segunda-feira, 31 de março de 2025

Beleza Universal — ou apenas um aniversário?


“Eu poderia dizer as coisas clássicas de uma carta de feliz aniversário, mas, cá entre nós, já falei essas coisas muitas vezes e ficar sempre na mesma não combina comigo. Então, dessa vez, quero te mostrar como a tua vida é uma das melhores demonstrações de uma das faces mais belas do universo. Afinal, quem poderia prever que, após ver uma amizade ser levada para longe pela vida na tua infância, cada passo da tua vida, cada decisão tomada, cada erro, cada acerto, cada tropeço na rua e milhares de outros detalhes, que parecem ínfimos vistos de perto, guiariam, em uma visão maior, exatamente ao caminho do reencontro com aquela pessoa amiga em outro local, em outra época?

 

Imagina só, cada pequeno acontecimento, desde o momento em que essa pessoa saiu da tua vida, desencadeou uma série de eventos que, como peças de um dominó, se alinharam perfeitamente para levar ao reencontro. Cada escolha que tu fez, cada pessoa que tu conheceu, cada lugar que visitou, tudo contribuiu para esse resultado. É quase como se o universo inteiro conspirasse para que aquele encontro acontecesse, não é fascinante?”

 

Em algum lugar, alguém se identifica com essa história, mas que tal olhar de forma um pouco mais abrangente? Expandindo ainda mais a beleza dessa situação, cada pessoa, cada animal, cada objeto atuam simultaneamente nisso. Basta pensar nas vidas de cada pessoa ao nosso redor e perceber que cada uma das milhões de ações tomadas por cada uma delas garantiu a existência desse momento. Muitas vezes de forma interligada: se a simples ação que muitos tomaram de ler um texto anterior meu e demonstrar algum apoio não tivesse acontecido, eu poderia nunca ter tomado a decisão de escrever um novo, e você não poderia estar lendo ele nesse exato momento.

 

Falando de interconexão, não podemos esquecer de mencionar como nossas vidas se entrelaçam com as de tantas outras pessoas. Pense em quantas vezes você cruzou com alguém na rua sem saber que aquele breve encontro poderia, de alguma forma, influenciar seu futuro. Cada sorriso trocado, ou um olhar de indiferença, cada palavra dita, ou cada palavra que nunca saiu da garganta, cada gesto de gentileza, ou cada ação de ódio, cria uma rede invisível que nos conecta a todos. E essa rede se estende não só a outras pessoas, mas também a eventos naturais, objetos inanimados e até mesmo a fauna e a flora que encontramos pelo caminho.

 

Vamos pensar um pouco mais sobre isso. Lembra daquela vez em que você tinha se atrasado e, sem querer, esbarrou em alguém que também estava com pressa? Naquele instante, talvez tenha parecido apenas um contratempo, mas e se esse pequeno atraso fez com que aquela pessoa encontrasse um velho amigo na esquina? E se, por causa desse encontro, novas oportunidades surgiram para ambos? Se o atraso lhe impediu de atravessar a rua por tempo suficiente para um carro que avançou no sinal não lhe atingir? Rapidamente o “pequeno contratempo” se torna o ponto-chave de um evento que afetou todo o seu futuro, um evento tão discreto que quase sempre passa despercebido, mas a beleza está nos detalhes, nas pequenas coincidências que, vistas de uma perspectiva maior, revelam-se como parte de uma grande teia acontecimentos que se interligam de formas incalculáveis.

 

Essa é a maior beleza do universo: poder olhar para uma pedra, uma estrela, uma vida, alguém próximo e saber que, para que esse único momento fosse possível, uma infinidade de ações aconteceram desde o início dos tempos. Desde o surgimento do universo, do planeta, do prédio que inúmeras pessoas anos atrás construíram onde antes não havia nada, do bolo que alguém estudou anos para fazer e das pessoas que vieram antes dessas, dando cada um dos primeiros passos e alterando as suas vidas, assim como agora alteram as nossas e como nós alteraremos as vidas de pessoas no futuro sem ao menos perceber.

