras, noites em que parecia que queriam me apagar, que nada fazia sentido, deixando-me envolver em intrigas, meias-verdades, pelejas palacianas, em um jogo torto cujas regras eu não conhecia e que nunca quis aprender a jogar. Nessas horas sombrias, era amparado pelo pequeno Claudinho, que me lembrava do meu herói favorito da infância, então eu usava uma palavra mágica, gritando-a a plenos pulmões... Shazam! E tudo ficava bem.

Chegar aos 50 num sábado de Carnaval não é coincidência: na verdade é uma bela metáfora. No espelho, o rosto que vejo agora não é o que conhecia; vejo uma cara talhada por batalhas e tempo, mas meus olhos ainda se iluminam com um "e por que não?". Reconheço em mim várias das pessoas que fui, nas várias etapas da vida: o adolescente que colecionava histórias em quadrinhos e lutava por justiça social, o gestor que enterrou a vaidade pelo serviço às pessoas, o homem que sabe que o jogo mais bonito é aquele que se joga de coração aberto, mesmo sem plateia na arquibancada ou nenhum reconhecimento.

As derrotas momentâneas podem ser ensaios para uma revanche no futuro, e quando não há essa revanche, ou a derrota se repete, é aceitar seu fracasso e seguir, simples assim. Afinal, a existência é complexa, e, na maioria das vezes, vamos cair e cair novamente. Assim, dedico este texto a várias pessoas que compartilharam esta dança comigo e dividiram tantos êxitos e os fracassos com a mesma altivez. Mas antes que ressoem os clarins, deixo meus profundos agradecimentos:

À minha família, que transformou um sonhador em gente.
Aos mestres, que me ensinaram que poder é efêmero, mas servir é eterno.
Aos alunos rebeldes, que viraram meus professores mesmo sem saber.
Aos companheiros de utopias e copos, irmãos de causas impossíveis.
Aos invisibilizados, que mostraram que heroísmo mesmo é suportar o dia a dia.
E a todos que duvidaram, vocês abasteceram o combustível da minha teimosia e inflaram o dirigível dos meus mais profundos sonhos.

Meu futuro? Não tenho ideia! Mas devo continuar nas trincheiras do improvável, talvez escrevendo, às vezes governando, mas sempre e sempre, torcendo. E quando chegar o dia em que o frevo parar de tocar em mim, saibam que estarei ali, na margem da rua, agora também invisível, seguindo o “Nem Sempre Lily Toca Flauta” cantando a boa vida que levei. Sabendo-me feliz, amante do Carnaval, mas, principalmente, e por mais simplório que pareça, orgulhoso do cara que não negava seu sorriso pra ninguém. Enquanto existir música, poesia e possibilidade de sonhar, seguirei feliz. E quanto a mim neste momento? Tou me guardando pra quando o carnaval chegar. Sendo assim, EVOÉ, camaradas!

 

Cláudio Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Um Museu de Grandes Novidades – Onda da Extrema-Direita Continua


A ascensão da extrema-direita no Brasil é um fenômeno que se insere em um contexto global de polarização política, evocando paralelos históricos e preocupações quanto à estabilidade democrática. A extrema-direita no Brasil supera o carisma individual de sua maior liderança, Jair Bolsonaro, mesmo com sua inelegibilidade e várias investigações criminais, as ideias e valores que mobilizou permanecem vivos. A atual transição do campo conservador está esmagando o que havia da direita centrista, radicalizando esses grupos e jogando-os para o espectro mais agudo do reacionarismo. Essa onda do chamado neofascismo fez emergir novas lideranças e novas formas de abordagem política, ampliando sua base de apoio e garantindo sua continuidade por ainda bastante tempo.

O enfraquecimento de Bolsonaro não implica o fim desse novo ciclo da extrema-direita. A figura do ex-presidente, antes central, hoje convive com um movimento fragmentado que se reorganiza em torno de agendas comuns, surfando sempre na insatisfação popular difusa, que antes era canalizada pela figura do ex-presidente, agora se pulveriza, permitindo a emergência de líderes regionais e setoriais. Nomes como Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Nikolas Ferreira ilustram a diversidade dentro da direita.

