sexta-feira, 27 de junho de 2025

A Fortuna dos 1% Mais Ricos Poderia Erradicar a Pobreza do Mundo 22 Vezes

A Oxfam Internacional, entidade que agrega mais de vinte organizações que têm por objetivo combater a pobreza, a injustiça e a desigualdade, lançou um relatório inédito chamado "Do Lucro Privado ao Poder Público: Financiando o Desenvolvimento, Não a Oligarquia", no qual revela dados que redefinem nossa compreensão sobre desigualdade global, a fortuna do 1% mais rico do planeta seria suficiente para eliminar a pobreza mundial por 22 anos consecutivos.

O documento foi estrategicamente lançado antes da Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento em Sevilha. Ele apresenta evidências de que a riqueza da elite global expandiu em impressionantes 33,9 trilhões de dólares na última década. Esse valor é equivalente a 185 trilhões de reais, superando o PIB de economias inteiras.

A pesquisa da Oxfam, baseada no cruzamento de dados do Credit Suisse, Forbes e Banco Mundial, demonstra uma realidade paradoxal, enquanto apenas 3 mil bilionários viram suas fortunas crescerem 6,5 trilhões de dólares, esse montante sozinho excede os 4 trilhões de dólares anuais necessários para alcançar todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU até 2030.

Em contraste gritante, 3,7 bilhões de pessoas, ou seja, quase metade da humanidade, sobrevivem com menos de 8,30 dólares por dia, segundo critérios do Banco Mundial. Essa disparidade não é apenas estatística: representa 3,7 bilhões de histórias individuais de privação e miséria, enquanto uma elite microscópica concentra absurdos 43% de toda riqueza global. O relatório identifica uma mudança paradigmática problemática na abordagem global ao desenvolvimento. Desde a década de 1990, governos progressivamente transferiram responsabilidades públicas para o setor privado, criando a chamada "financeirização do desenvolvimento".

 

Os números do futuro próximo são desesperadores:

- Países do G7 planejam reduzir 28% da ajuda humanitária até 2026.

- 60% das nações de baixa renda estão à beira do colapso financeiro.

- Governos gastam mais com credores privados do que com saúde e educação combinadas.

- Apenas 16% das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS, estão no caminho correto para 2030.

O desenvolvimento global está falhando porque os interesses de uma minoria de super-ricos são sistematicamente priorizados, os países desenvolvidos entregaram o comando do desenvolvimento global a Wall Street, caracterizando uma captura institucional pelo setor financeiro.

O Brasil é como um microcosmo perfeito dos problemas globais identificados. O país ilustra como sistemas tributários regressivos perpetuam desigualdades históricas, impactando desproporcionalmente mulheres negras, indígenas e periféricas, grupos que enfrentam simultaneamente crises climáticas, insegurança alimentar e desmonte de serviços públicos. Mas a pesquisa aponta que 9 em cada 10 brasileiros apoiam tributação progressiva dos super-ricos para financiar saúde, educação e enfrentamento às mudanças climáticas, sinalizando demanda social por mudanças estruturais.

A Oxfam propõe formação de alianças internacionais específicas contra a concentração de riqueza. Brasil, África do Sul e Espanha emergem como líderes potenciais de uma "Aliança Global Contra a Desigualdade", modelo que poderia inspirar outros países a desafiar o status quo. Propõe ainda o abandono definitivo da crença de que financiamento privado resolve problemas de desenvolvimento. A proposta centra-se em:

- Desenvolvimento liderado pelo Estado, com serviços universais de qualidade.

- Exploração de bens públicos, em setores estratégicos como energia e transporte.

- Rejeição do consenso neoliberal, que privatiza lucros e socializa prejuízos.

- Tributação progressiva de patrimônios extremos.

- Revitalização da ajuda humanitária, com meta mínima de 0,7% do PIB.

- Reforma da arquitetura da dívida internacional.

- Superação do PIB como único indicador de desenvolvimento.