 

Quando celebramos um aniversário, não estamos apenas comemorando mais um ano de vida, mas também todas as experiências e pessoas que contribuíram para moldar quem somos, cada ação, cada escolha, cada pequeno evento que se entrelaça para formar a realidade em que vivemos hoje. Ao pensar no futuro, pense também nas inúmeras formas como você continuará a impactar o mundo ao seu redor, pois, seja inspirando ou magoando alguém, tudo é parte de um ciclo contínuo de influências que molda essa sinfonia continua.

 

Então, olhando para essa interconexão de vidas, quer você chame a causa dela de Deus, de destino ou de uma coincidência probabilística, algo que não se pode negar é que ela é a Beleza vista a nível Universal.

 

Victor Carraly – Estudante Universitário e Cláudio Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

 

 

quinta-feira, 13 de março de 2025

Projeto China 2025: A Batalha pela Hegemonia Tecnológica Mundial


Em um cenário global onde a tecnologia se consolida como o principal vetor de poder geopolítico, a China delineou uma trajetória ambiciosa para liderar as indústrias do futuro. O plano Made in China 2025 – MIC 2025, lançado em 2015 pelo Conselho de Estado chinês, emerge como um projeto estratégico fundamental para transformar o país em uma superpotência de alta tecnologia até o ano de 2025. Um dos pilares centrais deste plano é a drástica redução da dependência de importações em setores tecnológicos críticos, com a meta de alcançar uma autossuficiência de 70% até 2049, conforme aponta um relatório do Center for Strategic and International Studies – CSIS.

 

Esta análise, fundamentada em dados de instituições renomadas como a Organization for Economic Cooperation and Development e em entrevistas com especialistas como Scott Kennedy do CSIS e Paul Triolo do Albright Stonebridge Group, examina o estado atual das tecnologias prioritárias elencadas e definidas pelo MIC 2025, além dos consideráveis obstáculos que se interpõem no caminho da China e as perspectivas em um contexto de crescentes tensões globais.

 

A questão central que persiste é: o MIC 2025 representa um verdadeiro trampolim para a liderança tecnológica global, ou se configura como um plano vulnerável às sanções internacionais e às próprias limitações internas do gigante asiático? A resposta a esta indagação complexa reside na análise aprofundada de seis setores-chave, que não apenas moldarão o futuro tecnológico da China, mas também poderão redefinir a ordem econômica mundial em curso:

1. Eletrônicos Avançados: A Corrida Crítica pelos Semicondutores

Contexto Atual: A dependência chinesa de semicondutores importados é flagrante. Em 2022, as importações atingiram a cifra de 415 bilhões de dólares, superando os gastos com petróleo, de acordo com a Semiconductor Industry Association. Para mitigar essa enorme vulnerabilidade, o governo chinês estabeleceu o "Big Fund" (Grande Fundo), um programa estatal robusto com um orçamento previsto até 2030 do montante de 150 bilhões de dólares. O foco principal é a expansão da capacidade de produção doméstica através da construção de fábricas de semicondutores e o investimento maciço em pesquisa e desenvolvimento.

Progresso do Programa: Empresas chinesas demonstraram grandes avanços técnicos, produzindo chips de 7 nanômetros em 2023 utilizando a técnica de multipatterning. No entanto, essa abordagem eleva os custos de produção em cerca de 50% em comparação com a líder de mercado, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company Limited – TSMC, devido à impossibilidade de adquirir máquinas EUV, que é uma tecnologia usada na indústria de semicondutores para a fabricação de circuitos integrados, devido às restrições impostas pelos EUA e outras sanções ocidentais. A Huawei, em colaboração com a empresa chinesa SMIC, desenvolveu o chip Kirin 9000s, um feito notável diante das restrições internacionais. Contudo, a produção permanece limitada a cerca de 10 milhões de unidades anuais, contrastando com a capacidade da Apple, que produz com apoio da empresa de Taiwan, aproximadamente 200 milhões de chips anualmente.

Perspectivas e Estratégias: As metas ambiciosas incluem dominar 70% da demanda doméstica por chips de 14 nanômetros até 2025, um avanço significativo em relação aos atuais 30%, e investir 2,8 bilhões de dólares em carbeto de silício até, no máximo, 2030, um material crucial para veículos elétricos e outras aplicações de alta potência. A China pensa ativamente em rotas alternativas à tecnologia ocidental, acelerando o desenvolvimento de processos de fabricação próprios e buscando reduzir a dependência da propriedade intelectual ocidental. No entanto, a complexidade da indústria de semicondutores e a profundidade da cadeia de suprimentos, que até as sanções impostas eram globais, tornam a autossuficiência um desafio monumental.

