Em um discurso incisivo que ecoou como
um alerta sobre os rumos da política econômica dos Estados Unidos, Jeffrey
Sachs, renomado economista liberal e diretor do Centro para o Desenvolvimento
Sustentável da Universidade de Columbia, desmontou as justificativas por trás
das tarifas comerciais impostas pelo governo Trump, classificando-as como
"falaciosas", "infantis" e potencialmente catastróficas
para os padrões de vida dos estadunidenses e para o conjunto da economia
global.
Em uma análise detalhada, Sachs
argumentou que a narrativa de "roubo" por parte de outros países,
repetida com insistência por Donald Trump e sua camarilha, máscara um problema
estrutural muito mais profundo: A irresponsabilidade fiscal crônica de
Washington. Essa, segundo ele, é alimentada por gastos militares descontrolados
por décadas a fio, a falta de lógica nos contumazes cortes de impostos para os
mais ricos e uma cultura política que ele define, sem rodeios, como
"gangsterismo corrupto e plutocrático".
Sachs inicia sua crítica desconstruindo
o déficit em conta corrente dos EUA, que atingiu valores superiores a 1 trilhão
de dólares em 2023. Para ele, a ideia de que esse déficit resulta da explicação
simplista de que "países que roubam os EUA", como uma retórica
central de Trump, não apenas é falsa, como revela uma incompreensão fundamental
dos princípios mais básicos da macroeconomia, outros economistas coadunam essas
críticas e ainda falam em falta de conhecimento histórico, dissociação cognitiva,
quando não a simples e total idiotice mesmo.
Ter um déficit em conta corrente
significa, literalmente, que os EUA gastam mais do que produzem, Isso ocorre
porque a taxa de poupança americana é baixíssima, o governo opera com déficits
orçamentários monumentais, e o país vive no crédito e na necessidade de um
consumo crescente e irrefreado. O economista traça um paralelo direto entre os
gastos federais insustentáveis e o desequilíbrio comercial, o déficit
orçamentário do governo, que ultrapassou US$ 1,7 trilhão em 2023, é financiado
por empréstimos internacionais, como a venda de títulos da dívida do país, uma
engrenagem que pressiona o valor do dólar, barateia as importações e
desequilibra a balança comercial.
Enquanto Washington continuar gastando
trilhões na máquina de guerra e sua indústria armamentista, em subsídios a
aliados de ocasião, em 800 bases militares ao redor do mundo e em cortes de
impostos para os mais ricos em território local, esse buraco do déficit
comercial persistirá, pior se ampliará, até a inevitável implosão, Trump culpa
a China, México ou Alemanha, mas o problema está no espelho. Essa frase, quando
isolada, ganha ainda mais força. Ela simboliza o âmago da crítica: A exportação
da culpa para encobrir um desgoverno fiscal interno e crescente.
Sachs não poupa críticas ao que chama de
complexo militar-industrial desgovernado, que consome mais de US$ 1 trilhão
anualmente. Isso inclui guerras prolongadas no Oriente Médio, manutenção de uma
rede de bases militares globais e contratos bilionários com empresas privadas
de defesa. “Somos uma nação que gasta como se estivéssemos em guerra
permanente, mas cobrimos esses custos com dívida, não com impostos.” E não é
por acaso a beligerância estadunidense, para manter os números absurdos gastos
desse complexo militar do país, guerras têm que ser inventadas, promovidas ou
apoiadas.
Paralelamente, ele denuncia a erosão da
arrecadação provocada pela evasão fiscal dos ultra-ricos, facilitada por uma
Receita Federal – IRS, propositalmente enfraquecida por cortes de orçamento, é
um sistema projetado para transferir riqueza para o topo, enquanto o resto da
população paga a conta desta festa. Um dos exemplos mais simbólicos desse
desequilíbrio é o pacote de cortes de impostos de 2017, aprovado sob o primeiro
governo Trump, que beneficiava majoritariamente grandes corporações e
indivíduos de alta renda, esses cortes têm projeção de aumentar o déficit
federal em 4 trilhões de dólares até o final dessa década, segundo o
Congressional Budget Office – CBO. “Trump quer tornar esses cortes permanentes,
o que só agravará o buraco fiscal, é um ciclo perverso, corta-se impostos para
os ricos, gera-se déficits, culpa-se outros países pelo desequilíbrio comercial
e, em seguida, impõem-se tarifas que prejudicam justamente os trabalhadores que
ele prometeu proteger”.