- Apoio à convenção tributária da ONU e esforços para substituição do G7 pelo G20.

 

A Conferência de Sevilha representa uma oportunidade única para governos escolherem entre perpetuar o sistema atual ou abraçar mudanças estruturais. Com a presidência brasileira do G20 priorizando a tributação de grandes fortunas e o combate à desigualdade, existe um momentum político inédito para transformações concretas, não se tratando apenas de redistribuição de riqueza, mas de redefinição do próprio conceito de desenvolvimento, de modelo que enriquece poucos para um sistema que garante dignidade a todos.

Os dados da Oxfam não apenas quantificam desigualdade, mas também revelam que soluções são matematicamente viáveis e politicamente alcançáveis. A fortuna que poderia erradicar a pobreza inúmeras vezes já existe hoje, concentrada em menos de 1% da população. A questão não é capacidade técnica ou recursos disponíveis. É vontade política global para confrontar interesses estabelecidos e priorizar bem-estar coletivo sobre acumulação privada ilimitada.

 A Conferência pode marcar o início dessa transformação ou confirmar que a humanidade escolheu aceitar desigualdade extrema como inevitável. Se ao final desta optaremos pelo conjunto da população planetária, ou seguiremos a passos largos o caminho da barbárie.

 

Cláudio Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

 

 

 

sexta-feira, 13 de junho de 2025

POR QUE O CAPITALISMO VIVE DE BOLHAS?


Você já ouviu falar da febre das tulipas? Em pleno século XVII, na Holanda, o preço de certos bulbos de tulipa chegou a valer mais do que uma casa, sim, uma futura flor valia mais do que um imóvel. Isso durou pouco, um dia, os compradores sumiram, os preços despencaram e muita gente perdeu tudo.

Esse episódio, conhecido como a primeira bolha especulativa documentada, ajuda a entender uma lógica que se repetiria inúmeras vezes ao longo dos séculos. Da tulipomania às criptomoedas, passando por bolhas como a da internet nos anos 2000 ou a do mercado imobiliário em 2008, o que se vê é um padrão: a economia entra em euforia, os preços disparam, o medo desaparece, até que tudo desaba. Mas por que isso acontece com tanta frequência? Seria só ganância? Falta de regulação? Ou será que, no fundo, o capitalismo precisa dessas bolhas para continuar existindo? Vamos entender melhor:

1. Tulipas, luxo e ruína (1630–1637)

Na Holanda do século XVII, tulipas exóticas, especialmente as com padrões raros e cores incomuns, eram tão valorizadas que passaram a ser negociadas como ações. As pessoas não compravam para plantar, mas para revender a um preço maior, um mercado de contratos foi criado, permitindo a compra e venda futura de bulbos que ainda nem existiam.

Os preços subiam porque todo mundo acreditava que alguém pagaria mais depois. Mas, quando o primeiro grupo decidiu não comprar, o sistema colapsou. Confiança virou pânico e o pânico virou uma quebradeira econômica generalizada. Esse episódio deixou claro um mecanismo que se repetiria, valores subindo sem conexão com a utilidade real ou valor intrínseco, ou seja, sem um motivo lastreado no mundo real para estar se elevando, hoje chamamos isso de bolhas.

 

2. A bolha do Mar do Sul (1720)

Na Inglaterra, a South Sea Company foi criada com o privilégio de explorar o comércio com a América do Sul, o que atraiu os investidores não foram os lucros reais, mas as expectativas vendidas pela elite política e econômica da época, que incluía parlamentares e o próprio rei. A promessa da empresa era de que a nova fronteira do comércio global estava em terras sul-americanas.

Assim, as ações da empresa dispararam, alimentadas por uma crescente propaganda, sem lastro em fatos, apenas em especulação e corrupção. Quando os lucros não apareceram, o mercado entrou em pânico, a elite inglesa perdeu fortunas, o Parlamento interveio e a confiança no sistema financeiro foi abalada. Mais uma vez, promessas infladas, fundamentos frágeis e um colapso previsível.