 

2. Robótica e Máquinas de Precisão: Automatizando o Futuro da Manufatura

Andamento do Projeto: A China já se destaca como o maior mercado mundial de robôs industriais, respondendo por 45% das vendas globais em 2023. Entretanto, persiste uma dependência significativa de importações, especialmente em robôs de alta precisão, que representam 60% do consumo interno chinês.

Diminuindo os Custos: Empresas chinesas como a SIASUN têm demonstrado capacidade de inovação em custo-benefício-eficiência, reduzindo o preço de cobots – robôs colaborativos, para 8 mil dólares, tornando-os competitivos em mercados emergentes em comparação com os 20 mil dólares cobrados por rivais ocidentais. A Midea, gigante de eletrodomésticos, implementou o sistema M.IoT (interconexão das coisas, comunicação entre objetos e dispositivos inteligentes) em suas linhas de produção automatizadas, alcançando uma redução de 40% nos defeitos de fabricação, demonstrando o potencial da integração de tecnologias digitais na manufatura.

Perspectivas e Estratégias: O plano MIC 2025 almeja estabelecer 150 "fábricas inteligentes" até 2025, impulsionadas por tecnologias como 5G e edge computing (computação de borda, que realiza ações em tempo real à margem da rede). Para o horizonte de 2030, a China ambiciona desenvolver robôs com capacidades sensoriais avançadas, como o tato, para tarefas complexas como a montagem de microchips, por meio de parcerias, como a colaboração entre a Estun Robotics e a Academia Chinesa de Ciências, a estratégia de expansão para mercados externos é crucial, visando não apenas atender à demanda interna, mas também competir globalmente e reduzir a dependência mundial da tecnologia robótica ocidental, suprindo as possíveis  necessidades tecnológicas dos países pertencentes à “Nova Rota da Seda” e também aos BRICS.

 

3. Crescimento da Indústria Aeroespacial: Conquistando os Céus

Crescimento Condicionado: enquanto o avião comercial COMAC C919 atrai um volume expressivo de pedidos, 1.200 aviões apenas em 2023, a aeronave ainda depende de componentes estrangeiros para cerca de 95% de sua composição, e por conseguinte, limita profundamente um crescimento sustentável das exportações, seja a médio e longo prazo.

Situação Atual: A Corporação de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da China demonstra notável capacidade no setor espacial, realizando 64 lançamentos de foguetes aeroespaciais em 2023, incluindo o módulo Mengtian para a estação espacial Tiangong. Empresas privadas como a Galactic Energy também emergem, oferecendo custos de lançamento 30% inferiores aos da celebrada empresa aeroespacial SpaceX do bilionário Elon Musk, indicando um ecossistema espacial chinês em franca expansão e diversificação e com custos monetários e ambientais absurdamente menores.

Perspectivas e Estratégias: A China projeta a ambiciosa “Constelação Guowang”, com 13 mil satélites, para rivalizar com o monopólio da Starlink no fornecimento de internet via satélite até 2030. No setor de aviação comercial, o desenvolvimento do COMAC C929, aeronave widebody (aviões de fuselagem larga), visa conquistar 10% do mercado global até 2035. Contudo, o setor aeroespacial e de aviação chinês enfrenta os mesmos desafios anteriores, ou seja, dependência de tecnologias estrangeiras para componentes críticos como turbinas de aeronaves e sistemas aviônicos avançados. O desenvolvimento autônomo destas tecnologias representa um obstáculo complexo e de longo prazo, mas que já começa a ser trabalhado com a abertura de novas plantas industriais focadas na solução do problema.

 

4. Veículos Elétricos – VEs: Liderando a Revolução da Mobilidade Sustentável

Crescimento Rápido e Entrada no Mercado Global: A China consolidou uma liderança incontestável no mercado mundial de veículos elétricos. A empresa BYD, por exemplo, vendeu 3,2 milhões de VEs em 2024, segundo a BloombergNEF, superando em muito a Tesla e se tornando a maior vendedora mundial da categoria.

