Muito se ironizou sobre a profecia
maia de 2012. Filmes-catástrofe, piadas e memes transformaram o tema
em caricatura de alcance mundial. No entanto, talvez a profecia não fosse
sobre meteoros ou explosões, mas sobre algo mais profundo, o prenúncio
do fim de um ciclo civilizatório. O que acabou em 2012
não foi o planeta, mas um conjunto de promessas que estruturavam
nossa sociedade moderna. Desde então, vivemos em um apocalipse lento, cotidiano,
em que as bases que sustentavam a vida social e política se desfazem diante de
nossos olhos um pouco mais a cada dia.
Até 2012, ainda havia certa
atmosfera de confiança, a chamada democracia liberal era vendida como modelo
universal ideal, a globalização parecia inevitável e a tecnologia era
apresentada como libertadora. A internet ainda carregava o imaginário
de uma “ágora” digital, capaz de dar voz aos invisíveis. O trabalho
prometia cada vez mais automação e menos exploração, garantindo ao
trabalhador mais conforto e tempo livre em um futuro próximo.
O planeta, embora em crise ambiental, ainda era visto como administrável.
Essa narrativa não resistiu. De lá para cá, assistimos a uma
sucessão de sinais de que o mundo moderno, tal
como o conhecíamos, simplesmente terminou, o mundo como conhecíamos
realmente acabou!
A política foi o primeiro
campo a expor abertamente essa falência. A Primavera Árabe, celebrada como
aurora democrática, degenerou muito rapidamente em guerras civis, tornando-se
ditaduras ainda mais perversas que as que sucederam e deixam países destroçados
no seu caminho. O Brasil, com as manifestações de junho de 2013,
inaugurou um ciclo de instabilidade que abriu as portas para o ódio
tanto institucionalizado quanto difuso, celebrou a negação da política e trouxe
de volta à luz ideais fascistas que estavam latentes nos esgotos da sociedade,
inclusive com uma tentativa de golpe. Nos Estados Unidos, referência máxima da
democracia liberal ocidental, viram a ascensão de Donald Trump, a
invasão violenta do Capitólio e o esvaziamento de consensos
mínimos.
A Europa, que se vendia como
bastião de integração, fragmentou-se com o Brexit e assistiu a
um crescimento crescente da extrema-direita. O que antes parecia
exceção tornou-se regra, aquele modelo de democracia esfarelou-se por
dentro, transformando-se em campo de batalha permanente. O estado
autocrático e de exceção deixou de ser um momento extraordinário e virou
forma normal de governo.
O trabalho, por sua vez,
perdeu a aura de promessa da possibilidade de ascensão social. O que se
viu foi a precarização radical dos trabalhadores. Surgiu a figura do
trabalhador de aplicativo, sem direitos, sem garantias, com a ilusão de
autonomia, escondendo a realidade da servidão algorítmica, e pior, essa
nova realidade foi celebrada por muitos. Já
não é o patrão externo que explora, mas o próprio
indivíduo que se autoimpõe o jugo da produtividade infinita. O custo
da “liberdade” do trabalho virou apenas outro nome para a necessidade de
aceitar jornadas intermináveis por alguns trocados.
Na internet, a virada foi ainda
mais brutal. Até 2011, era possível acreditar que ela
democratizaria o mundo, conectando as pessoas e diminuindo as
distâncias do planeta. Porém o que ocorreu foi que após 2012, a rede se
consolidou como espaço de manipulação, ódio e
fragmentação. O Facebook tornou-se máquina de fake news e
linchamentos digitais. O Twitter, hoje chamado de “X”, cristalizou a
política em trincheiras, visibilizando grupos supremacistas e emulando uma
guerra cultural. O YouTube criou ecossistemas de radicalização que,
em busca de engajamento e monetização, privilegiam o embate, alimentando uma
crise permanente.
O sonho da ágora livre deu
lugar ao pesadelo do panóptico digital, em que somos ao mesmo tempo vigiados e
cúmplices de nossa própria vigilância. O filósofo Slavoj Žižek já alertava que
a liberdade pós-moderna não era emancipada, mas controlada por mecanismos
invisíveis. O pós-2012 confirmou essa análise, a internet morreu
como espaço de diálogo e renasceu como máquina de desintegração e opressão
massiva.
