segunda-feira, 21 de abril de 2025

Tempos Turbulentos e o Nordeste Brasileiro: A Busca de uma Nova Institucionalidade e o Comércio Internacional


Abraham B Sicsu[i]

Claúdio Carraly[ii]

Tenta-se uma acomodação. Todos os países e regiões. O impacto no comércio internacional pode ser efetivo. A guerra das tarifas desestabiliza os mercados. Os acordos postos em dúvida. A insegurança é clara. Construir um novo arcabouço, buscar estratégias ousadas, esperar novas medidas estapafúrdias, tentar prever novos passos, caminhos que atormentam. Bolsas e dólar oscilam, fala-se em novas moedas âncoras, blocos econômicos se articulam, aflição com o possível enxame de produtos que não terão mais os estadunidenses como demandadores privilegiados. Nesse cenário, como se posiciona o Nordeste Brasileiro?

Na década de 1960, o Brasil enfrentava profundas transformações estruturais, e o Nordeste, historicamente marcado por vulnerabilidades socioeconômicas, era considerado um território em extrema necessidade de intervenção estatal. Foi nesse contexto que a criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – Sudene se materializou como uma iniciativa pioneira. Sob a liderança de visionários a Sudene foi criada para promover a industrialização, atrair investimentos e reduzir as desigualdades regionais, implementando projetos de infraestrutura e fomento que transformaram, embora de maneira parcial, o cenário local.

Compreender a importância de conviver com o bioma do semiárido foi fundamental nas últimas décadas, assim aproveitando suas potencialidades para criar vantagens competitivas. Em meio a tempos turbulentos, caracterizados por transformações tecnológicas aceleradas, instabilidades geopolíticas e, inclusive, os resquícios da guerra tarifária promovida pela primeira administração de Donald Trump (2018-2020), que elevou os custos das exportações brasileiras em 12% segundo dados da CNI, a região precisa de uma nova institucionalidade que articule esforços para promover o desenvolvimento sustentável e a inserção competitiva no comércio internacional.

 

Não se pode negar. Há deficiências estruturais. Nossa produtividade é baixa, a competitividade em mercados internacionais, excetuando o primário exportador, pequena, a base produtiva está alicerçada em pequenas e médias empresas, muitas vezes com administração familiar, a logística de escoamento ainda com grandes deficiências, a articulação com os mercados internacionais tênue. Com esse quadro, o que prever?

O ambiente global contemporâneo é marcado por inovações tecnológicas, mudanças na dinâmica das cadeias globais de produção e uma crescente ênfase na sustentabilidade ambiental. A economia digital e a interconexão dos mercados impõem novas exigências ao conjunto das nações e regiões, que precisam se adaptar rapidamente para manter sua competitividade nesse cenário.

Um episódio emblemático foi a guerra tarifária promovida pela administração Donald Trump em sua primeira passagem pela Casa Branca, durante esse período, os Estados Unidos impuseram tarifas elevadas sobre produtos importados, entre eles, aço, alumínio e outras mercadorias manufaturadas, com o objetivo de proteger suas indústrias. Essa política protecionista provocou retaliações de diversos países e desestabilizou cadeias de fornecimento globais, elevando custos e gerando incertezas nos mercados internacionais. Dados apontam que, durante o auge dessas medidas, os custos de produção global aumentaram em até 15% em alguns setores, evidenciando como disputas tarifárias podem afetar negativamente a economia global. No caso brasileiro, o Nordeste, responsável por 8% das exportações nacionais segundo dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio em 2023, enfrentou impactos indiretos, como o aumento de custos logísticos e a perda de competitividade em mercados tradicionais. Esse episódio foi o prenúncio do que enfrentamos agora, um alerta para a importância de diversificar mercados e adotar estratégias resilientes para enfrentar choques externos.

Diante desse panorama, a Região Nordeste precisa ajustar suas políticas de desenvolvimento para se inserir de maneira competitiva no comércio internacional, utilizando a inovação e a sustentabilidade como pilares centrais da nova estratégia. A região já dá passos importantes nessa direção: com a produção de 85% da energia eólica nacional (Empresa de Pesquisa Energética – EPE, 2023), o NE pode se posicionar como um hub de indústrias de baixo carbono, atraindo investimentos em setores como hidrogênio verde e fabricação de componentes para energias renováveis.

 A entrada de produtos mais tecnificados, de países afetados com as mudanças fiscais e barreiras comerciais impostas é previsível. Fala-se  que teríamos uma verdadeira invasão de produtos importados e, com isso, uma séria crise interna. Não duvidamos. Mas, acreditamos que como os outros atores temos muito a fazer.