Tarcísio, com um discurso mais tecnocrático, tenta angariar credibilidade institucional e midiática; Caiado investe em pautas conservadoras ligadas principalmente ao agronegócio; e Nikolas, que tenta encarnar um moralismo radical, difundido em redes sociais, tornando-se popular em parcela importante da juventude. Essas e outras lideranças ampliam a gama de apelos ideológicos, mantendo coeso o núcleo conservador.

As redes sociais continuam sendo o principal veículo de mobilização da extrema-direita no país. Narrativas simplistas e emocionais, reforçadas por algoritmos e notícias sabidamente falsas, criam bolhas ideológicas antagônicas ao debate racional e avessas aos fatos reais. Segundo dados do Relatório de Digital News Report (2023), 62% dos brasileiros acessam notícias principalmente por redes sociais, o que facilita a disseminação de desinformação, essa dinâmica amplia a polarização e dificulta o diálogo, permitindo que a extrema-direita se fortaleça mesmo sem um líder centralizado.

Os traços culturais dos brasileiros, como autoritarismo, nacionalismo e conservadorismo, são alicerces históricos sobre os quais a extrema-direita constrói seu discurso e unifica sua base. Esses valores, consolidados ao longo de séculos, preparam o terreno para a aceitação de soluções políticas simplistas e autoritárias, presente desde a colonização e reforçado pela ditadura militar, o autoritarismo alimenta a crença de que lideranças fortes e centralizadoras enfrentam melhor as crises. O nacionalismo, por sua vez, cria um senso de pertencimento e um furor ufanista exacerbado, contrapondo os destinos da nação aos supostos inimigos da pátria, sejam esses internos ou externos.

O discurso autoritário encontra legitimação em uma memória coletiva falsa que aponta para governos antidemocráticos como solução de todos os problemas. A busca por respostas imediatas a problemas complexos, somada a um crescente moralismo conservador, revitalizado e turbinado principalmente no centro das igrejas evangélicas brasileiras, que valorizam um suposto modelo de família tradicional e combatem pautas progressistas, reforça a ideia de uma ordem social natural, respaldando a manutenção do abismo social. Outro aspecto importante é o discurso que justifica ações anti-institucionais em nome de um pragmatismo supostamente necessário, essa lógica corrói o respeito às instituições e legitima comportamentos contrários ao Estado Democrático de Direito. Esse simplismo político faz ressoar soluções autoritárias na sociedade brasileira, predisposta historicamente a aceitar retóricas salvacionistas.

A força da extrema-direita brasileira não está isolada, integra um cenário mundial de fragmentação política, instabilidade econômica e desconfiança nas elites tradicionais, nesse sentido, o passado oferece ensinamentos valiosos. A ascensão do fascismo na Europa dos anos 1930 ocorreu em meio a crises econômicas, descontentamento popular, uso intenso de propaganda política, supressão de liberdades civis e perseguição a minorias. Tais condições, resultantes em parte do colapso econômico pós-1929, ecoam na atual conjuntura mundial. A retórica do inimigo interno, o apelo à segurança e a hostilidade às diferenças encontram ecos no presente. O alerta histórico torna-se, assim, ainda mais urgente.

O encorajamento à violência, o desrespeito às decisões judiciais e o estímulo à polarização extrema tencionam a democracia brasileira e mundial. Assim como no passado, discursos autoritários podem resultar na erosão de liberdades civis e na fragilização das instituições, criando um ambiente propício ao surgimento de regimes autoritários. Como uma das maiores democracias do mundo, o Brasil exerce influência além de suas fronteiras, a forma como o país lida com o avanço da extrema-direita interessa à comunidade internacional, seja para reforçar valores democráticos, seja para evitar o contágio autoritário.

Enquanto a extrema-direita se consolida, a esquerda enfrenta dificuldades. A falta de renovação de lideranças, a incapacidade de dialogar com demandas concretas como segurança e emprego, e a ausência de inclusão mais ampla de temas emergentes enfraquecem sua capacidade de conter a maré ultraconservadora. Mesmo com a relevância da figura política do presidente Lula, a esquerda carece de novas lideranças capazes de dialogar com as periferias, interior do país, além dos jovens e os trabalhadores precarizados. A sucessão não pode depender de uma única figura carismática. Para se contrapor à extrema-direita, a esquerda precisa articular suas pautas e sua comunicação com soluções para a vida cotidiana. Um projeto que una igualdade, segurança, oportunidades e respeito à diversidade pode recuperar apoio popular, tornando-se um antídoto contra o autoritarismo.

