Após
mais de 500 anos de hegemonia, o eixo econômico mundial está realizando sua
mais profunda transformação desde as Grandes Navegações. O Oceano Atlântico,
que desde o século XV serviu como a principal via de comércio e prosperidade
global, gradualmente cede seu protagonismo ao Oceano Pacífico. Não se trata de
uma mudança abrupta, mas de um movimento tectônico nas placas da geopolítica
econômica mundial. E aqui reside o aspecto mais revelador: enquanto o Pacífico
ascende, o Atlântico declina na mesma proporção, como vasos comunicantes da
economia global.
Quando
Cristóvão Colombo cruzou o Atlântico em 1492 e Vasco da Gama contornou a África
em 1498, inauguraram uma era que definiria os contornos do poder mundial pelos
cinco séculos seguintes. O Atlântico tornou-se o grande lago comercial,
conectando Europa, África e Américas em uma rede de trocas que construiu
impérios e definiu destinos de nações. Foi através dessas águas que fluíram
especiarias, metais preciosos, produtos manufaturados e, tristemente, também o
tráfico de pessoas escravizadas.
O
Despertar do Pacífico e o Ocaso Relativo do Atlântico
Hoje,
uma nova geografia econômica se desenha, marcada por uma dinâmica de
transferência sem precedentes. A região do Indo-Pacífico concentra mais da
metade da população mundial e uma parcela crescente e acelerada do Produto
Interno Bruto global. China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Indonésia, Vietnã e
outros tigres asiáticos formam o que muitos analistas já chamam de "o
século asiático".
Os
números revelam não apenas crescimento, mas substituição. Os portos mais
movimentados do mundo não estão mais em Roterdã, Hamburgo ou Nova York, mas em
Xangai, Cingapura, Shenzhen e Busan. A Ásia já representa cerca de 60% do PIB
global quando medido por paridade de poder de compra, e esse percentual
continua crescendo. Enquanto isso, o comércio transatlântico tradicional entre
Europa e América do Norte cresce em ritmo anêmico ou simplesmente estagna. As
dez rotas de contêineres mais movimentadas do planeta são hoje majoritariamente
no Pacífico e em seguida no Oceano Índico.
A
participação percentual do Atlântico no comércio global cai consistentemente há
décadas. Não é apenas que o Pacífico está crescendo, é que está crescendo às
custas da relevância relativa do Atlântico. A ascensão de uma classe média
asiática, com centenas de milhões de novos consumidores, redefiniu os fluxos de
demanda global, deslocando o centro gravitacional da economia.
A
China, com sua ambiciosa Iniciativa Cinturão e Rota da Seda, investe trilhões
de dólares na construção de uma nova arquitetura de infraestrutura global,
conectando Ásia, Europa e África por terra e mar. Não é apenas comércio é a
reconfiguração das artérias por onde flui o sangue da economia mundial.
Enquanto isso, os investimentos em infraestrutura portuária atlântica crescem
de forma modesta, refletindo uma realidade econômica que se mostra inexorável.
África:
O Elemento que Acelera o Declínio Atlântico
E
aqui surge um dos aspectos mais surpreendentes dessa reconfiguração: a África,
continente atlântico por excelência, tornou-se um dos principais motores do
crescimento do Pacífico. É uma ironia histórica de proporções épicas. Durante
400 anos, a África foi violentamente integrada ao sistema comercial atlântico
através de uma brutal colonização europeia.
Suas
costas ocidentais foram os portos de onde partiram milhões de pessoas
escravizadas. Suas riquezas alimentaram a Revolução Industrial europeia. Sua
economia foi estruturada para servir as metrópoles do outro lado do Atlântico.
Mas hoje, em uma virada histórica, a África está se "descolonizando"
comercialmente e sua nova orientação não é para o Atlântico, mas para o
Pacífico.
A
China é hoje o maior parceiro comercial do continente africano, ultrapassando
tanto a Europa quanto os Estados Unidos. Investimentos chineses em
infraestrutura: estradas, ferrovias, portos, hidrelétricas, superam em muito os
ocidentais, não apenas em volume, mas em velocidade de execução. Enquanto
europeus oferecem "parcerias" carregadas de memórias coloniais
amargas e condicionadas a intermináveis exigências, os asiáticos constroem
pontes, figurativamente e literalmente também.
Os
minerais críticos da África, cobalto do Congo, lítio do Zimbábue, terras raras
essenciais para uso na indústria de tecnologia, fluem majoritariamente para as
indústrias asiáticas. O petróleo e gás africanos encontram mercados crescentes
no Leste. Commodities agrícolas alimentam a classe média asiática em expansão.
E a geografia, que parecia favorecer o Atlântico, revela-se mais ambígua: rotas
marítimas da África Oriental conectam-se naturalmente à Ásia via Oceano Índico,
e mesmo da costa ocidental, as rotas para a Ásia são cada vez mais
competitivas.
Os
novos portos de águas profundas na Tanzânia, Quênia, Djibuti e até mesmo na
costa atlântica, muitos construídos com capital chinês, não foram desenhados
pensando em Liverpool ou Nova York. Foram projetados olhando para Xangai e
Cingapura. A África não oferece respiro ao Atlântico, na verdade acelera sua
perda de centralidade ao adicionar suas vastas riquezas e mercados ao sistema
econômico do Pacífico. O continente que foi forçadamente integrado ao Atlântico
por séculos de violência agora escolhe voluntariamente o Pacífico por interesse
próprio. É o fim de um ciclo histórico que começou com as grandes navegações.