Se a preocupação for o mercado internacional, economias de escala passam a ser foco básico para os nossos produtos. Temos dificuldade de competitividade, com custos produtivos altos. A produção em larga escala proporciona vantagens fundamentais, como a redução dos custos unitários e a capacidade de investir em inovações. Para o Nordeste, a articulação entre pequenos produtores e empresas, consolidação de cadeias produtivas, melhorias na logística podem ser um caminho para permitir a formação de cadeias produtivas integradas e competitivas.

Outro aspecto relevante é a integração entre os Estados da Região. É crucial para superar a fragmentação histórica, mecanismos como consórcios e fóruns de governadores podem facilitar a elaboração de políticas públicas comuns, a realização de investimentos compartilhados e a harmonização de legislações regionais.

Em 2022, o Consórcio Nordeste, por exemplo, economizou R$ 1 bilhão com a compra conjunta de medicamentos, modelo facilmente replicável em setores como logística e exportação.

A conclusão da Ferrovia Transnordestina, que reduzirá custos de transporte em 30% na fruticultura do Vale do São Francisco, é outro exemplo de como a cooperação regional gera resultados tangíveis, com esses ramais abastecendo com inúmeros produtos de exportação escoados nos portos de Suape e Pecém, elevando a competitividade de toda a região.

Com esse quadro, importante analisar as tendências setorialmente.

No setor primário temos estrutura e preços competitivos para os mercados internacionais. Os cerrados apresentam condições de competitividade e de inserção crescente nos mercados internacionais. Inclusive substituindo produtos da América do Norte que serão retaliados. A agricultura de exportação é um trunfo a ser mais bem comercializada e melhor articulada. Na área mineral, têm-se boas perspectivas para  produtos específicos, insumos importantes para as novas ligas metálicas e para a indústria estratégica de chips e componentes eletrônicos. Há como avançar. Sem falar no petróleo em que se têm boas perspectivas, inclusive com a exploração da margem equatorial. Caminhos seguros para avanços significativos em espaços que começam a se abrir com a guerra comercial.

Nosso maior problema é o setor secundário, de transformação industrial. Nele se tem efetivos problemas de competitividades. Tirando nossa pequena base industrial de grandes multinacionais aqui implantadas, inclusive a automobilística e a petroquímica, são poucas as opções com escalas adequadas e produtividade competitiva. Necessário faz-se um esforço que evite o sucateamento prematuro do parque fabril aqui implantado. Fazem-se necessárias ações no sentido, como já dito, de modificar o quadro atual. E nisso escalas competitivas passam a ser estratégicas, além da necessária modernização e digitalização das empresas e sua inserção na chamada manufatura avançada. Não é fácil.

Nesse contexto, no curto prazo, dada a escassez de recursos atual, uma mudança institucional profunda aparece como caminho mais seguro. E nele, a articulação regional volta a ter sentido. O mercado regional não é desprezível, há um parque diversificado produtivo, mas pouco articulado, ganhos de produtividade podem ser auferidos articulando as cadeias produtivas regionais, desde o fornecimento de matéria prima, passando pelos intermediários e chegando com maior solidez e menores custos nos produtores finais. Também, fundamental é a melhoria de logística que permita articular produtores a mercados locais e extra locais, inclusive os internacionais.

Na mesma direção, investimentos massivos em conhecimento e tecnologia fazem-se indispensáveis. Garantir a atualização do  parque e acompanhar tendências mundiais é caminho para a competitividade. Infelizmente, na região, ainda muito frágil. Conseguir um sistema mais articulado e voltado para áreas estratégicas focado na matriz de conhecimento que dê embasamento ao perfil produtivo local, um desafio a ser enfrentado.

Uma visão mais acurada do quadro internacional, também se faz necessária.

A evolução das relações comerciais globais nos últimos anos transformou o ambiente de negócios, impondo padrões de sustentabilidade e inovação. Os principais blocos econômicos, Estados Unidos, União Europeia, e de maneira marcante, a China, que traz consigo um bloco emergente, mas muito promissor que são os BRICS, agora exercem uma influência ainda mais forte sobre as regras do comércio internacional. A guerra tarifária reiniciada nessa nova administração de Donald Trump em 2025 elevou as tarifas de importação de forma desproporcional, provocando indelevelmente retaliações internacionais. Isso apenas confirmou que a competitividade dos produtos depende de sua capacidade de se adaptar a um ambiente de incertezas e disputas comerciais, e o Nordeste tem que estar preparado para isso.