 

3. A bolha da internet ou empresas .com (1995–2000)

Nos anos 1990, empresas de tecnologia começaram a atrair investidores com ideias revolucionárias. Sites sem lucro, sem produto e às vezes sem funcionários receberam bilhões. A lógica era: “invista agora e venda depois com muito lucro”.

A imprensa e os mercados celebravam cada nova startup como a próxima revolução digital. Muitos investidores nem sabiam o que as empresas faziam, quando a realidade bateu à porta, centenas de empresas quebraram, milhões de pessoas perderam dinheiro, e o índice Nasdaq despencou. A bolha da “nova economia” estourou, mostrando o risco de confiar mais na expectativa do que no valor real do produto ou serviço.

 

4. A bolha imobiliária dos EUA – Crise do Subprime (2001–2008)

Nos anos 2000, o crédito imobiliário foi facilitado ao extremo. Nos Estados Unidos, qualquer pessoa conseguia comprar uma casa com prestações aparentemente acessíveis, bancos repassavam esses empréstimos para fundos, que criaram papéis financeiros (os famosos subprimes), vendidos no mundo inteiro.

Logicamente, havia um problema, muitos dos compradores não tinham condições reais de pagar os empréstimos tomados. Mas isso era ignorado, enquanto os preços subiam, o sistema parecia lucrativo e se retroalimentava. Quando os calotes começaram, o castelo de cartas ruiu como um verdadeiro esquema de pirâmide. O pânico se espalhou e grandes bancos quebraram.

O impacto não atingiu apenas os EUA, foi global, já que os papéis eram negociados em todo o mundo e as empresas e bancos atingidos operavam em muitos países, o que veio a seguir, foi, muito desemprego, despejos e recessão. A solução do mercado? Correr atrás do governo para resgates bilionários dos bancos. O lucro era todo deles, mas a dívida ficou para a população pagar.

 

5. Criptomoedas, NFTs e os ativos digitais (2017–2022)

Mais recentemente, vimos um frenesi em torno de bitcoins, altcoins e NFTs. Milhões acreditaram que essas tecnologias substituiriam o dinheiro tradicional e revolucionariam a economia. De fato, há inovações reais, mas também houve exagero, marketing agressivo e muita especulação.

Pessoas compravam imagens digitais de “macacos estilosos”, sim, pagavam fortunas por uma imagem intangível qualquer que se supunha valer algo, ou criptomoedas criadas em garagens, esperando lucros rápidos. Quando a confiança caiu, os preços despencaram. Empresas quebraram, carteiras digitais sumiram e os bilhões evaporaram, também em uma velocidade digital. Essa era a mais nova bolha, mas agora em tempo real, promovida por um novo operador do capital, os influenciadores.

 

6. O papel da regulação e o capitalismo financeiro

Uma das grandes questões negligenciadas em muitas discussões sobre bolhas é a falta de regulamentação eficaz, se o mercado é deixado sem controles rígidos, especuladores podem manipular valores e inflar ativos sem nenhum lastro real. Porém, o capitalismo precisa disso, aliás, se alimenta desse mecanismo, assim o sistema financeiro permite e até incentiva esse comportamento. Os governos muitas vezes falham na regulação porque enfrentam dois grandes obstáculos:

1. Pressão de grandes investidores e corporações, que lucram com as bolhas e influenciam as decisões políticas.

2. O medo de desacelerar a economia, já que impor limites pode frear investimentos e retirar liquidez do mercado, refreando picos econômicos, mesmo que esses sejam evidentes farsas.

 

·        Alternativas poderiam incluir:

- Tributação sobre transações especulativas, para reduzir incentivos ao investimento de curto prazo sem fundamento sólido.

- Maior transparência e fiscalização, exigindo que empresas e mercados publiquem informações realistas sobre riscos e projeções.

- Educação financeira, para evitar que investidores leigos caiam em esquemas altamente voláteis sem compreender os perigos.