A economia global também mudou de
natureza. A crise de 2008 parecia um susto, mas, ao chegarmos em 2012,
percebemos que ela não era exceção, era o novo normal do sistema
capitalista. A austeridade esmagou países inteiros, como a Grécia. O sistema
financeiro foi mantido por injeções bilionárias, sem que os problemas
estruturais fossem resolvidos, e com enorme custo social para a população
daquele país. Bilionários como Bezos, Musk e Zuckerberg passaram a acumular
fortunas que rivalizam com o PIB total de países, tornando-se como
deuses modernos. As criptomoedas surgiram como promessa de libertação, mas logo
se revelaram mais uma bolha do sistema, especulação e fraude vieram no seu
rastro. O capitalismo tornou-se necropolítico, não apenas gera
desigualdade, mas decide quem pode viver e quem deve morrer.
O planeta também deu sinais
inequívocos de colapso. Em 2012, o degelo da Groenlândia bateu
recordes, o Ártico registrou níveis inéditos de perda de gelo marinho
e eventos climáticos extremos multiplicaram-se em intensidade e frequência.
O Acordo de Paris de 2015 nasceu sob descrença e hoje agoniza diante da
incapacidade dos países em cumprir metas mínimas. Já não existe natureza
intocada, vivemos num planeta moldado pela destruição e ganância humana.
O apocalipse climático não é futuro distante, mas algo presente, em
que assistimos em tempo real a enchentes, secas, incêndios e ondas de calor
tomarem todo o planeta.
O atual Zeitgeist, termo
alemão que se traduz como "espírito do tempo" e se refere ao
conjunto de valores, costumes, ideias, tendências de uma determinada época. Até
os anos 2000, mesmo as piores distopias apresentadas nas obras
cinematográficas, televisivas ou literárias, mantinham espaço para
redenção. Após 2012, um misto de niilismo e cinismo se instalou.
Séries como Black Mirror traduziram o mal-estar com
a tecnologia, mostrando que o futuro não é libertador, mas uma
prisão.
Assim, observamos que filmes e
produções culturais deixaram de apostar em utopias para investir em cenários de
colapso sem ponto de retorno. A juventude, que em 2012 ainda podia se enxergar
como protagonista de transformações, passou a carregar a sensação de que
não há futuro, apenas sobrevivência em meio ao inevitável desastre.
Zygmunt Bauman falava em modernidade líquida, mas, após 2012, parece mais justo
falar em modernidade evaporada, o futuro, antes fluido, agora
simplesmente se dissolve no ar.
Os sinais desse fim de ciclo
não param de se multiplicar. O Brexit corroeu a promessa de
integração europeia. A pandemia de Covid-19 expôs a falência das
instituições globais, vimos a normalização do desprezo pela vida,
partindo inclusive e principalmente de lideranças políticas. Movimentos
antivacina e negacionistas climáticos mostraram que até a ciência perdeu
autoridade simbólica. Fascismos renasceram legitimados pelas urnas. A
ascensão da inteligência artificial trouxe esperança, mas também medo da
obsolescência humana, com a possibilidade de virar um repositório infinito de
mentiras, alimentando ainda mais o ecossistema neofascista. Tudo indica que a
normalidade do pós-guerra, com suas narrativas de progresso e
estabilidade, acabou, morreu, e o corpo ficou insepulto.
Dizer que 2012 foi o ano
em que o mundo realmente acabou não é exagero,
mas síntese poética de uma transformação histórica, uma transformação que
não desejávamos. O que terminou foi a confiança no progresso
inevitável, na democracia liberal como destino universal, na
globalização como meio idílico de integração dos povos e na
tecnologia como inexoravelmente benéfica. Desde então, vivemos um apocalipse
cotidiano, difuso, sem espetáculo hollywoodiano, mas com a erosão lenta da
democracia, do trabalho digno, da esperança e do próprio planeta.
Os maias estavam certos: 2012
foi o fim de um ciclo. Mas, como todo apocalipse, esse fim também
pode ser lido como revelação. Se reconhecermos
que o velho mundo realmente acabou, talvez possamos
criar outro, fundado não em promessas, mas em solidariedade, justiça e
novas formas de relação da humanidade entre si e com o planeta. O futuro não está
garantido, mas o presente já é o pós-mundo, e nesse momento
essa película vem se mostrando uma distopia, mas, para o nosso bem, esse filme
ainda não acabou.
Cláudio
Carraly, advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.
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