Para que a Região se insira de forma competitiva nos mercados internacionais, é imperativo que seus produtos atendam aos elevados padrões de qualidade e sustentabilidade exigidos pelos grandes blocos e Isso envolve Certificação Internacional, Missões Comerciais e Ajuste Tecnológico e Logístico.

Tudo isso passa pela matriz institucional que se deve articular na região e que daria a base de fundamentação para os saltos desejados. No caso do Nordeste, se vêem duas instituições, desde que reorientadas e revitalizadas, que podem ser a base dos desafios acima relacionados; o Consórcio dos Estados Nordestinos e a própria Sudene.

O Consórcio, aprofundado e mais focado, permite dar a base para a integração dos estados na busca de uma estratégia comum no sentido de maior penetração em regiões e países externos à região, além de permitir uma maior articulação em áreas relevantes como a tecnológica e a defesa do mercado interno para produtos locais e o uso do mecanismo de compras governamentais para alavancar a produção nordestina. Isso pode modificar bastante as escalas produtivas atuais, muito pouco competitivas.

A Sudene, além de procurar garantir recursos para a atualização do parque local e da infraestrutura logística e de conhecimento, tem papel relevante e estratégico. Se o País está procurando se articular com Blocos Econômicos mundiais e procurando espaços para que se minimizem os impactos da desregulamentação advinda do Tarifaço, deve ser a porta voz oficial para garantir participação crescente da Região nesses acordos e a diminuição dos impactos negativos advindos de uma possível enxurrada de produtos advindos de países muito mais competitivos.

Em outras palavras, duas instituições que se complementariam, uma garantindo a forte articulação regional e o conseqüente aumento de competitividade local, outra garantindo recursos para as infraestruturas mais relevantes e espaços na luta política para maior inserção nos mercados extra locais.

O Nordeste brasileiro encontra-se em um ponto de inflexão histórico, as lições da Sudene, somadas aos desafios impostos por um comércio internacional fragmentado e exigente, demandam não apenas adaptação, mas uma reinvenção estratégica. A Região já dá sinais de que pode transcender suas dificuldades ao liderar a transição energética nacional, com a produção de 85% da energia eólica e 40% da solar do país, e ao transformar sua cultura e biodiversidade em ativos globais, o Nordeste reescreve sua narrativa.

A nova institucionalidade necessária passa, inevitavelmente, pela ressignificação de entidades como a Sudene e pela eficácia de mecanismos colaborativos como o Consórcio Nordeste. Juntas, essas estruturas podem catalisar investimentos em infraestrutura crítica, como a conclusão da Ferrovia Transnordestina, ampliar o acesso a mercados inexplorados via certificações internacionais e fomentar cadeias produtivas resilientes, capazes de resistir a choques externos, seja das guerras tarifárias ou crises climáticas.

Mas o verdadeiro salto qualitativo está na capacidade de transformar particularidades históricas em vantagens sistêmicas. O semiárido, antes sinônimo de limitação, torna-se laboratório para agroindústria 4.0 e energia renovável, a herança cultural, mote para um turismo de experiência que gera R$ 300 milhões/ano, e a localização geoestratégica, ponte natural para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP e o Sul Global. 

O desafio, agora, é institucionalizar essa transformação. Isso requer não apenas verbas, mas visão, integração de políticas estaduais, parcerias público-privadas ágeis e uma diplomacia econômica ativa.  

Se a Sudene dos anos 1960 mirou a industrialização, sua versão do século XXI deve ser uma plataforma de inovação aberta, conectando startups a capitais de risco globais. Ao final, o Nordeste não apenas superará a secular dicotomia entre seca e desenvolvimento, como emergirá como arquiteto de um novo modelo de inserção global – onde competitividade e sustentabilidade são faces da mesma moeda. A desigualdade, então, não será um fantasma do passado, mas um desafio superado por instituições que souberam transformar ventos, sol e criatividade em prosperidade compartilhada. O tempo é de ousadia, a próxima década pode consagrar a região não como periferia, mas como epicentro de um comércio internacional mais justo, inventivo e totalmente surpreendente. 

Por fim, não se deve deixar e salientar que a região já dispõe de pólos de conhecimento relevantes, nas áreas da nova indústria e dos novos serviços, que podem ser fortalecidos e articulados. Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Bahia, por exemplo, tem pólos na área de informática que podem ter grande penetração mundial, que, se bem associados trazem diferencial em áreas de grande valor agregado.

A consolidação institucional, tendo por base uma estratégia competitiva mais agressiva, pode ser caminho para um forte avanço na região. É no que acreditamos.