 

Então voltamos à questão principal, o capitalismo precisa das bolhas? Tranquilamente podemos afirmar que sim, e que não só surfa nessas ondas como ajuda a produzi-las e mantê-las o maior tempo possível vivas. O capitalismo financeiro, precisa constantemente reinventar mercados e “produtos” onde o capital possa se multiplicar rapidamente. Esses ativos muitas vezes crescem em valor não por serem úteis, mas porque existe a expectativa de que alguém pague mais depois.

A economia produtiva é complexa e por vezes desacelera, fato normal no comércio mundial. Porém, para o capital financeiro, não são aceitáveis esses momentos de refração, então ele migra para ativos intangíveis ou promessas futuras de lucro, e joga em bilhões de pessoas mundo afora a ilusão de riqueza fácil e lucro imediato, assim como em um cassino, e como em todo jogo de azar, no final, só quem ganha é a banca.

As bolhas são, assim, válvulas de escape que mantêm o sistema aquecido, elas movimentam trilhões de dólares, criam ilusões temporárias de crescimento e permitem que os grandes acumuladores lucrem enquanto o otimismo ou miopia durem, antes de transferirem o prejuízo para o conjunto da sociedade, levando milhares à bancarrota.

A cada novo “produto milagroso” vendido como revolução, seja uma flor, um token, uma nova hipoteca da casa ou uma startup, surge uma nova onda de euforia. Isso é incentivado por plataformas digitais, influenciadores financeiros, mídia tradicional cada dia mais financista, além de uma cultura que transforma a especulação em virtude. Enquanto o lucro rápido for o motor da economia, e a valorização artificial for mais premiada que o trabalho produtivo, as bolhas continuarão surgindo, mais bilionários enriquecerão e maior será o abismo social do planeta. No fim, o problema não são só as bolhas — é um sistema que só existe para soprá-las.

 

Cláudio Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

 

 

quarta-feira, 4 de junho de 2025

NÃO APRENDEMOS NADA COM A HISTÓRIA?


 O mundo de hoje caminha perigosamente por trilhas já percorridas na primeira metade do século XX. Ainda que a história não se repita de forma idêntica, ela rima, e os versos atuais carregam uma métrica sinistra. A ascensão de lideranças autoritárias, o colapso do centro político, o descrédito nas instituições democráticas, a desigualdade estrutural, a crise de refugiados e a falência do multilateralismo internacional configuram um cenário que, para quem conhece a história do entreguerras, soa tragicamente familiar.

O ressentimento social volta a ser capitalizado por discursos de ódio, por soluções fáceis para problemas complexos, por um nacionalismo excludente que aponta inimigos internos e externos a serem eliminados. A democracia liberal, cansada e desacreditada, assiste à sua própria erosão sem força para reagir, enquanto o mundo desliza, sorrateiro, rumo a um novo precipício histórico.

Nas décadas de 1920 e 1930, o mundo viu emergir líderes como Benito Mussolini, Adolf Hitler, Antonio de Oliveira Salazar, Francisco Franco e outros que se aproveitaram do medo coletivo, das crises econômicas profundas e de um ressentimento nacionalista exacerbado. Hoje, assistimos a fenômenos muito similares com Viktor Orbán na Hungria, Recep Tayyip Erdoğan na Turquia, Narendra Modi na Índia, Javier Milei na Argentina, Benjamin Netanyahu em Israel, Donald Trump nos EUA e Jair Bolsonaro no Brasil, entre outros.

Mesmo em contextos distintos, reproduzem uma cartilha conhecida: minam o judiciário, deslegitimam a imprensa, estimulam o ódio a minorias, exaltam soluções autoritárias e simplistas, alimentam uma nostalgia idealizada de um passado que nunca existiu. Esse padrão evidencia que o autoritarismo não é um acidente histórico, mas um risco recorrente quando instituições democráticas são enfraquecidas e o medo coletivo se torna combustível para líderes messiânicos e projetos regressivos de poder.