Além dos partidos, outras esferas da sociedade precisam se mobilizar. Mídias independentes, ONGs, movimentos sociais, universidades, igrejas progressistas, sindicatos e instituições como o Judiciário e o Ministério Público, além dos democratas em geral, sejam esses centristas ou os que ainda restam na direita, todos desempenham um papel-chave no fortalecimento da democracia. A tarefa fundamental será fiscalizar o poder, promover debates qualificados, garantir direitos fundamentais e construir pontes entre atores diversos, esses setores formam uma barreira contra o avanço do autoritarismo.

 

O Brasil encontra-se em um momento decisivo, a ascensão da extrema-direita, alimentada por valores culturais enraizados e pela tensão global, ameaça a democracia. O paralelo com os anos 30 do século passado destaca o perigo real de retrocessos institucionais e a necessidade de uma mobilização ampla e contínua para além da esquerda. Aprendendo bastante com os erros dos estadunidenses, que trouxeram de volta ao comando do seu país, um autocrata com viés fascista, que ao retornar ao poder veio ainda mais truculento e avalizado abertamente pela plutocracia local, esperemos que o Brasil fique distante desse exemplo.

O fortalecimento das instituições, o engajamento da sociedade civil, a ação de lideranças comprometidas com o diálogo e a manutenção de uma frente ampla nos diversos setores da sociedade são fundamentais para evitar a deterioração democrática. Cabe ao país decidir se abraçará soluções autoritárias e simplistas ou se, ao contrário, reforçará os alicerces de uma democracia inclusiva, plural e resiliente. Essa questão começará a ser respondida no próximo pleito eleitoral nacional.

Cláudio Carraly, advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco

 

 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Uma Abordagem para um Brasil Mais Seguro


Nos últimos 30 anos, a segurança pública tem sido uma das principais preocupações dos brasileiros, o aumento da criminalidade, a sensação de insegurança e a violência nas ruas afetam profundamente a qualidade de vida de milhões de pessoas. Para compreender a complexidade desse problema, é essencial adotar uma abordagem multidisciplinar, que vá além da perspectiva policial e integre análises sociológicas, econômicas e culturais, bem longe das retóricas politiqueiras e das soluções simplistas.

 

A evolução da criminalidade no Brasil nas últimas décadas está intrinsecamente ligada à expansão das facções criminosas e às crescentes desigualdades sociais, ancoradas pelo enorme abismo de renda entre os mais ricos e os mais pobres no Brasil. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam que o país apresenta uma taxa de homicídios de cerca de 27 por cada 100 mil habitantes, uma das mais elevadas do mundo. Além disso, estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) demonstram a forte correlação entre falta de renda, altos índices de desemprego, baixa escolaridade e a perpetuação da violência.

 

Fatores estruturais como a desigualdade social, a exclusão econômica e a educação precária são determinantes na dinâmica do ciclo da criminalidade. A falta de oportunidades formais e a vulnerabilidade dos jovens em contextos de informalidade favorecem o aliciamento por organizações criminosas, nesse sentido, políticas públicas integradas, envolvendo habitação, saúde e assistência social, são imprescindíveis para romper o ciclo de exclusão e violência.

 

Esses fatores da diminuição de violência não são nada desconhecidos, porém lamentavelmente a incompetência dos governos estaduais, cuja responsabilidade formal da segurança pública foi determinada na constituição de 1988, isso agravado pelo desinteresse dos municípios e das sucessivas administrações federais, ressaltando que os demais entes políticos da República não querem trazer esse “problema para o seu colo”.

 

Casos internacionais demonstram que políticas integradas podem transformar realidades marcadas pelo crime. Medellín, na Colômbia, por exemplo, investiu em infraestrutura urbana, educação e programas culturais, conseguindo reduzir os índices de homicídios em mais de 80% ao longo de duas décadas, Em Los Angeles, a presença efetiva de um policiamento comunitário, bem como o uso inteligente dos dados coletados, melhoraram substancialmente os níveis de sensação de segurança no estado. Tais exemplos oferecem lições valiosas, mas devem ser adaptados à realidade brasileira, considerando as especificidades regionais e a diversidade cultural do país.

