Em um
cenário global onde a tecnologia se consolida como o principal vetor de poder
geopolítico, a China delineou uma trajetória ambiciosa para liderar as
indústrias do futuro. O plano Made in China 2025 – MIC 2025, lançado em
2015 pelo Conselho de Estado chinês, emerge como um projeto estratégico
fundamental para transformar o país em uma superpotência de alta tecnologia até
o ano de 2025. Um dos pilares centrais deste plano é a drástica redução da dependência
de importações em setores tecnológicos críticos, com a meta de alcançar uma
autossuficiência de 70% até 2049, conforme aponta um relatório do Center for
Strategic and International Studies – CSIS.
Esta
análise, fundamentada em dados de instituições renomadas como a Organization
for Economic Cooperation and Development e em entrevistas com especialistas
como Scott Kennedy do CSIS e Paul Triolo do Albright Stonebridge Group,
examina o estado atual das tecnologias prioritárias elencadas e definidas pelo
MIC 2025, além dos consideráveis obstáculos que se interpõem no caminho da
China e as perspectivas em um contexto de crescentes tensões globais.
A questão
central que persiste é: o MIC 2025 representa um verdadeiro trampolim para a
liderança tecnológica global, ou se configura como um plano vulnerável às
sanções internacionais e às próprias limitações internas do gigante asiático? A
resposta a esta indagação complexa reside na análise aprofundada de seis
setores-chave, que não apenas moldarão o futuro tecnológico da China, mas
também poderão redefinir a ordem econômica mundial em curso:
1.
Eletrônicos Avançados: A Corrida Crítica pelos Semicondutores
Contexto
Atual: A dependência chinesa de semicondutores importados é flagrante. Em 2022,
as importações atingiram a cifra de 415 bilhões de dólares, superando os gastos
com petróleo, de acordo com a Semiconductor Industry Association. Para
mitigar essa enorme vulnerabilidade, o governo chinês estabeleceu o "Big
Fund" (Grande Fundo), um programa estatal robusto com um orçamento
previsto até 2030 do montante de 150 bilhões de dólares. O foco principal é a
expansão da capacidade de produção doméstica através da construção de fábricas
de semicondutores e o investimento maciço em pesquisa e desenvolvimento.
Progresso
do Programa: Empresas chinesas demonstraram grandes avanços técnicos,
produzindo chips de 7 nanômetros em 2023 utilizando a técnica de multipatterning.
No entanto, essa abordagem eleva os custos de produção em cerca de 50% em
comparação com a líder de mercado, a Taiwan Semiconductor Manufacturing
Company Limited – TSMC, devido à impossibilidade de adquirir máquinas EUV,
que é uma tecnologia usada na indústria
de semicondutores para a fabricação de circuitos integrados, devido às restrições
impostas pelos EUA e outras sanções ocidentais. A Huawei, em colaboração com a
empresa chinesa SMIC, desenvolveu o chip Kirin 9000s, um feito notável diante
das restrições internacionais. Contudo, a produção permanece limitada a cerca
de 10 milhões de unidades anuais, contrastando com a capacidade da Apple, que
produz com apoio da empresa de Taiwan, aproximadamente 200 milhões de chips
anualmente.
Perspectivas
e Estratégias: As metas ambiciosas incluem dominar 70% da demanda doméstica por
chips de 14 nanômetros até 2025, um avanço significativo em relação aos atuais
30%, e investir 2,8 bilhões de dólares em carbeto de silício até, no máximo,
2030, um material crucial para veículos elétricos e outras aplicações de alta
potência. A China pensa ativamente em rotas alternativas à tecnologia
ocidental, acelerando o desenvolvimento de processos de fabricação próprios e
buscando reduzir a dependência da propriedade intelectual ocidental. No
entanto, a complexidade da indústria de semicondutores e a profundidade da
cadeia de suprimentos, que até as sanções impostas eram globais, tornam a
autossuficiência um desafio monumental.
2.
Robótica e Máquinas de Precisão: Automatizando o Futuro da Manufatura
Andamento
do Projeto: A China já se destaca como o maior mercado mundial de robôs
industriais, respondendo por 45% das vendas globais em 2023. Entretanto,
persiste uma dependência significativa de importações, especialmente em robôs
de alta precisão, que representam 60% do consumo interno chinês.