Essa nova onda autoritária, disfarçada de "vontade popular", não é episódica, é um fenômeno sistêmico nascido das inúmeras crises vivenciadas pelo capitalismo. As democracias liberais estão corroídas por dentro, o descrédito nas instituições, a captura das políticas públicas por interesses corporativos e a sensação difusa de que "a política não serve mais" criam um vácuo ocupado pelos populismos e a antipolítica se tornou capital político e a negação dela um instrumento da extrema-direita.

O centro político, que outrora funcionava como moderador entre extremos, esvaziou-se, a República de Weimar, precursora da ascensão do nazismo, também padeceu da ausência de forças moderadas capazes de sustentar um pacto democrático. A fragmentação atual da esquerda, ainda com vários dos sintomas do fim da União Soviética, além do esgarçamento da social-democracia global, contribui indiretamente para tudo isso, assim como o crescimento da extrema-direita mundial, agora mais articulada, porém sob os mesmos signos do passado, nacionalismo, armamentismo, negação do diverso e fortemente alicerçado nas teologias.

As redes sociais aceleram esse processo, se Goebbels compreendia o poder de uma mentira repetida mil vezes, hoje os algoritmos potencializam isso em escala exponencial. Fake news, deepfakes, discursos de ódio e teorias da conspiração circulam com uma velocidade incomensurável, criando realidades paralelas, a verdade tornou-se relativa. A confiança no conhecimento científico, na imprensa livre, nas universidades e nas instituições caiu drasticamente, o chão da razão foi minado e o fato real não importa mais, apenas as narrativas desses fatos.

Em paralelo, a desigualdade atinge níveis obscenos, o relatório da Oxfam de 2024 apontava que as cinco pessoas mais ricas do mundo dobraram suas fortunas desde a pandemia, enquanto bilhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar e falta de acesso à saúde básica. A crise de 1929, que devastou as economias capitalistas e criou uma legião de desempregados, é um espelho sombrio desse presente, a humilhação econômica, ontem como hoje, é fértil para o ódio, para o nacionalismo tóxico, para as crenças messiânicas e para a ascensão do extremismo nos moldes do século passado

A fragmentação social, o hiperindividualismo promovido pelo neoliberalismo e o culto ao empreendedorismo como a nova solução mágica para a miséria desestruturaram o tecido coletivo e criam uma cunha na base da sociedade que não se unifica e ainda com parcela dos deserdados defendendo quem os mantém na vida miserável que levam. O Estado e a democracia foram demonizados e a lógica do “cada um por si” tornou-se o mantra dominante. Não à toa, ideias de supremacia racial, xenofobia, misoginia e lgbtfobia retornam com força, como se nunca tivessem sido derrotadas. O ressentimento de quem se sente “prejudicado” pela inclusão do outro é manipulado com precisão cirúrgica pelos neofascistas.

As guerras atuais também ecoam os ensaios trágicos do passado: a invasão da Ucrânia pela Rússia, o massacre em Gaza, os conflitos étnicos na Etiópia, Sudão e Congo, as tensões entre Índia e Paquistão, os Estados Unidos com a retórica de anexar o Canadá e a Groenlândia, além de ameaçar tomar o canal do Panamá: tudo aponta para um cenário de instabilidade crônica, onde alianças frágeis e nacionalismos armados podem facilmente escalar para confrontos maiores. O clima de pré-guerra está no ar, e a comunidade internacional, como a antiga Liga das Nações, aparentemente pouco faz ou não demonstra a força necessária para estancar a escalada belicosa e agora armamentista, que arrastou agora até mesmo a Europa.

Além disso, o mundo vive uma nova crise de refugiados, causada não apenas por guerras, mas também pelo colapso climático e pela pobreza estrutural. Milhões de pessoas são forçadas a abandonar seus lares, mas enfrentam fronteiras fechadas, políticas de rejeição e discursos que os tratam como “ameaça civilizacional”. Nos anos 1930, países como os Estados Unidos, o Reino Unido, França, México e o Brasil recusaram judeus em fuga do nazismo. Hoje, corpos boiam no Mediterrâneo, crianças são separadas de pais na fronteira estadunidense e tudo isso se normalizou de forma escandalosa.

