A ordem executiva assinada por Donald Trump impondo tarifas de 50% sobre
produtos brasileiros e citando nominalmente Jair Bolsonaro e o blogueiro Paulo
Figueiredo, não é apenas uma escalada comercial, é uma declaração de guerra
econômica contra o povo brasileiro. É a confirmação definitiva de uma nova fase
da guerra assimétrica que os Estados Unidos travam contra países que ousam
exercer sua soberania, e representa o momento em que a máscara da
"parceria" finalmente caiu. Ao misturar interferência política direta
com chantagem econômica, Trump revelou o que há de mais arcaico e desesperado
na política externa estadunidense.
A justificativa apresentada pela Casa Branca de que o governo brasileiro
representa uma "ameaça incomum e extraordinária" à segurança nacional
dos EUA expõe a paranoia de um império em decadência. Declarar emergência
nacional com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de
1977 contra o Brasil, enquanto simultaneamente sanciona o ministro Alexandre de
Moraes pela Lei Magnitsky, demonstra o desespero de quem perdeu a capacidade de
exercer influência através de meios diplomáticos convencionais.
Durante décadas, os EUA mantiveram sua posição hegemônica no mundo
através de uma combinação de uma diplomacia agressiva, força militar,
influência econômica e dominação cultural. No entanto, essa hegemonia já não se
sustenta mais, a emergência de novos atores globais e o fortalecimento de
blocos alternativos como os BRICS, que buscam consolidação de projetos
multilaterais de desenvolvimento e cooperação, têm progressivamente minado o
poder unilateral dos EUA. O mundo já não gira em torno de Washington e isso os
incomoda profundamente.
O Brasil, ao adotar uma política externa mais autônoma e orientada para
o multilateralismo, naturalmente passa a incomodar essa ordem em ruínas. As
recentes aproximações com a China, com os BRICS+, com países do Sul Global e a
defesa de uma nova governança internacional mais equânime colocam o Brasil num
novo eixo estratégico. E essa guinada, ainda que moderada e gradual, é
percebida por setores do establishment norte-americano como um ato de
desobediência intolerável.
A inclusão de Bolsonaro e Paulo Figueiredo na ordem executiva revela uma
estratégia ainda mais sinistra e antidemocrática: a instrumentalização de
extremistas de direita como pretexto para pressões geopolíticas devastadoras
contra o Brasil. Trump não defende genuinamente os direitos humanos, muito pelo
contrário, o que vemos é a operação clássica da utilização de seus aliados
internos para justificar a destruição econômica de uma nação soberana.
Essa guerra assimétrica não se dá no campo de batalha tradicional, já
não há tanques, e não há invasões. O que existe é chantagem comercial,
manipulação midiática, operações de desinformação e uso político de organismos
internacionais. A atual administração dos EUA pressiona empresas, impõe
sanções, desestabiliza democracias por dentro e cria narrativas para justificar
suas ações, tudo sob a bandeira da "liberdade" e dos "direitos
humanos", ainda que o que esteja em jogo seja, sempre, o controle de
mercados e recursos alheios.
A tarifa de 50% não é apenas uma medida comercial, é um recado político.
É a tentativa de punir economicamente o Brasil por exercer sua soberania
judiciária e por não se curvar às pressões externas. Quando Trump afirma que
está "protegendo a segurança nacional dos Estados Unidos de uma ameaça
estrangeira", ele revela a rota essência imperial de quem não tolera que
outros países tomem decisões independentes que contrariem os interesses da
velha potência.
Os brasileiros precisam estar cientes disso. Estamos entrando, pelo
nosso crescimento com um ator global extremamente relevante, em uma disputa
geopolítica na qual o país será constantemente provocado, testado e
pressionado. A guerra é comercial, mas também simbólica. Está em jogo a
capacidade do país de construir um projeto nacional soberano, voltado para o
desenvolvimento com justiça social e inserção internacional altiva. E, ao
contrário do que muitos imaginam, isso não será permitido pacificamente pelos
que ainda se imaginam senhores do mundo.