 

Para que iniciativas como o policiamento comunitário e os programas de prevenção à violência em escolas se tornem sustentáveis, é necessário definir etapas claras de implementação, como monitoramento contínuo da segurança, com indicadores reais que permitam avaliar a eficácia das políticas adotadas. Ainda a criação de fundos específicos para projetos de prevenção, garantindo recursos constantes em uma ação de Estado que não possa sofrer solução de continuidade pela administração seguinte, além do envolvimento de lideranças populares, ONGs e universidades na concepção, execução e monitoramento das políticas, garantindo maior aderência e adaptação às necessidades locais.

 

A corrupção e a impunidade corroem a eficácia das políticas de segurança. Para reverter esse cenário, a criação ou fortalecimento de entidades existentes que fiscalizem a gestão dos recursos públicos destinados à segurança, além da implementação de tecnologias que garantam a transparência dos processos e agilizem a aplicação da lei, reduzindo assim a sensação de impunidade. Estabelecendo mecanismos rigorosos de responsabilização e prestação de contas, onde agentes públicos e privados respondam civil e criminalmente por desvios e má gestão dos recursos.

 

A tecnologia desempenha um papel crucial na modernização da segurança pública, as novas tecnologias utilizadas de forma eficiente e respeitando os direitos individuais e a privacidade dos cidadãos são e serão cada vez mais fundamentais. A aplicação de algoritmos para identificar padrões de criminalidade, garantindo assim a atuação preventiva fundamental, assim como o uso ético de câmeras e sistemas inteligentes para mapear áreas de risco, utilizando a identificação facial de condenados pela justiça, além de otimizar o patrulhamento, remanejando-o para áreas de perigo iminente.

 

A segurança pública é uma responsabilidade coletiva. É necessário garantir a participação ativa da população, a criação de espaços de diálogo entre governo, forças de segurança e comunidade, onde as demandas e sugestões sejam discutidas e implementadas. O incentivo à educação cidadã sobre os direitos e deveres na defesa da paz e da não violência, promovendo a colaboração entre todos os segmentos da sociedade, garantindo ainda mecanismos que permitam à população opinar sobre as políticas de segurança e sugerir melhorias de forma estruturada.

 

O Brasil precisa repensar sua política de segurança pública de maneira abrangente e integrada. É fundamental que os governos e a sociedade atuem de forma conjunta para promover reformas estruturais, combater a corrupção e implementar soluções inovadoras, como a desmilitarização das polícias estaduais e consequente unificação à polícia civil, para que o sistema de segurança tenha apenas um corpo e comando diretivo único. Cada cidadão tem um papel essencial nessa transformação, seja participando de conselhos comunitários, pressionando por maior transparência ou engajando-se em iniciativas locais de prevenção à violência. Somente com um esforço coletivo e coordenado poderemos construir um país mais seguro, justo e solidário.

 

Cláudio Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

 

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Perspectivas e desafios para a esquerda global em tempos de transição - Tudo que é sólido se desmancha no ar

A expressão “tudo que é sólido se desmancha no ar”, cunhada por Karl Marx e Friedrich Engels em O Manifesto Comunista e retomada por Marshall Berman, traduz a fluidez das estruturas sociais, econômicas e políticas ao longo da história. Aquilo que parece indestrutível hoje pode ruir ou se transformar rapidamente, sobretudo em períodos de intensa crise e efervescência política. Diante dos atuais governos autoritários e nacionalistas que despontam, a pergunta que emerge é: poderá a esquerda global, em suas múltiplas vertentes, reconstruir-se de forma sólida para oferecer alternativas e mobilizar grandes segmentos sociais?

 

Em diferentes momentos, crises atuaram como catalisadores para a organização e a renovação da esquerda mundial, o caos da Primeira Guerra Mundial, acrescido dos problemas internos da Rússia czarista, precipitaram a Revolução Russa de 1917. E essa inspirou operários e camponeses por todo globo. Já no pós-Segunda Guerra, partidos de inclinações marxistas, social-democratas e trabalhistas alavancaram seu protagonismo, em parte pelo papel que desempenharam contra o fascismo e pelos projetos de bem estar social que impuseram como forma de minar o capitalismo globalmente.