 



[i] Professor do Doutorado em Engenharia de Produção da UFPE e Pesquisador Titular da Fundação Joaquim Nabuco, aposentado em ambos

[ii] Ex Secretário Executivo de Direitos Humanos de Pernambuco

segunda-feira, 14 de abril de 2025

E NEM PRECISOU DOS COMUNISTAS!TRUMP ESTÁ AFUNDANDO OS EUA SOZINHO


Em um discurso incisivo que ecoou como um alerta sobre os rumos da política econômica dos Estados Unidos, Jeffrey Sachs, renomado economista liberal e diretor do Centro para o Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia, desmontou as justificativas por trás das tarifas comerciais impostas pelo governo Trump, classificando-as como "falaciosas", "infantis" e potencialmente catastróficas para os padrões de vida dos estadunidenses e para o conjunto da economia global.

 

Em uma análise detalhada, Sachs argumentou que a narrativa de "roubo" por parte de outros países, repetida com insistência por Donald Trump e sua camarilha, máscara um problema estrutural muito mais profundo: A irresponsabilidade fiscal crônica de Washington. Essa, segundo ele, é alimentada por gastos militares descontrolados por décadas a fio, a falta de lógica nos contumazes cortes de impostos para os mais ricos e uma cultura política que ele define, sem rodeios, como "gangsterismo corrupto e plutocrático".

 

Sachs inicia sua crítica desconstruindo o déficit em conta corrente dos EUA, que atingiu valores superiores a 1 trilhão de dólares em 2023. Para ele, a ideia de que esse déficit resulta da explicação simplista de que "países que roubam os EUA", como uma retórica central de Trump, não apenas é falsa, como revela uma incompreensão fundamental dos princípios mais básicos da macroeconomia, outros economistas coadunam essas críticas e ainda falam em falta de conhecimento histórico, dissociação cognitiva, quando não a simples e total idiotice mesmo.

 

Ter um déficit em conta corrente significa, literalmente, que os EUA gastam mais do que produzem, Isso ocorre porque a taxa de poupança americana é baixíssima, o governo opera com déficits orçamentários monumentais, e o país vive no crédito e na necessidade de um consumo crescente e irrefreado. O economista traça um paralelo direto entre os gastos federais insustentáveis e o desequilíbrio comercial, o déficit orçamentário do governo, que ultrapassou US$ 1,7 trilhão em 2023, é financiado por empréstimos internacionais, como a venda de títulos da dívida do país, uma engrenagem que pressiona o valor do dólar, barateia as importações e desequilibra a balança comercial.

 

Enquanto Washington continuar gastando trilhões na máquina de guerra e sua indústria armamentista, em subsídios a aliados de ocasião, em 800 bases militares ao redor do mundo e em cortes de impostos para os mais ricos em território local, esse buraco do déficit comercial persistirá, pior se ampliará, até a inevitável implosão, Trump culpa a China, México ou Alemanha, mas o problema está no espelho. Essa frase, quando isolada, ganha ainda mais força. Ela simboliza o âmago da crítica: A exportação da culpa para encobrir um desgoverno fiscal interno e crescente.

 

Sachs não poupa críticas ao que chama de complexo militar-industrial desgovernado, que consome mais de US$ 1 trilhão anualmente. Isso inclui guerras prolongadas no Oriente Médio, manutenção de uma rede de bases militares globais e contratos bilionários com empresas privadas de defesa. “Somos uma nação que gasta como se estivéssemos em guerra permanente, mas cobrimos esses custos com dívida, não com impostos.” E não é por acaso a beligerância estadunidense, para manter os números absurdos gastos desse complexo militar do país, guerras têm que ser inventadas, promovidas ou apoiadas.

 

Paralelamente, ele denuncia a erosão da arrecadação provocada pela evasão fiscal dos ultra-ricos, facilitada por uma Receita Federal – IRS, propositalmente enfraquecida por cortes de orçamento, é um sistema projetado para transferir riqueza para o topo, enquanto o resto da população paga a conta desta festa. Um dos exemplos mais simbólicos desse desequilíbrio é o pacote de cortes de impostos de 2017, aprovado sob o primeiro governo Trump, que beneficiava majoritariamente grandes corporações e indivíduos de alta renda, esses cortes têm projeção de aumentar o déficit federal em 4 trilhões de dólares até o final dessa década, segundo o Congressional Budget Office – CBO. “Trump quer tornar esses cortes permanentes, o que só agravará o buraco fiscal, é um ciclo perverso, corta-se impostos para os ricos, gera-se déficits, culpa-se outros países pelo desequilíbrio comercial e, em seguida, impõem-se tarifas que prejudicam justamente os trabalhadores que ele prometeu proteger”.