O Futuro Está Próximo: Empresas chinesas como a XPeng avançam no desenvolvimento de tecnologias de ponta, testando carros autônomos (sem necessidade de pilotos)  de nível 4 em Guangzhou. No setor de baterias, a CATL, líder global, lançou a bateria Qilin, com uma densidade energética de 255 Wh/kg, superando em 15% a eficiência das baterias LFP da concorrente Tesla Motors.

Perspectivas Futuras: A China almeja que 40% das vendas domésticas de veículos sejam de VEs até 2025, e já para 2030, o país busca liderar a transição para baterias de estado sólido, consideradas a próxima geração da tecnologia de armazenamento de energia, por meio de parcerias estratégicas como a colaboração com a QuantumScape, que tem como investidores Bill Gates e Volkswagen. A expansão global agressiva é uma prioridade, com o objetivo de dominar mercados emergentes antes que concorrentes consigam reduzir seus custos de produção e competir em qualidade e preço.

 

5. Inteligência Artificial: Rumo à Vanguarda da Inteligência Artificial Global

Contexto: A China tem se destacado no cenário global de pesquisa em Inteligência Artificial – IA, sendo responsável por 28% das publicações científicas na área, de acordo com a Stanford HAI em 2023. No entanto, o país enfrentou restrições na compra de chips de alto desempenho devido à pressão do governo dos Estados Unidos sobre a empresa NVIDIA, especialmente em relação às Graphics Processing Units – GPUs essenciais para o desenvolvimento de modelos avançados de IA.

Em resposta, a China surpreendeu o mundo com a criação do DeepSeek, que demonstrou desempenho superior utilizando chips mais antigos e com menor consumo de energia em comparação aos concorrentes. Essa inovação evidencia a capacidade chinesa de adaptação tecnológica diante de barreiras comerciais e pode representar um avanço estratégico na redução da dependência de semicondutores ocidentais. O sucesso do modelo do DeepSeek pode estimular novas abordagens para otimizar a eficiência dos sistemas de IA, abrindo espaço para criatividade diante da necessidade e olhar de forma diferenciada as dificuldades impostas.

Perspectivas e Estratégias: A China vislumbrava um mercado de 150 bilhões de dólares em receitas com IA até 2030, isso antes do abalo causado pelo DeepSeek, agora a presença no mercado mundial deverá ser infinitamente maior. Os novos focos de abordagem dessas aplicações serão em áreas estratégicas como cidades inteligentes, medicina e ciência de ponta.

 

6. Uma Jornada Tecnológica: Uma Via Complexa e de Longo Prazo

A China avança de forma determinada em sua jornada tecnológica, impulsionada por investimentos massivos e uma visão estratégica de longo prazo. Contudo, o país enfrenta desafios críticos que podem moldar o sucesso ou o fracasso do plano MIC 2025 e sua ambição de hegemonia tecnológica global:

Sabotagem Geopolítica: A "guerra tecnológica" deflagrada pelo Ocidente, especialmente através das sanções americanas, impõe um obstáculo significativo. Pode acarretar à China uma defasagem de 5 a 7 anos em chips de ponta, isso não é trivial e pode impactar o ritmo de inovação em diversos setores dependentes de semicondutores avançados. A resiliência chinesa reside na busca por autossuficiência, mas o caminho é árduo. Estratégias de contorno incluem o desenvolvimento de tecnologias alternativas, o investimento em design de chips e a busca por parcerias com países que discordem das sanções unilaterais impostas. No entanto, a eficácia dessas estratégias em curto e médio prazo ainda é incerta.

Desafios de Inovação Pioneira: Embora a China se destaque em patentes, a constatação de que apenas 5% são consideradas "altamente inovadoras" pela World Intellectual Property Organization – WIPO  levanta questões sobre a natureza da inovação chinesa. Predomina uma inovação incremental, focada em aprimorar tecnologias existentes e em aplicações práticas e de mercado, em detrimento da inovação disruptiva, que cria tecnologias e mercados radicalmente novos. Fatores como o sistema de pesquisa e desenvolvimento chinês, mais focado em execução e escala do que em experimentação radical, podem contribuir para essa limitação. A transição de "imitadora" para liderança em criações de ponta representa um desafio cultural e estrutural complexo para o futuro da liderança da China.