 

O colapso financeiro de 2008, do qual temos reflexos até os dias atuais, bem como o movimento Occupy Wall Street, trouxe novos questionamentos sobre as desigualdades estruturais fundamentais do capitalismo, sendo a mais visível a concentração de riqueza em uma elite minoritária, esse cenário evidenciou as contradições do neoliberalismo e abriu espaço para uma crítica mais ampla ao âmago do sistema. No entanto, esse mesmo sentimento de revolta também alimentou a reação de forças nacionalistas e autoritárias, que canalizaram a frustração popular em projetos antidemocráticos de extrema-direita.

 

Para a esquerda, a tarefa de se reinventar passa por incorporar temas que antes ocupavam um lugar secundário nos programas partidários, no atual contexto de aceleradas mudanças climáticas, o debate sobre sustentabilidade deixou de ser uma preocupação restrita a ambientalistas, tornou-se urgente e transversal, com a necessidade de uma articulação entre justiça social e proteção ambiental, superando a dicotomia entre desenvolvimentismo produtivista e preservação do planeta.

 

O identitarismo, capturado pelas grandes empresas e seus compliances, não é bem quisto pela parcela mais tradicional da esquerda, principalmente por alguns partidos de orientação marxista, as pautas feministas, LGBTQIA+, pessoas com deficiência, etarismo, antirracistas, são fundamentais, porém foram capturadas pelo status quo, que utiliza apenas como uma absorção do sistema dessas pautas que têm em toda sua trajetória histórica a presença de quadros de esquerda e com esses conquistaram relevância mundial que mereciam.

 

A noção de interseccionalidade, que observa a sobreposição de diferentes opressões, transformou o cenário militante, hoje, o que conhecemos como esquerda precisa equilibrar sua ênfase histórica na luta de classes com bases no marxismo-leninismo do início do século XX com a atenção às temáticas identitárias, sabendo que o processo histórico comprovou que apenas a luta de classes não solucionará questões tão complexas e secularmente impregnadas ao ser humano, como racismo, misoginia e xenofobia, por exemplo. Pensadores como Angela Davis e Achille Mbembe reforçam a importância de se combater não apenas a exploração econômica, mas também as heranças raciais que persistem nas sociedades, inclusive as que experimentaram e experimentam o modo de produção comunista.

 

A economia de plataformas online e a automação avançada pulverizaram as categorias profissionais e esvaziaram os sindicatos tradicionais, o capitalismo já não necessita de um exército de reserva, ao menos como conhecíamos desde a revolução industrial, esse fenômeno fraciona, divide e enfraquece profundamente a luta dos trabalhadores. Essa mão de obra precarizada, nascida dos aplicativos sem vínculo formal, não só abraçou a ideia de que são parte da força econômica, mas que desfrutam de parcela do bolo dos ganhos financeiros. Eles sequer percebem que estão do lado de quem os explora, a mais-valia sofrida agora é usada como medalha pelo explorado como motivo de orgulho e regozijo.

 

A esquerda vem perdendo feio essa batalha do novo mundo, o da revolução tecno-científica, na última década, não percebeu a fenomenologia e tática dos grandes capitalistas em capturar os corações e mentes da nova classe trabalhadora, porém a direita entendeu, pior, a extrema-direita percebeu ainda mais, dando um passo adiante, politizando o processo, e assim começou a obter vitórias eleitorais nos parlamentos e executivos por todo mundo, trazendo de volta uma sombra que não víamos desde o início dos anos 1920.

 

Para além dos desafios externos, como o perigo da ascensão da extrema-direita, há entraves significativos no interior das camadas organizadas na esquerda, as diferentes correntes (marxistas, anarquistas, social-democratas, ecossocialistas, trotskistas e outros) nem sempre conseguem cooperar, disputas ideológicas podem paralisar ações comuns e fragmentar o campo político. Os progressistas precisam reagir, é fundamental voltar a se organizar e se reunir em torno dos temas que os unificam, deixando de lado, por hora, temáticas que os dividem.