Diminuindo
os Custos: Empresas chinesas como a SIASUN têm demonstrado capacidade de
inovação em custo-benefício-eficiência, reduzindo o preço de cobots –
robôs colaborativos, para 8 mil dólares, tornando-os competitivos em mercados
emergentes em comparação com os 20 mil dólares cobrados por rivais ocidentais.
A Midea, gigante de eletrodomésticos, implementou o sistema M.IoT
(interconexão das coisas, comunicação entre objetos e dispositivos
inteligentes) em suas linhas de produção automatizadas, alcançando uma redução
de 40% nos defeitos de fabricação, demonstrando o potencial da integração de
tecnologias digitais na manufatura.
Perspectivas
e Estratégias: O plano MIC 2025 almeja estabelecer 150 "fábricas
inteligentes" até 2025, impulsionadas por tecnologias como 5G e edge
computing (computação de borda, que realiza ações em tempo real à margem da
rede). Para o horizonte de 2030, a China ambiciona desenvolver robôs com
capacidades sensoriais avançadas, como o tato, para tarefas complexas como a
montagem de microchips, por meio de parcerias, como a colaboração entre a Estun
Robotics e a Academia Chinesa de Ciências, a estratégia de expansão para
mercados externos é crucial, visando não apenas atender à demanda interna, mas
também competir globalmente e reduzir a dependência mundial da tecnologia
robótica ocidental, suprindo as possíveis necessidades tecnológicas dos países pertencentes à “Nova Rota da Seda”
e também aos BRICS.
3.
Crescimento da Indústria Aeroespacial: Conquistando os Céus
Crescimento
Condicionado: enquanto o avião comercial COMAC C919 atrai um volume expressivo
de pedidos, 1.200 aviões apenas em 2023, a aeronave ainda depende de
componentes estrangeiros para cerca de 95% de sua composição, e por
conseguinte, limita profundamente um crescimento sustentável das exportações,
seja a médio e longo prazo.
Situação
Atual: A Corporação de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da China demonstra
notável capacidade no setor espacial, realizando 64 lançamentos de foguetes
aeroespaciais em 2023, incluindo o módulo Mengtian para a estação espacial
Tiangong. Empresas privadas como a Galactic Energy também emergem,
oferecendo custos de lançamento 30% inferiores aos da celebrada empresa
aeroespacial SpaceX do bilionário Elon Musk, indicando um ecossistema espacial
chinês em franca expansão e diversificação e com custos monetários e ambientais
absurdamente menores.
Perspectivas
e Estratégias: A China projeta a ambiciosa “Constelação Guowang”, com 13 mil
satélites, para rivalizar com o monopólio da Starlink no fornecimento de
internet via satélite até 2030. No setor de aviação comercial, o
desenvolvimento do COMAC C929, aeronave widebody (aviões de fuselagem
larga), visa conquistar 10% do mercado global até 2035. Contudo, o setor
aeroespacial e de aviação chinês enfrenta os mesmos desafios anteriores, ou
seja, dependência de tecnologias estrangeiras para componentes críticos como
turbinas de aeronaves e sistemas aviônicos avançados. O desenvolvimento
autônomo destas tecnologias representa um obstáculo complexo e de longo prazo,
mas que já começa a ser trabalhado com a abertura de novas plantas industriais
focadas na solução do problema.
4.
Veículos Elétricos – VEs: Liderando a Revolução da Mobilidade Sustentável
Crescimento
Rápido e Entrada no Mercado Global: A China consolidou uma liderança
incontestável no mercado mundial de veículos elétricos. A empresa BYD, por
exemplo, vendeu 3,2 milhões de VEs em 2024, segundo a BloombergNEF, superando
em muito a Tesla e se tornando a maior vendedora mundial da categoria.