O Peso da Demografia Desfavorável: A demografia chinesa apresenta um cenário desafiador a longo prazo, a projeção do Banco Mundial de uma queda de 10% na população ativa até 2035 terá implicações profundas. A diminuição da força de trabalho pode impactar a capacidade de inovação, a produtividade industrial e o crescimento econômico geral. A aposta na automação e na IA surge como uma resposta estratégica para mitigar os efeitos da demografia desfavorável, mas a efetividade dessas tecnologias em compensar integralmente a perda de força de trabalho e impulsionar a inovação em um contexto demográfico adverso é auspiciosa, mas ainda é uma incógnita.

Tensões Globais e Fragmentação Tecnológica: O avanço tecnológico chinês, especialmente em setores estratégicos, gera tensões geopolíticas crescentes, a reação de países ocidentais, principalmente os ligados à Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN, liderados pelos Estados Unidos, manifesta-se em sanções, restrições comerciais e políticas industriais limitantes, como o CHIPS Act americano e iniciativas similares na Europa.

 

Essa dinâmica acentua o risco de fragmentação tecnológica global, com a formação de blocos tecnológicos distintos e potencialmente isolados. A China busca fortalecer parcerias com países em desenvolvimento e do Sul Global, mas a crescente polarização tecnológica mundial representa um desafio para um crescimento tecnológico homogêneo globalmente, e para a própria ideia fundamental de globalização. Apesar dos obstáculos consideráveis, Pequim demonstra uma determinação inabalável em prosseguir com o MIC 2025 e suas ambições tecnológicas, embora o plano possa não garantir uma vitória imediata e incontestável na batalha pela hegemonia tecnológica, ele inegavelmente está redefinindo as regras do jogo e alterando o panorama tecnológico global. 

 

No entanto, a trajetória da China enfrenta desafios internos e externos significativos. Internamente, o país precisa lidar com gargalos na inovação, como a dependência de tecnologia estrangeira em setores estratégicos, dificuldades na retenção de talentos e uma burocracia que pode retardar avanços. Além disso, o sistema regulatório chinês, ao mesmo tempo em que impulsiona a centralização do desenvolvimento tecnológico, também pode gerar entraves para um ecossistema mais dinâmico e inovador. Externamente, as restrições comerciais impostas pelo Ocidente, especialmente pelos Estados Unidos, colocam barreiras ao acesso a tecnologias críticas. Se Pequim não conseguir desenvolver uma base industrial autossuficiente a tempo, pode ficar refém de soluções paliativas em vez de alcançar uma liderança sustentável.

 

Contudo, uma certeza emerge com clareza, o mundo não pode mais ignorar a China como uma força motriz e uma arquiteta fundamental de uma nova ordem tecnológica global em construção. Independentemente dos desafios, Pequim já conseguiu alterar o equilíbrio de poder no setor e continuará a moldar os rumos da inovação mundial, seja como um concorrente direto do ocidente, seja como um catalisador de novos paradigmas tecnológicos. 

 

Historicamente, a China foi, por milênios, a vanguarda da inovação global. O país criou invenções fundamentais como a bússola, o papel, a impressão e a pólvora, avanços que moldaram civilizações e redefiniram o curso da humanidade. Seu declínio tecnológico nos séculos recentes foi mais uma exceção do que a regra, resultado de fatores históricos e geopolíticos específicos, agora, com a ascensão do MIC 2025 e o investimento agressivo em tecnologia de ponta, a China está simplesmente retomando o papel que desempenhou por grande parte da história humana. O mundo pode se surpreender com a velocidade desse avanço, mas, à luz da trajetória chinesa, a verdadeira surpresa seria se a nação não estivesse reivindicando novamente seu lugar na vanguarda da inovação. A nova ordem tecnológica global não é um acaso, mas a continuação de um legado que sempre colocou a China entre os protagonistas do progresso. 

 

Cláudio Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

quarta-feira, 12 de março de 2025

Revolução Americana e Francesa – As Revoluções Irmãs


O final do século XVIII testemunhou duas revoluções que marcaram a história em lados opostos do Atlântico: a Revolução Americana e a Revolução Francesa. A conexão entre esses eventos evidencia como ambos foram impulsionados pelo desejo de liberdade, ainda que moldados por contextos distintos. A influência francesa na Revolução Americana foi além do apoio militar e financeiro.