 

Esses trabalhadores carecem de representação de classe e redes de proteção social. É preciso novas experiências de organização, seja por meio de coletivos informais ou sindicatos digitais, apontando para esses que há caminhos para defender os direitos dos precarizados que eles nem compreendem que lhes foram usurpados. A esquerda, nesse ponto, pode liderar iniciativas de regulação do trabalho digital, como proteção mínima para licenciamento dos aplicativos e seguridade social para quem atua por esses.

 

A globalização, ao mesmo tempo que intensifica a interdependência econômica e cultural, expõe discrepâncias entre regiões e fortalece discursos nacionalistas. A facilidade de comunicação via redes sociais possibilita a criação de movimentos transnacionais, acirram a polarização e a disseminação de desinformação. Em muitos casos, governos autoritários exploram essas dinâmicas digitais para minar a credibilidade de instituições democráticas. Antes a esquerda, bebendo na fonte de Karl Marx, era “mundialista”, hoje são os partidos de orientação fascista e neofascista que o são. Eles estudaram os socialistas, comunistas e anarquistas, aprenderam como se organizar e elevar suas questões ao palco mundial, subvertendo o principal, a emancipação da classe trabalhadora, eles conhecem a esquerda profundamente e somente agora os progressistas começam a compreender seu adversário.  

 

Por outro lado, essas mesmas ferramentas podem e devem ser utilizadas, como rápida articulação de campanhas globais, seja contra a mudança climática ou em defesa de refugiados, a esquerda, portanto, deve conciliar dois polos de atuação: o uso inteligente das redes para conscientizar e mobilizar, e a construção de laços comunitários presenciais (como sindicatos renovados, conselhos populares, cooperativas solidárias e coletivos de bairro), mas fundamentalmente voltar a se afirmar amplamente como de esquerda.

             Alguns bons exemplos recentes mostram como diferentes alas das esquerdas têm se reestruturado e buscado relevância:

Partido Podemos na Espanha

Surgiu a partir das manifestações dos Indignados e levou ao parlamento uma pauta anti-austeridade nos moldes neoliberais e por ações sociais robustas, embora tenha sofrido disputas internas entre correntes mais tradicionais e setores que defendem uma abordagem aberta às pautas identitárias, o partido trouxe renovação ao cenário político espanhol e vem crescendo em relevância no país.

 

 

Bloco de Esquerda em Portugal

Em Portugal, unificou feministas, trotskistas, ecossocialistas e outros segmentos, mantendo um diálogo contínuo e amplo com diversos movimentos sociais. Essa aglutinação, porém, revela desafios na hora de formar coalizões e manter unidade interna diante de pressões institucionais, vem obtendo vitórias regionais e também no parlamento.

 Movimento Syriza na Grécia

Emergiu como oposição às medidas de austeridade draconianas impostas pela União Europeia, mas, ao assumir o poder, recuou em muitas propostas mais disruptivas. O caso grego ilustra o dilema entre a fidelidade a programas de ruptura e a governabilidade em um mundo globalizado, um exemplo evidenciado da realpolitike, que as esquerdas vão ter que aprender, talvez lembrando Lênin, um passo atrás para depois dar dois adiante.

 Estados Unidos: Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez

Autodenominados “socialistas democráticos”, Sanders e AOC ampliaram o debate sobre saúde universal, regulação financeira e tributação de grandes fortunas e levaram de volta ao conjunto da sociedade estadunidense o conceito de socialismo, algo que era proibitivo nos grandes debates nacionais, ainda que enfrentem forte resistência dentro do próprio Partido Democrata, sua popularidade revela que o socialismo já não é um tabu para uma boa parcela da população dos Estados Unidos.

 América Latina

Governos progressistas eleitos na região (no Brasil, Chile, Colômbia, México e Uruguai, entre outros) tentam equilibrar políticas redistributivas de renda e intervenção estatal onde é necessário, atraindo investimentos e lidando com a instabilidade política da região com o crescimento da extrema-direita no continente. O Brasil, que viveu processos intensos de polarização, mostra o quão difícil é unificar as diversas correntes de esquerda para além das eleições, assim vemos a fundamental importância da criação e manutenção de frentes políticas amplas, embora cheias de tensões internas, é necessária a reunião dos democratas de os matizes contra o inimigo fundamental que é o fascismo.