O Futuro
Está Próximo: Empresas chinesas como a XPeng avançam no desenvolvimento de
tecnologias de ponta, testando carros autônomos (sem necessidade de pilotos) de nível 4 em Guangzhou. No setor de baterias, a
CATL, líder global, lançou a bateria Qilin, com uma densidade energética de 255
Wh/kg, superando em 15% a eficiência das baterias LFP da concorrente Tesla
Motors.
Perspectivas
Futuras: A China almeja que 40% das vendas domésticas de veículos sejam de VEs
até 2025, e já para 2030, o país busca liderar a transição para baterias de
estado sólido, consideradas a próxima geração da tecnologia de armazenamento de
energia, por meio de parcerias estratégicas como a colaboração com a
QuantumScape, que tem como investidores Bill Gates e Volkswagen. A expansão
global agressiva é uma prioridade, com o objetivo de dominar mercados
emergentes antes que concorrentes consigam reduzir seus custos de produção e
competir em qualidade e preço.
5.
Inteligência Artificial: Rumo à Vanguarda da Inteligência Artificial Global
Contexto:
A China tem se destacado no cenário global de pesquisa em Inteligência
Artificial – IA, sendo responsável por 28% das publicações científicas na área,
de acordo com a Stanford HAI em 2023. No entanto, o país enfrentou restrições
na compra de chips de alto desempenho devido à pressão do governo dos Estados
Unidos sobre a empresa NVIDIA, especialmente em relação às Graphics
Processing Units – GPUs essenciais para o desenvolvimento de modelos
avançados de IA.
Em
resposta, a China surpreendeu o mundo com a criação do DeepSeek, que demonstrou
desempenho superior utilizando chips mais antigos e com menor consumo de
energia em comparação aos concorrentes. Essa inovação evidencia a capacidade
chinesa de adaptação tecnológica diante de barreiras comerciais e pode
representar um avanço estratégico na redução da dependência de semicondutores
ocidentais. O sucesso do modelo do DeepSeek pode estimular novas abordagens
para otimizar a eficiência dos sistemas de IA, abrindo espaço para criatividade
diante da necessidade e olhar de forma diferenciada as dificuldades impostas.
Perspectivas
e Estratégias: A China vislumbrava um mercado de 150 bilhões de dólares em
receitas com IA até 2030, isso antes do abalo causado pelo DeepSeek, agora a
presença no mercado mundial deverá ser infinitamente maior. Os novos focos de
abordagem dessas aplicações serão em áreas estratégicas como cidades
inteligentes, medicina e ciência de ponta.
6. Uma
Jornada Tecnológica: Uma Via Complexa e de Longo Prazo
A China
avança de forma determinada em sua jornada tecnológica, impulsionada por
investimentos massivos e uma visão estratégica de longo prazo. Contudo, o país
enfrenta desafios críticos que podem moldar o sucesso ou o fracasso do plano
MIC 2025 e sua ambição de hegemonia tecnológica global:
Sabotagem
Geopolítica: A "guerra tecnológica" deflagrada pelo Ocidente,
especialmente através das sanções americanas, impõe um obstáculo significativo.
Pode acarretar à China uma defasagem de 5 a 7 anos em chips de ponta, isso não
é trivial e pode impactar o ritmo de inovação em diversos setores dependentes
de semicondutores avançados. A resiliência chinesa reside na busca por
autossuficiência, mas o caminho é árduo. Estratégias de contorno incluem o
desenvolvimento de tecnologias alternativas, o investimento em design de chips
e a busca por parcerias com países que discordem das sanções unilaterais
impostas. No entanto, a eficácia dessas estratégias em curto e médio prazo
ainda é incerta.
Desafios
de Inovação Pioneira: Embora a China se destaque em patentes, a constatação de
que apenas 5% são consideradas "altamente inovadoras" pela World
Intellectual Property Organization – WIPO levanta questões sobre a natureza da inovação
chinesa. Predomina uma inovação incremental, focada em aprimorar tecnologias
existentes e em aplicações práticas e de mercado, em detrimento da inovação
disruptiva, que cria tecnologias e mercados radicalmente novos. Fatores como o
sistema de pesquisa e desenvolvimento chinês, mais focado em execução e escala
do que em experimentação radical, podem contribuir para essa limitação. A
transição de "imitadora" para liderança em criações de ponta
representa um desafio cultural e estrutural complexo para o futuro da liderança
da China.