Ideias iluministas de filósofos como Rousseau, Montesquieu e Voltaire cruzaram o oceano, fornecendo bases ideológicas para a revolta das colônias inglesas, esses princípios ressoaram na Declaração de Independência e influenciaram profundamente a Constituição dos Estados Unidos, enfatizando direitos individuais e a limitação do poder governamental. O apoio francês não foi apenas estratégico, mas também simbólico, conectando as duas revoluções em uma luta comum por liberdade. 

Contudo, essa aliança tinha contradições, o absolutismo francês apoiava os revolucionários americanos para enfraquecer o Império Britânico, seu rival histórico, sem perceber que semeava ideias que acabariam por desestabilizar sua própria monarquia. O sucesso da Revolução Americana demonstrou que um governo opressor poderia ser derrubado e substituído por uma república, tornando-se inspiração fundamental para os futuros revolucionários franceses. 

A Constituição dos Estados Unidos serviu de referência para a Revolução Francesa, influenciando seu caminho rumo à liberdade e à igualdade. No entanto, enquanto os americanos focaram na substituição de um governo distante pelo autogoverno, os franceses foram além, desafiando toda a estrutura social. Em 4 de agosto de 1789, aboliram os privilégios feudais e declararam que "os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos". Essa radicalização levou a uma espiral de violência, simbolizada pelo período do Terror, no qual Robespierre justificava a repressão como "o despotismo da liberdade contra a tirania".  Apesar das diferenças, as duas revoluções deixaram legados duradouros: 

Revolução Americana:

1. Modelo de governo democrático: Estabeleceu um sistema de divisão de poderes que influenciou diversas nações. 

2. Declaração de Direitos: Definiu padrões globais para a proteção das liberdades individuais. 

3. Influência internacional: Inspirou movimentos de independência ao redor do mundo. 

Revolução Francesa: 

1. Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão: Base da atual Declaração Universal dos Direitos Humanos. 

2. Abolição do Antigo Regime: Pioneira na consolidação de governos republicanos. 

3. Secularização do Estado: Influenciou a separação entre Igreja e governo em diversas sociedades. 

Entretanto, essas conquistas não foram isentas de contradições, nos Estados Unidos, o ideal de liberdade convivia com a escravização de 700 mil pessoas, questão denunciada pelo filósofo francês Condorcet em seu livro “Reflexões sobre a Escravidão” de 1788. Já na França, a Declaração dos Direitos do Homem omitia mulheres e escravizados, o que levou Olympe de Gouges a escrever a “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, fato que lhe custou a vida na guilhotina. 

Outra diferença marcante foi a abordagem em relação à religião. Nos EUA, a Primeira Emenda garantiu liberdade religiosa sem confrontar diretamente as igrejas, enquanto na França a Constituição Civil do Clero de 1790, confiscou propriedades da Igreja e tornou os padres funcionários do Estado. Essa diferença explica por que o anticlericalismo nunca se enraizou nos EUA, onde interesses religiosos ainda influenciam fortemente a política. 

Apesar das limitações, os impactos dessas revoluções foram imensos, a Declaração dos Direitos do Homem inspirou os movimentos abolicionistas no Haiti e na América Latina, enquanto a Constituição americana serviu de modelo para federações como o Brasil e a Índia. Ambas foram capítulos de um mesmo projeto iluminista, contraditório, inacabado, mas transformador. 

Se a Revolução Americana priorizou a liberdade diante de um governo opressor, a Francesa buscou construir todo um novo modelo de sociedade, e juntas, expuseram um dilema central da modernidade: como conciliar liberdade, igualdade e justiça? Como escreveu Aimé Césaire: *"Nenhuma revolução é inocente"*. O maior legado dessas revoluções é a capacidade de questionar hierarquias e confrontar forças opressoras dominantes. 

Ao transcenderem suas fronteiras, essas revoluções continuam a inspirar a busca por democracia e participação popular, o desafio contemporâneo não é canonizá-las, mas aprender com seus acertos e erros, reconhecendo que a luta por uma sociedade mais justa é um processo contínuo, jamais um destino plenamente alcançado. 

Cláudio Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

Atenciosamente, Deus

Eu te ouvi.   Antes da palavra. Antes da intenção. Antes da forma que você tentou dar ao que sentia. Eu te ouvi no intervalo onde o ...