O sol incidia pela janela do escritório dele, destacando no ar
partículas de poeira dançantes, como se cada uma contasse sua própria história.
Sentado à mesa, encarava a tela do computador que piscava em branco, sem que
nada fluísse. Foi então que decidiu escrever algo que muitos já tentaram: sobre
o caminhar da vida. Mas não se trataria de um relato genérico, era, na verdade,
um monólogo íntimo, encenado em atos, de alguém muito próximo. Essa narrativa
poderia ser interpretada como uma peça. Contudo, percebeu logo que aquela
aventura com roteiro pré-definido — inspirada na já batida “jornada do herói” —
não se comportava como previsto. Vinha impregnada de uma realidade cruel, sutil
e irônica.
Durante anos, ele alimentou uma convicção quase religiosa de que estava
destinado à grandeza. Algo importante, capaz de fazer tremer os alicerces do
mundo (ainda que metaforicamente). Que eternizaria seu nome, um legado digno de
ecoar pelas gerações, essa ideia não nasceu do nada, desde a infância, ouvira
dos pais que era especial, que o mundo aguardava sua chegada com grande
expectativa. Acreditou com a fé dos recém-convertidos, mesmo quando as
evidências começavam a desmenti-lo. As mensagens internas, antes otimistas,
passaram a cada vez mais sussurrar: eles estavam errados!
Sua jornada começou nas brincadeiras lúdicas da infância, quando voava
pelos céus com uma toalha amarrada no pescoço, derrotando robôs gigantes e
vilões intergalácticos. Acreditava, com a convicção de quem ainda desconhecia a
gravidade, que podia voar, e voava. Mas o tempo tratou de soprar as nuvens
dessa ilusão. A física revelou-se uma antagonista implacável e apresentou-lhe a
lei da gravidade.
A adolescência chegou como um vendaval hormonal e uma certeza tão
intensa quanto fugaz, iria tornar-se uma estrela do rock. Visualizava-se
incendiando palcos, engolfado por solos estrondosos de guitarra, cantando
letras profundas e existencialistas sobre algum tênis da moda ou um novo
videogame. Podia ouvir as multidões aplaudindo. Mas o mundo real mostrou-lhe
que talento e esforço eram pré-requisitos para tudo, e mesmo os muito
talentosos tinham a garantia de sucesso. Seu estrelato pop ficou relegado a um solo
de guitarra inaudível, perdido no vazio da realidade.
Na faculdade, enveredou por outro delírio, tornar-se-ia um cientista
brilhante, alguém à altura de Newton. Imaginava-se ganhando prêmios Nobel e
decifrando os mistérios do universo, mas rapidamente percebeu que a física
quântica, com sua lógica incognoscível, e a matemática avançada, com seus
símbolos alienígenas, riam da sua pretensão. Sem saída, seguiu o caminho comum
dos medíocres e cursou Direito, como dizia Ariano Suassuna, quem não servia
para mais nada virava advogado.
Com o passar dos anos, como um andarilho no deserto em busca de um
oásis, pulava de sonho em sonho, cada novo projeto parecia o trampolim certo
rumo à glória. Mas todos o lançavam apenas para lugares diferentes, ainda que
igualmente frustrantes e mais distantes de suas pretensões. Aos quarenta anos,
sentado em um belo escritório de alma cinzenta, sob a luz fluorescente que
zumbia no teto, foi atingido por uma dolorosa epifania: o "destino
grandioso" era uma construção ilusória, sua e de muitos que também acreditavam
na virtuosidade latente dele que ora afloraria. Uma farsa bem-intencionada, mas
ainda assim uma farsa.
A sensação de ter um propósito especial esfarelava diante dos olhos,
esperara por um trem para a glória que jamais chegaria. Enquanto isso, o mundo
real passava veloz, como cantava o Clube da Esquina: "o trem da
juventude é veloz, quando vai olhar já passou..."
Com a chegada dos cinquenta, passou a ver tudo com uma ironia mais
sofisticada, as rugas tornaram-se cicatrizes de batalhas contra os sonhos já
devidamente abandonados. Os cabelos brancos já não indicavam declínio, mas um
tipo de piada do tempo, a urgência de “fazer a diferença” dera lugar à
aceitação cômica da própria irrelevância cósmica.
Os sonhos antigos, antes fontes de angústia, agora lhe traziam uma
graça. Observava a vida neste momento como quem vê um filme repetido, mas que
de alguma forma ainda nos arranca risos. Percebeu que, ao contrário do
protagonista heroico que sempre imaginara ser, estava mais para um coadjuvante
num filme B, daqueles que somem antes da metade da história sem ninguém sentir
falta na trama.
Na meia-idade, enfrentava um cruzamento sem placas. Sentia-se mais como
um balão esvaziado do que como um majestoso dirigível. O espelho devolvia um
rosto marcado, não por glórias épicas, mas por escolhas discutíveis e
expectativas irreais. A pergunta agora era inevitável: o que fazer quando se
passa a vida acreditando estar destinado a algo importante e descobre-se que
esse “algo” nunca existiu?
A tentação de afundar na autopiedade era grande e até doce. Poderia
lamentar as oportunidades que pensou ter ou que talvez só existiram em sua
cabeça, ou as decisões certas que talvez fossem erradas, quem sabe? Poderia
chorar as promessas quebradas por tanta gente que ele ajudou, mas ajudara,
pois, era o certo a se fazer, e ele era o herói predestinado a isso. Já o
retorno das pessoas ajudadas não dependia dele, mas preferiu outra abordagem:
decidiu contar a história em uma tragicomédia. Porque, apesar de tudo, o riso,
mesmo que amargo, insiste em nascer nas situações mais complexas.
Talvez a verdadeira grandeza resida nos momentos simples e
despercebidos, que ele deixou escapar enquanto perseguia desenhos de nuvens no
céu. Talvez o destino não seja uma estrada reta traçada por forças superiores,
mas um labirinto de curvas, atalhos e becos, que, no fim, forma um caminho
único, ainda que inesperado, que nos leva a uma parede ou, quem sabe, um
penhasco.
Na verdade, ao abrir mão do papel de herói de uma epopeia imaginária,
sentiu-se livre. Desapegado finalmente de um fardo que nem sabia mais como
carregar. Rindo das próprias escolhas, reconheceu que todos, no fundo, estão
apenas tentando decifrar um enigma, um móvel desmontado que veio sem o seu
manual. A grandeza, talvez, esteja em rir da nossa banalidade e da própria
inadequação ao mundo. E, por fim, decidiu abandonar o roteiro previsível e
improvisar sempre a próxima cena. Porque, afinal, a melhor piada é a que se
conta a si mesmo, com plena consciência de que, no final, nada há de dar certo.
E tudo bem que seja assim.
Cláudio
Carraly - Advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.
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