O Peso da
Demografia Desfavorável: A demografia chinesa apresenta um cenário desafiador a
longo prazo, a projeção do Banco Mundial de uma queda de 10% na população ativa
até 2035 terá implicações profundas. A diminuição da força de trabalho pode
impactar a capacidade de inovação, a produtividade industrial e o crescimento
econômico geral. A aposta na automação e na IA surge como uma resposta
estratégica para mitigar os efeitos da demografia desfavorável, mas a
efetividade dessas tecnologias em compensar integralmente a perda de força de
trabalho e impulsionar a inovação em um contexto demográfico adverso é
auspiciosa, mas ainda é uma incógnita.
Tensões
Globais e Fragmentação Tecnológica: O avanço tecnológico chinês, especialmente
em setores estratégicos, gera tensões geopolíticas crescentes, a reação de
países ocidentais, principalmente os ligados à Organização do Tratado do
Atlântico Norte – OTAN, liderados pelos Estados Unidos, manifesta-se em
sanções, restrições comerciais e políticas industriais limitantes, como o CHIPS
Act americano e iniciativas similares na Europa.
Essa
dinâmica acentua o risco de fragmentação tecnológica global, com a formação de
blocos tecnológicos distintos e potencialmente isolados. A China busca
fortalecer parcerias com países em desenvolvimento e do Sul Global, mas a
crescente polarização tecnológica mundial representa um desafio para um
crescimento tecnológico homogêneo globalmente, e para a própria ideia
fundamental de globalização. Apesar dos obstáculos consideráveis, Pequim
demonstra uma determinação inabalável em prosseguir com o MIC 2025 e suas
ambições tecnológicas, embora o plano possa não garantir uma vitória imediata e
incontestável na batalha pela hegemonia tecnológica, ele inegavelmente está
redefinindo as regras do jogo e alterando o panorama tecnológico global.
No
entanto, a trajetória da China enfrenta desafios internos e externos
significativos. Internamente, o país precisa lidar com gargalos na inovação,
como a dependência de tecnologia estrangeira em setores estratégicos,
dificuldades na retenção de talentos e uma burocracia que pode retardar
avanços. Além disso, o sistema regulatório chinês, ao mesmo tempo em que
impulsiona a centralização do desenvolvimento tecnológico, também pode gerar
entraves para um ecossistema mais dinâmico e inovador. Externamente, as
restrições comerciais impostas pelo Ocidente, especialmente pelos Estados
Unidos, colocam barreiras ao acesso a tecnologias críticas. Se Pequim não
conseguir desenvolver uma base industrial autossuficiente a tempo, pode ficar
refém de soluções paliativas em vez de alcançar uma liderança sustentável.
Contudo,
uma certeza emerge com clareza, o mundo não pode mais ignorar a China como uma
força motriz e uma arquiteta fundamental de uma nova ordem tecnológica global
em construção. Independentemente dos desafios, Pequim já conseguiu alterar o
equilíbrio de poder no setor e continuará a moldar os rumos da inovação
mundial, seja como um concorrente direto do ocidente, seja como um catalisador
de novos paradigmas tecnológicos.
Historicamente,
a China foi, por milênios, a vanguarda da inovação global. O país criou
invenções fundamentais como a bússola, o papel, a impressão e a pólvora,
avanços que moldaram civilizações e redefiniram o curso da humanidade. Seu
declínio tecnológico nos séculos recentes foi mais uma exceção do que a regra,
resultado de fatores históricos e geopolíticos específicos, agora, com a
ascensão do MIC 2025 e o investimento agressivo em tecnologia de ponta, a China
está simplesmente retomando o papel que desempenhou por grande parte da
história humana. O mundo pode se surpreender com a velocidade desse avanço,
mas, à luz da trajetória chinesa, a verdadeira surpresa seria se a nação não
estivesse reivindicando novamente seu lugar na vanguarda da inovação. A nova
ordem tecnológica global não é um acaso, mas a continuação de um legado que
sempre colocou a China entre os protagonistas do progresso.
Cláudio
Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.