O
Brasil e a Visão Estratégica
Diante
dessa realidade incontornável, o Brasil demonstra visão estratégica ao projetar
sua entrada nessa nova ordem econômica. O projeto da Ferrovia Bioceânica, que busca
conectar o território brasileiro ao Oceano Pacífico através da Bolívia,
chegando a portos no Peru ou Chile, representa mais do que uma obra de
infraestrutura. É uma declaração de que o país compreende o movimento da
história e não quer ficar ancorado no lado que perde relevância.
Historicamente
voltado para o Atlântico, com suas principais cidades, portos e centros
econômicos na costa leste, o Brasil reconhece que seu futuro pode estar na costa
oeste. A ferrovia transcontinental, cujos estudos estimam investimentos entre
10 e 15 bilhões de dólares, permitiria que a produção agrícola do Centro-Oeste
brasileiro, uma das regiões mais produtivas do planeta, alcançasse os mercados
asiáticos de forma mais rápida e econômica. O que hoje leva semanas contornando
o continente sul-americano poderia ser reduzido em 10 a 15 dias.
Mais
do que isso, o Brasil se posicionaria como ponte entre dois oceanos, um hub
logístico sul-americano capaz de articular fluxos comerciais em múltiplas
direções. Não está sozinho nessa empreitada: o Chile desenvolveu sua própria
infraestrutura portuária no Pacífico, a Colômbia explora conexões bioceânicas,
e até a Argentina estuda rotas através dos Andes. É a América do Sul inteira
buscando não ficar à margem quando a história vira sua página mais importante
em cinco séculos.
Desafios
da Transição
Essa
transição não é simples nem isenta de desafios. A construção de ferrovias
atravessando a Cordilheira dos Andes exige investimentos colossais e superação
de obstáculos técnicos formidáveis. A coordenação entre países com agendas
políticas distintas adiciona camadas de complexidade. Questões ambientais são
particularmente delicadas: a rota atravessaria ecossistemas frágeis como a
Amazônia e áreas de preservação nos Andes, gerando debates legítimos sobre o
custo ambiental do desenvolvimento.
Há
também críticas quanto à viabilidade econômica. Céticos argumentam que o custo
por tonelada transportada pode não compensar diante das alternativas marítimas
existentes, especialmente considerando os desafios de manutenção em terreno
montanhoso. Outros questionam se os países envolvidos têm capacidade política e
financeira para sustentar um projeto de décadas em meio a instabilidades
regionais. Porém, essas dúvidas precisam ser pesadas contra o custo de não
agir. Ficar preso a uma infraestrutura voltada exclusivamente para um oceano em
declínio relativo pode significar marginalização econômica no médio prazo.
A
beleza e o perigo dessa transformação residem justamente em seu caráter
gradual. Mudanças tectônicas assim não acontecem de uma hora para outra, mas
são um ponto de inflexão. É como assistir o sol se pôr no Atlântico enquanto
nasce no Pacífico, lento, mas inevitável. Ano após ano, os números confirmam a
tendência, participação asiática subindo, participação atlântica descendo.
Fluxo de capitais migrando para o leste. Rotas comerciais se reorganizando,
esse já é o futuro.
Há
algo de ironia histórica nisso tudo. Para as potências ocidentais, o Pacífico
surge como "nova fronteira". Mas para as civilizações asiáticas, esse
oceano sempre foi o centro. O que muda não é a geografia, mas quem detém o
poder de nomear o centro do mundo. E essa mudança de poder é, talvez, o aspecto
mais profundo da transformação em curso. A gradualidade pode gerar complacência,
há quem olhe para o Atlântico ainda movimentado e pense que há tempo. Mas é
justamente essa lentidão aparente que torna o processo irreversível. Quando a
mudança se torna óbvia para todos, já é tarde demais para se reposicionar
estrategicamente.
Uma
Nova Era
O
que testemunhamos não é o fim da importância do Atlântico, mas sua redução a
uma posição secundária em um mundo multipolar onde o Pacífico assume
centralidade crescente e incontestável. As grandes cidades do futuro podem
estar em suas margens. Os acordos comerciais mais relevantes podem cruzar suas
águas. As inovações que moldarão o século XXI podem emergir de seus países
costeiros.
Para
o Brasil e para a América do Sul, a questão não é se essa mudança vai ocorrer, ela
está ocorrendo gradualmente, ano após ano, transação após transação,
investimento após investimento. A África já fez sua escolha, não por ideologia,
mas por pragmatismo econômico. A Ásia consolida sua posição como novo centro. A
questão é como se posicionar diante dessa realidade. A Ferrovia Bioceânica é um
símbolo dessa consciência, um reconhecimento de que a geografia do poder está
se redesenhando e que ficar ancorado exclusivamente no passado atlântico
significa aceitar a marginalização no futuro pacífico.
Após
500 anos, o mundo vira seu olhar para o poente. E nessa virada, há riscos mas
também oportunidades imensuráveis para aqueles que souberem navegar essas novas
águas com visão, coragem e estratégia. A nova rota da riqueza não está apenas
sendo traçada, está substituindo gradualmente a antiga. E o Brasil, construindo
sua ferrovia transcontinental, buscará garantir seu lugar nesse mapa do amanhã,
consciente de que o sol que se põe sobre o Atlântico nasce sobre o Pacífico,
iluminando não uma nova era, mas o retorno da Ásia ao centro do mundo, posição
que ocupou por milênios antes que a europeia redesenhasse temporariamente a
geografia do poder, e logicamente, o temporário um hora se finda.
Cláudio Carraly,
advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.
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