As instituições multilaterais mostram-se tão frágeis quanto a ONU está paralisada, refém de vetos no Conselho de Segurança e da geopolítica das grandes potências. Os tratados de paz, meio ambiente e direitos humanos são ignorados sem consequências. O Acordo de Paris claudica, enquanto corporações continuam explorando recursos com voracidade insustentável, enquanto isso o Sul Global paga a conta ambiental de um modelo que nunca construiu e nem aproveitou.

No campo simbólico, a banalização do mal, conceito cunhado pela judia Hannah Arendt para explicar como pessoas comuns se tornam cúmplices de crimes abjetos em nome da obediência, volta a ser cada vez mais atual. Hoje, soldados bombardeiam civis com drones como se jogassem videogames. Funcionários em escritórios elaboram algoritmos que excluem populações inteiras de serviços públicos, o horror é terceirizado, automatizado, e normalizado. A frieza burocrática da máquina estatal é revestida por eufemismos: "colateral", "operação de pacificação", "ajuste fiscal", "intervenção técnica". Por trás dessas palavras, vidas são esmagadas, direitos são diluídos e a empatia é substituída por relatórios e gráficos, é a ética anestesiada pela rotina, o crime tornado rotina, a justiça substituída por uma pretensa eficiência.

Mas nem tudo está perdido, nosso século também nos oferece ferramentas que inexistiam no passado, temos redes de solidariedade internacional, movimentos sociais articulados globalmente, juventudes politizadas, tecnologias livres que podem ser usadas para construir alternativas. A luta antirracista, feminista, ambiental e anticapitalista floresce em todos os continentes. A memória histórica pode e deve ser um antídoto, e ela está sendo resgatada por educadores, artistas, ativistas e acadêmicos.

A crise atual, se trabalhada, pode virar uma oportunidade, como descreveu Walter Benjamin, outro judeu que vivenciou a ascensão do nazifascismo: “a tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ em que vivemos é a regra”. Cabe a nós interromper esse ciclo. A democracia, a justiça social, os direitos humanos e o planeta não serão preservados por inércia.

É preciso um desejo coletivo, com organização e coragem política, e o urgente renascimento do movimento socialista internacional, esse é um elemento fundamental para barrar a onda fascista, exatamente como ocorreu no século passado, mas a luta contra o autoritarismo começa no cotidiano: na escola, na vizinhança, no trabalho, na internet, na igreja, onde cada um de nós esteja.

A história não apenas rima, ela cobra caro quando ignorada. Caminhamos hoje sobre os escombros mal varridos do século XX, repetindo padrões que acreditávamos superados. O autoritarismo já não bate à porta, ele senta-se à mesa, veste terno, discursa em palanques e governa sob aplausos dos incautos. O colapso do centro político, o descrédito das instituições e o avanço de discursos de ódio não são fenômenos espontâneos, são sintomas de uma democracia adoecida e de uma memória histórica maltratada.

Persistir na ilusão de que “dessa vez será diferente” é um risco que a humanidade já não pode se dar ao luxo de correr. O antídoto está na reconstrução da vida democrática como experiência coletiva: fortalecendo instituições, combatendo a desigualdade que alimenta o ressentimento e, sobretudo, ensinando história não como uma sucessão de datas, mas como um alerta permanente.

Se não aprendermos com o passado, ele deixará de ser apenas uma sombra incômoda, e voltará a ser nossa prisão, para muitos literalmente. O futuro ainda é um campo aberto, mas só permanecerá livre se tivermos coragem de confrontar os fantasmas que insistem em retornar com novas máscaras.

 

Cláudio Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

 

 

 

Atenciosamente, Deus

Eu te ouvi.   Antes da palavra. Antes da intenção. Antes da forma que você tentou dar ao que sentia. Eu te ouvi no intervalo onde o ...