"A
história não se repete, mas rima" - dizia Mark Twain. No
Brasil, ela ecoa por séculos. Quando um jovem negro tem 2,5 vezes mais chances
de ser assassinado que um jovem branco, quando 1% dos proprietários rurais
detém metade das terras cultiváveis, quando 33 milhões passam fome num dos maiores
exportadores de alimentos do mundo, não são coincidências. São cicatrizes vivas
de escolhas históricas que se perpetuam porque alguém se beneficia delas.
Em
1888, a abolição da escravidão fez os ex-proprietários perderem patrimônio
equivalente a duas vezes o PIB da época. Essa elite não "aceitou" a
mudança, se reorganizou. A Lei de Terras de 1850 garantira que só quem tinha
dinheiro comprasse terras. Imigrantes europeus vieram com subsídios estatais.
Aos ex-escravizados sobrou a "liberdade" de morrer de fome ou aceitar
trabalhos insalubres e com remuneração degradante. Não foi acaso. Foi projeto.
Mas
nossa história tem outro lado: a resistência. Palmares durou quase um século
como território livre do tamanho da França medieval, com agricultura
diversificada e democracia participativa. O Brasil colonial precisou de 18
expedições militares para destruir uma sociedade que provava ser possível viver
diferente.
A
Revolta dos Malês (1835) não foi um motim desesperado, mas uma insurreição
organizada por décadas, com líderes letrados que tinham um projeto político
claro: abolir a escravidão e criar uma sociedade multirracial. Canudos, com 35
mil habitantes, organizou produção coletiva, distribuição de alimentos e
acolhimento de ex-escravizados. Foi destruída numa guerra que matou mais gente
que a Guerra do Paraguai.
As
elites brasileiras desenvolveram técnica refinada: promover mudanças
institucionais que neutralizam pressões populares sem alterar estruturas de
poder. A Independência de 1822 manteve o imperador português, a escravidão, o
latifúndio e a economia colonial intactos. Mas a Confederação do Equador (1824)
propunha república democrática, abolição e reforma agrária, foi esmagada porque
representava independência real.
A
Proclamação da República seguiu o padrão: golpe militar impediu república
democrática popular e instalou ditadura oligárquica que excluiu 95% da
população do voto.
Getúlio
Vargas personifica a genialidade perversa desse modelo: industrializou, criou
legislação trabalhista, fundou universidades. Simultaneamente, reprimiu
movimentos operários autônomos e manteve a estrutura agrária intocada.
Entre
1945-1964, movimentos populares ameaçaram pela primeira vez alterar correlações
fundamentais de poder. João Goulart propôs reformas moderadas: agrária, urbana,
universitária. O golpe civil-militar de 1964, apoiado pelos EUA, interrompeu
violentamente a única experiência brasileira de democracia com participação
popular efetiva.
A
redemocratização pós-1985 seguiu o padrão: a Constituição de 1988, apesar de
conquistas sociais, manteve concentração fundiária, sistema financeiro
oligopolizado e inserção subordinada na economia mundial. Anistia recíproca
garantiu que torturadores nunca fossem julgados.
Entre
2003 e 2016, políticas sociais alteraram significativamente as condições de
vida das classes populares: 36 milhões saíram da pobreza, o salário mínimo teve
aumento real de 70%, foram criadas 18 universidades federais, e as cotas
alteraram o perfil das universidades públicas.
Mas
estruturas fundamentais não mudaram: reforma agrária foi irrisória, sistema
tributário continuou regressivo, democratização da mídia não foi enfrentada e a
reforma política beneficiou apenas as elites.
Os
governos petistas enfrentaram dilema estrutural: avançar significaria
confrontar classes dominantes. A opção foi aliança com frações do capital
nacional em troca de concessões sociais. Funcionou durante o crescimento
econômico. Na crise, a conciliação se tornou insustentável. Daí veio o
impeachment da presidenta Dilma em 2016, resolvendo o impasse em favor do
capital.
O
Brasil é simultaneamente a 9ª economia mundial e um dos países mais desiguais.
Essa contradição não é paradoxo, é funcionamento normal de sistema que produz
riqueza concentrando-a brutalmente.
O
sistema tributário transfere renda dos pobres para ricos: 50% da arrecadação
vem de impostos sobre consumo que incidem igualmente sobre todos. Não existe
imposto sobre grandes fortunas. Lucros e dividendos não são tributados. O
Estado arrecada dos pobres para financiar serviços que atendem principalmente
os ricos.
Milhões
de brasileiros organizam experiências concretas de solidariedade e economia
alternativa. O MST não apenas luta por reforma agrária, é laboratório de
inovações que abrange educação popular, agricultura agroecológica, comunicação
alternativa. Nos assentamentos vivem 1 milhão de famílias que provam ser
possível produzir alimentos saudáveis preservando o meio ambiente.
Nas
periferias urbanas fervilha revolução cultural, o hip hop combina expressão
artística com consciência política. Saraus transformam botecos em espaços de
literatura e organização comunitária. Mães de vítimas da violência policial
denunciam genocídio da juventude negra e propõem segurança baseada em direitos
humanos.
A
economia solidária envolve 1,4 milhão de trabalhadores experimentando
autogestão e solidariedade, empresas recuperadas provam que é possível produzir
sem patrões. Bancos comunitários levam crédito onde o sistema bancário não
chega. Cooperativas de agricultura familiar abastecem 30% da merenda escolar
com alimentos frescos e sem agrotóxicos.
O
Brasil tem condições para uma sociedade justa e soberana. Faltam decisões
políticas que priorizem necessidades populares sobre lucros do capital
financeiro. Reformas estruturais necessárias: redistribuir terras improdutivas,
criar impostos sobre grandes fortunas, democratizar comunicação, estabelecer
financiamento público exclusivo de campanhas eleitorais.
As
contradições brasileiras não são eternas, o país que concentra renda como
poucos tem constituição avançada em direitos sociais. A nação que elegeu
ex-operário presidente mantém oligarquias seculares. A sociedade que criou o
SUS universal mantém diferenças educacionais abissais.
O
Brasil do futuro existe em germe nas comunidades organizadas, assentamentos
agroecológicos, cooperativas democráticas, coletivos culturais engajados. Não
precisamos mais de uma revolução armada. Precisamos de uma revolução
democrática que combine reformas estruturais, participação social massiva,
organização de base, educação política, comunicação popular e economia
solidária. Cada voto, cada ação decide qual futuro construímos, a história não
acabou. Apenas esperou que a base da sociedade se empoderasse para poder
escrever o próximo capítulo. Dessa vez, serão os degredados, os da periferia,
os excluídos que segurarão a caneta da história, e dela surgirá um país mais
justo, fraterno e solidário.
Cláudio
Carraly, advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco