A expressão “tudo que é sólido se desmancha no ar”, cunhada por Karl Marx e Friedrich Engels em O Manifesto Comunista e retomada por Marshall Berman, traduz a fluidez das estruturas sociais, econômicas e políticas ao longo da história. Aquilo que parece indestrutível hoje pode ruir ou se transformar rapidamente, sobretudo em períodos de intensa crise e efervescência política. Diante dos atuais governos autoritários e nacionalistas que despontam, a pergunta que emerge é: poderá a esquerda global, em suas múltiplas vertentes, reconstruir-se de forma sólida para oferecer alternativas e mobilizar grandes segmentos sociais?
Em diferentes momentos,
crises atuaram como catalisadores para a organização e a renovação da esquerda
mundial, o caos da Primeira Guerra Mundial, acrescido dos problemas internos da
Rússia czarista, precipitaram a Revolução Russa de 1917. E essa inspirou
operários e camponeses por todo globo. Já no pós-Segunda Guerra, partidos de
inclinações marxistas, social-democratas e trabalhistas alavancaram seu
protagonismo, em parte pelo papel que desempenharam contra o fascismo e pelos
projetos de bem estar social que impuseram como forma de minar o capitalismo
globalmente.
O colapso financeiro de
2008, do qual temos reflexos até os dias atuais, bem como o movimento Occupy
Wall Street, trouxe novos questionamentos sobre as desigualdades
estruturais fundamentais do capitalismo, sendo a mais visível a concentração de
riqueza em uma elite minoritária, esse cenário evidenciou as contradições do
neoliberalismo e abriu espaço para uma crítica mais ampla ao âmago do sistema.
No entanto, esse mesmo sentimento de revolta também alimentou a reação de
forças nacionalistas e autoritárias, que canalizaram a frustração popular em
projetos antidemocráticos de extrema-direita.
Para a esquerda, a tarefa
de se reinventar passa por incorporar temas que antes ocupavam um lugar
secundário nos programas partidários, no atual contexto de aceleradas mudanças
climáticas, o debate sobre sustentabilidade deixou de ser uma preocupação restrita
a ambientalistas, tornou-se urgente e transversal, com a necessidade de uma
articulação entre justiça social e proteção ambiental, superando a dicotomia
entre desenvolvimentismo produtivista e preservação do planeta.
O identitarismo,
capturado pelas grandes empresas e seus compliances, não é bem quisto pela
parcela mais tradicional da esquerda, principalmente por alguns partidos de
orientação marxista, as pautas feministas, LGBTQIA+, pessoas com deficiência,
etarismo, antirracistas, são fundamentais, porém foram capturadas pelo status
quo, que utiliza apenas como uma absorção do sistema dessas pautas que têm em
toda sua trajetória histórica a presença de quadros de esquerda e com esses
conquistaram relevância mundial que mereciam.
A noção de
interseccionalidade, que observa a sobreposição de diferentes opressões,
transformou o cenário militante, hoje, o que conhecemos como esquerda precisa
equilibrar sua ênfase histórica na luta de classes com bases no
marxismo-leninismo do início do século XX com a atenção às temáticas
identitárias, sabendo que o processo histórico comprovou que apenas a luta de
classes não solucionará questões tão complexas e secularmente impregnadas ao
ser humano, como racismo, misoginia e xenofobia, por exemplo. Pensadores como
Angela Davis e Achille Mbembe reforçam a importância de se combater não apenas
a exploração econômica, mas também as heranças raciais que persistem nas
sociedades, inclusive as que experimentaram e experimentam o modo de produção
comunista.
A economia de plataformas
online e a automação avançada pulverizaram as categorias profissionais e
esvaziaram os sindicatos tradicionais, o capitalismo já não necessita de um
exército de reserva, ao menos como conhecíamos desde a revolução industrial, esse
fenômeno fraciona, divide e enfraquece profundamente a luta dos trabalhadores.
Essa mão de obra precarizada, nascida dos aplicativos sem vínculo formal, não
só abraçou a ideia de que são parte da força econômica, mas que desfrutam de
parcela do bolo dos ganhos financeiros. Eles sequer percebem que estão do lado
de quem os explora, a mais-valia sofrida agora é usada como medalha pelo
explorado como motivo de orgulho e regozijo.
A esquerda vem perdendo
feio essa batalha do novo mundo, o da revolução tecno-científica, na última
década, não percebeu a fenomenologia e tática dos grandes capitalistas em
capturar os corações e mentes da nova classe trabalhadora, porém a direita
entendeu, pior, a extrema-direita percebeu ainda mais, dando um passo adiante,
politizando o processo, e assim começou a obter vitórias eleitorais nos
parlamentos e executivos por todo mundo, trazendo de volta uma sombra que não
víamos desde o início dos anos 1920.
Para além dos desafios
externos, como o perigo da ascensão da extrema-direita, há entraves
significativos no interior das camadas organizadas na esquerda, as diferentes
correntes (marxistas, anarquistas, social-democratas, ecossocialistas,
trotskistas e outros) nem sempre conseguem cooperar, disputas ideológicas podem
paralisar ações comuns e fragmentar o campo político. Os progressistas precisam
reagir, é fundamental voltar a se organizar e se reunir em torno dos temas que
os unificam, deixando de lado, por hora, temáticas que os dividem.