 

O economista é categórico ao definir tarifas como "impostos sobre os consumidores". Quando se aumentam os custos de produtos importados, como automóveis e eletrônicos, transfere-se a conta diretamente para o cidadão comum. Ele ilustra: “Suponha que você compre um carro japonês por 30 mil. Com uma tarifa de 25%, o preço salta para 37,5 mil. Se optar por um carro nacional, pagará 35 mil por um modelo similar, que na verdade é muito mais caro que antes da tarifa, pois as montadoras aproveitam a redução da concorrência para elevar preços e aumentar suas margens de lucro.” Um exemplo simples, mas eficaz, se dá na necessidade da indústria americana  pelas peças estrangeiras em suas linhas de montagem. Seus custos logicamente vão se elevar, isso prejudica a competitividade externa dos seus veículos, reduzindo obviamente as exportações, resultando em menos opções para o consumidor dentro e fora dos Estados Unidos, e resultando em uma subida geral dos preços do produto “automóvel” no mundo.

 

O resultado é previsível, o consumidor paga mais, mesmo quando compra produtos nacionais, ao reduzir a concorrência, as tarifas enfraquecem o incentivo à eficiência e à inovação, além disso, o protecionismo tarifário logicamente vai desencadear retaliações. Em 2018, após os EUA imporem tarifas ao aço e alumínio, a China respondeu com barreiras a produtos agrícolas americanos, atingindo em cheio os produtores. O governo teve de intervir, gastando 28 bilhões de dólares em subsídios, recursos oriundos, claro, dos próprios contribuintes, elevando ainda mais a dívida do país. “É um tiro no pé: o estado gasta mais para remediar os danos de uma política que supostamente deveria ajudar a economia e só a piora”.

 

A promessa de que tarifas vão reduzir o déficit comercial ignora um princípio elementar, o comércio internacional é bilateral, mas os efeitos fiscais são sistêmicos. Se os EUA importam menos da China, também exportarão menos para lá, já que os chineses terão menos dólares, bem como interesse político para comprar os produtos. A estrutura do déficit comercial não muda de país, ela contamina outros, sua causa raiz permanece, assim essa política fiscal expansionista e insustentável cria um desequilíbrio global contínuo, endividando a médio e longo prazo muitos outros países.

 

Sachs não se limita à crítica econômica, ele também questiona o processo institucional pelo qual as tarifas são impostas. A Constituição dos EUA confere ao Congresso o poder de legislar sobre impostos, no entanto, Trump frequentemente contorna o legislativo, invocando razões de segurança nacional para impor tarifas unilateralmente, a autoridade fiscal está sendo usurpada por uma figura executiva que se comporta como um monarca absolutista. Essa prática fere os princípios básicos da democracia representativa e escancara a fragilidade institucional diante de lideranças populistas, e demonstra ao mundo que os EUA estão perigosamente na direção e com bastante velocidade de destruir por dentro sua democracia.

 

Ao desmontar a retórica protecionista de Donald Trump, Sachs nos força a olhar para  os desequilíbrios internos que alimentam as vulnerabilidades externas dos Estados Unidos. O déficit comercial não é a causa, ele é o efeito visível de uma política fiscal descontrolada, de uma estrutura tributária regressiva e de uma cultura política que prioriza o poder sobre a responsabilidade. Ao culpar países estrangeiros, o discurso populista desvia a atenção dos verdadeiros culpados, que são décadas de decisões fiscais equivocadas, sustentadas por lobbies corporativos e elites econômicas e militares que moldam as regras em benefício próprio.

 

As tarifas, longe de oferecerem proteção real, funcionam como uma cortina de fumaça, uma forma de projetar culpa e acabam por punir os mais vulneráveis. Elas sacrificam os consumidores, encarecem a vida cotidiana e perpetuam o ciclo vicioso de dívida, desigualdade e ineficiência econômica. No fim das contas, o que o economista Jeffrey Sachs, que nada tem de esquerdista, é a denúncia do espelho quebrado que é a governança estadunidense, onde o reflexo da verdade está distorcido por interesses e ilusões, e onde o custo da negação é pago por todos, mas piorou de uma forma aparentemente simples, a volta ao poder da extrema-direita americana, referendado maciçamente pelo voto popular.

 

Cláudio Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

 

 

Atenciosamente, Deus

Eu te ouvi.   Antes da palavra. Antes da intenção. Antes da forma que você tentou dar ao que sentia. Eu te ouvi no intervalo onde o ...