A tentativa do presidente Lula de estabelecer diálogo, relatada em
entrevista ao New York Times quando afirmou que "ninguém dos EUA quer
conversar" sobre o tarifaço, demonstra a maturidade diplomática brasileira
diante da intransigência estadunidense. Enquanto o Brasil busca o diálogo, eles
respondem com ultimatos e chantagens.
Por isso, o caminho do Brasil não pode ser o da submissão, tampouco o do
alinhamento automático com qualquer potência. O país precisa afirmar sua
soberania com lucidez e estratégia, ampliando suas parcerias sul-sul e
aprofundando sua integração com a América Latina e a África. Além disso, deve
fortalecer o papel dos BRICS como alternativa real à ordem unipolar e apostar
em instrumentos financeiros próprios, como o comércio em moedas locais e o uso
de bancos multilaterais independentes.
Ao mesmo tempo, é preciso resistir às tentativas internas da
extrema-direita de sabotagem. Grupos políticos locais alinhados a interesses
estrangeiros atuam como verdadeiros cavalos de Troia, não só aqui, mas no mundo
todo, esses grupos buscam desestabilizar governos democraticamente eleitos,
desacreditar políticas públicas nacionais e semear o caos como pretexto para
restaurar um modelo de dependência que agoniza de morte. A ordem executiva de
Trump foi dirigida a eles, não ao Brasil democrático e soberano.
O império, ao agir dessa forma, apenas confirma sua decadência terminal
e seu desespero crescente. Quando um país precisa recorrer a sanções econômicas
brutais e interferência política descarada para tentar manter sua influência,
isso demonstra a sua falência iminente, o esgarçamento do seu modelo de
liderança global. É o comportamento típico de um predador acuado, sem
capacidade de seduzir ou convencer, resta apenas a tentativa patética de
ameaçar quem ousa desafiá-lo. E, quando um país tenta exportar sua crise
interna para outro, é preciso firmeza.
O Brasil precisa entender que o novo conflito em curso não é apenas
econômico, e sim civilizacional. A disputa é entre um modelo de mundo
multipolar, democrático e respeitoso à soberania nacional de todos os estados
nacionais, e outro que insiste na dominação unilateral através da força e da
chantagem, neste embate, não basta sobreviver é preciso liderar e apontar o
futuro.
Ou o Brasil assume seu papel como ator geopolítico soberano, com projeto
próprio, resistindo às pressões e construindo alternativas concretas à ordem
nati-morta, ou será tragado pela tempestade de um antigo império que, sem
conseguir mais mandar no mundo, tenta arrastá-lo para o fundo com ele. Este não
é mais um debate acadêmico ou uma reflexão diplomática. Cada brasileiro precisa
entender que estamos vivendo o momento decisivo, não se trata apenas de
economia ou política externa, trata-se de definir se teremos um país
verdadeiramente soberano ou se seremos reduzidos de volta à condição de
colônia.
As forças entreguistas internas, aquelas mesmas que Trump cita em sua
ordem executiva, trabalham incansavelmente para sabotar qualquer projeto
nacional autônomo. Elas preferem a subordinação confortável à dignidade da
luta. Precisam ser identificadas, expostas e politicamente derrotadas em cada
espaço de poder que ocupam, carregando para sempre o carimbo de
quinta-colunistas que são.
A batalha não será fácil, um antigo império ferido é muito mais
perigoso, mas nunca na história moderna houve condições tão favoráveis para
quebrarmos definitivamente as correntes da nossa dependência. China, Índia,
Rússia, África, os países árabes, todos enfrentam o mesmo tipo de chantagem em
algum momento de suas trajetórias. A história julgará sem piedade quem se
omitiu nesse momento tão grave. O Brasil tem não apenas a oportunidade, mas o
dever histórico de ser um dos líderes da resistência global contra a tirania
dos EUA sob Trump. O futuro se decide hoje, a neutralidade é cumplicidade e o
colaboracionismo crime! Soberania de verdade só se conquista com luta.
Cláudio
Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.