O desafio da esquerda passa por reconciliar a análise de conjuntura global com ações específicas e enraizadas. Algumas estratégias se mostram fundamentais:

  • Convergência programática básica: É inviável unificar totalmente correntes tão diversas, mas encontrar consensos mínimos, ou seja, distribuição de renda, políticas de bem-estar social, combate à devastação ambiental, entre outros, isso é crucial para formar frentes amplas.
  • Transparência e participação interna: Partidos e movimentos devem criar espaços de democracia interna, maior oxigenação nas lideranças dos partidos, recebimento aberto e amplo de novos filiados, além de resoluções partidárias discutidas desde as bases.
  • Diálogo com movimentos identitários: Reconhecer a autonomia de feministas, coletivos negros, grupos LGBTQIA+, povos indígenas e imigrantes, buscando sinergias sem suprimir pautas específicas, além de antecipar novas formas de organização da sociedade e abrir espaços imediatamente para estas nas discussões partidárias.
  • Inovação nos formatos de organização: Investir em redes de solidariedade e em estruturas mais fluidas e flexíveis, como sindicatos voltados para as cooperativas digitais, que possam responder imediatamente às novas dinâmicas do trabalho. Além de levar a cada filiado a tarefa de amplificar presencial e digitalmente as ideias do partido e principalmente levar ao eleitor de esquerda em geral que não dê engajamento e muito menos amplifique as ideias da extrema-direita, pois é disso que eles vivem e a tática que os vem fazendo crescer globalmente.
  • Formação política e educação popular: Ampliar escolas de formação, tanto presenciais quanto online, onde se discuta teoria política, economia crítica e práticas de mobilização mistas. Essa educação permanente é fundamental desde a formulação do socialismo científico, hoje é ainda mais vital para o surgimento de novas lideranças, mas principalmente para a sobrevivência a longo prazo do que conhecemos como esquerda.
  • Integração teórica: Estudar e debater as contribuições de teóricos progressistas do passado e também contemporâneos, para se obter um arcabouço de informações que alimentem a luta política da militância, analisando as complexas formas de poder, possibilidades de emancipação das sociedades, e como governar ao ascender ao poder.

 

Regimes de extrema-direita, apesar de aparentarem força, enfrentam profundas contradições internas e podem desabar de forma inesperada ao se verem isolados política e socialmente, principalmente em cenários de recessão econômica, escândalos de corrupção ou pela simples incompetência de suas gestões. A história mostra que o poder autoritário, em diversos momentos, ruiu com surpreendente rapidez quando perdeu sua base de apoio internacional e quando o povo compreendeu que questões de costumes, xenofobia ou um suposto inimigo interno ou externo não resolviam seus problemas reais.

 

Para a esquerda, o grande desafio é conseguir organizar e canalizar a insatisfação social nesses momentos, apresentando propostas consistentes, capazes de demonstrar viabilidade e compromisso humanista com o todo da sociedade. Ou os progressistas avançam na elaboração de soluções concretas e inclusivas, ou correm o risco de assistir, inertes, ao avanço de projetos mais e mais regressivos. Resta claro que, se nada é eterno, nem mesmo as estruturas autoritárias o são, a chance de mudança está justamente no potencial de organização coletiva para criar novos horizontes de igualdade.

 

A sensação de crescimento e robustecimento dos reacionários pode ser momentânea, dependendo de como se comportam os democratas, assim estará sujeita a dissolver-se, diante de um contraponto de mudanças de conjuntura e da força de movimentos progressistas bem articulados. A esquerda capilarizada, internacionalizada e, principalmente, unificada em suas convergências será uma força irrefreável. Assim, a máxima de que “tudo que é sólido se desmancha no ar” novamente demonstrará a importância vital do estudo das sociedades.

Cláudio Carraly - Advogado, Ex-Secretário Executivo de Direitos Humanos de Pernambuco

Atenciosamente, Deus

Eu te ouvi.   Antes da palavra. Antes da intenção. Antes da forma que você tentou dar ao que sentia. Eu te ouvi no intervalo onde o ...