O economista é categórico ao definir
tarifas como "impostos sobre os consumidores". Quando se aumentam os
custos de produtos importados, como automóveis e eletrônicos, transfere-se a
conta diretamente para o cidadão comum. Ele ilustra: “Suponha que você compre
um carro japonês por 30 mil. Com uma tarifa de 25%, o preço salta para 37,5
mil. Se optar por um carro nacional, pagará 35 mil por um modelo similar, que
na verdade é muito mais caro que antes da tarifa, pois as montadoras aproveitam
a redução da concorrência para elevar preços e aumentar suas margens de lucro.”
Um exemplo simples, mas eficaz, se dá na necessidade da indústria americana
pelas peças estrangeiras em suas linhas de montagem. Seus custos
logicamente vão se elevar, isso prejudica a competitividade externa dos seus
veículos, reduzindo obviamente as exportações, resultando em menos opções para
o consumidor dentro e fora dos Estados Unidos, e resultando em uma subida geral
dos preços do produto “automóvel” no mundo.
O resultado é previsível, o consumidor
paga mais, mesmo quando compra produtos nacionais, ao reduzir a concorrência,
as tarifas enfraquecem o incentivo à eficiência e à inovação, além disso, o
protecionismo tarifário logicamente vai desencadear retaliações. Em 2018, após
os EUA imporem tarifas ao aço e alumínio, a China respondeu com barreiras a
produtos agrícolas americanos, atingindo em cheio os produtores. O governo teve
de intervir, gastando 28 bilhões de dólares em subsídios, recursos oriundos,
claro, dos próprios contribuintes, elevando ainda mais a dívida do país. “É um
tiro no pé: o estado gasta mais para remediar os danos de uma política que
supostamente deveria ajudar a economia e só a piora”.
A promessa de que tarifas vão reduzir o
déficit comercial ignora um princípio elementar, o comércio internacional é
bilateral, mas os efeitos fiscais são sistêmicos. Se os EUA importam menos da
China, também exportarão menos para lá, já que os chineses terão menos dólares,
bem como interesse político para comprar os produtos. A estrutura do déficit
comercial não muda de país, ela contamina outros, sua causa raiz permanece,
assim essa política fiscal expansionista e insustentável cria um desequilíbrio
global contínuo, endividando a médio e longo prazo muitos outros países.
Sachs
não se limita à crítica econômica, ele também questiona o processo
institucional pelo qual as tarifas são impostas. A Constituição dos EUA confere
ao Congresso o poder de legislar sobre impostos, no entanto, Trump
frequentemente contorna o legislativo, invocando razões de segurança nacional
para impor tarifas unilateralmente, a autoridade fiscal está sendo usurpada por
uma figura executiva que se comporta como um monarca absolutista. Essa prática
fere os princípios básicos da democracia representativa e escancara a
fragilidade institucional diante de lideranças populistas, e demonstra ao mundo
que os EUA estão perigosamente na direção e com bastante velocidade de destruir
por dentro sua democracia.
Ao desmontar a retórica protecionista de
Donald Trump, Sachs nos força a olhar para os desequilíbrios internos que
alimentam as vulnerabilidades externas dos Estados Unidos. O déficit comercial
não é a causa, ele é o efeito visível de uma política fiscal descontrolada, de
uma estrutura tributária regressiva e de uma cultura política que prioriza o
poder sobre a responsabilidade. Ao culpar países estrangeiros, o discurso
populista desvia a atenção dos verdadeiros culpados, que são décadas de decisões
fiscais equivocadas, sustentadas por lobbies corporativos e elites econômicas e
militares que moldam as regras em benefício próprio.
As tarifas, longe de oferecerem proteção
real, funcionam como uma cortina de fumaça, uma forma de projetar culpa e
acabam por punir os mais vulneráveis. Elas sacrificam os consumidores,
encarecem a vida cotidiana e perpetuam o ciclo vicioso de dívida, desigualdade
e ineficiência econômica. No fim das contas, o que o economista Jeffrey Sachs,
que nada tem de esquerdista, é a denúncia do espelho quebrado que é a
governança estadunidense, onde o reflexo da verdade está distorcido por
interesses e ilusões, e onde o custo da negação é pago por todos, mas piorou de
uma forma aparentemente simples, a volta ao poder da extrema-direita americana,
referendado maciçamente pelo voto popular.
Cláudio
Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.
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