Esses trabalhadores
carecem de representação de classe e redes de proteção social. É preciso novas
experiências de organização, seja por meio de coletivos informais ou sindicatos
digitais, apontando para esses que há caminhos para defender os direitos dos
precarizados que eles nem compreendem que lhes foram usurpados. A esquerda,
nesse ponto, pode liderar iniciativas de regulação do trabalho digital, como
proteção mínima para licenciamento dos aplicativos e seguridade social para
quem atua por esses.
A globalização, ao mesmo
tempo que intensifica a interdependência econômica e cultural, expõe
discrepâncias entre regiões e fortalece discursos nacionalistas. A facilidade
de comunicação via redes sociais possibilita a criação de movimentos
transnacionais, acirram a polarização e a disseminação de desinformação. Em
muitos casos, governos autoritários exploram essas dinâmicas digitais para
minar a credibilidade de instituições democráticas. Antes a esquerda, bebendo
na fonte de Karl Marx, era “mundialista”, hoje são os partidos de orientação
fascista e neofascista que o são. Eles estudaram os socialistas, comunistas e
anarquistas, aprenderam como se organizar e elevar suas questões ao palco
mundial, subvertendo o principal, a emancipação da classe trabalhadora, eles
conhecem a esquerda profundamente e somente agora os progressistas começam a
compreender seu adversário.
Por outro lado, essas
mesmas ferramentas podem e devem ser utilizadas, como rápida articulação de
campanhas globais, seja contra a mudança climática ou em defesa de refugiados,
a esquerda, portanto, deve conciliar dois polos de atuação: o uso inteligente
das redes para conscientizar e mobilizar, e a construção de laços
comunitários presenciais (como sindicatos renovados, conselhos populares,
cooperativas solidárias e coletivos de bairro), mas fundamentalmente voltar a
se afirmar amplamente como de esquerda.
Alguns bons exemplos recentes mostram como diferentes
alas das esquerdas têm se reestruturado e buscado relevância:
Partido Podemos na Espanha
Surgiu a partir das manifestações dos
Indignados e levou ao parlamento uma pauta anti-austeridade nos moldes
neoliberais e por ações sociais robustas, embora tenha sofrido disputas
internas entre correntes mais tradicionais e setores que defendem uma abordagem
aberta às pautas identitárias, o partido trouxe renovação ao cenário político
espanhol e vem crescendo em relevância no país.
Bloco de Esquerda em Portugal
Em Portugal, unificou feministas,
trotskistas, ecossocialistas e outros segmentos, mantendo um diálogo contínuo e
amplo com diversos movimentos sociais. Essa aglutinação, porém, revela desafios
na hora de formar coalizões e manter unidade interna diante de pressões
institucionais, vem obtendo vitórias regionais e também no parlamento.
Movimento Syriza na Grécia
Emergiu como oposição às medidas de
austeridade draconianas impostas pela União Europeia, mas, ao assumir o poder,
recuou em muitas propostas mais disruptivas. O caso grego ilustra o dilema
entre a fidelidade a programas de ruptura e a governabilidade em um mundo
globalizado, um exemplo evidenciado da realpolitike, que as esquerdas
vão ter que aprender, talvez lembrando Lênin, um passo atrás para depois dar
dois adiante.
Estados Unidos: Bernie
Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez
Autodenominados “socialistas
democráticos”, Sanders e AOC ampliaram o debate sobre saúde universal,
regulação financeira e tributação de grandes fortunas e levaram de volta ao
conjunto da sociedade estadunidense o conceito de socialismo, algo que era proibitivo
nos grandes debates nacionais, ainda que enfrentem forte resistência dentro do
próprio Partido Democrata, sua popularidade revela que o socialismo já não é um
tabu para uma boa parcela da população dos Estados Unidos.
América Latina
Governos progressistas eleitos na
região (no Brasil, Chile, Colômbia, México e Uruguai, entre outros) tentam
equilibrar políticas redistributivas de renda e intervenção estatal onde é
necessário, atraindo investimentos e lidando com a instabilidade política da
região com o crescimento da extrema-direita no continente. O Brasil, que viveu
processos intensos de polarização, mostra o quão difícil é unificar as diversas
correntes de esquerda para além das eleições, assim vemos a fundamental
importância da criação e manutenção de frentes políticas amplas, embora cheias
de tensões internas, é necessária a reunião dos democratas de os matizes contra
o inimigo fundamental que é o fascismo.
O desafio da esquerda
passa por reconciliar a análise de conjuntura global com ações específicas e
enraizadas. Algumas estratégias se mostram fundamentais:
- Convergência
programática básica: É inviável unificar totalmente correntes tão
diversas, mas encontrar consensos mínimos, ou seja, distribuição de renda,
políticas de bem-estar social, combate à devastação ambiental, entre
outros, isso é crucial para formar frentes amplas.
- Transparência
e participação interna: Partidos e movimentos devem criar espaços de
democracia interna, maior oxigenação nas lideranças dos partidos,
recebimento aberto e amplo de novos filiados, além de resoluções
partidárias discutidas desde as bases.
- Diálogo
com movimentos identitários: Reconhecer a autonomia de feministas,
coletivos negros, grupos LGBTQIA+, povos indígenas e imigrantes, buscando
sinergias sem suprimir pautas específicas, além de antecipar novas formas
de organização da sociedade e abrir espaços imediatamente para estas nas
discussões partidárias.
- Inovação
nos formatos de organização: Investir em redes de solidariedade e em
estruturas mais fluidas e flexíveis, como sindicatos voltados para as
cooperativas digitais, que possam responder imediatamente às novas
dinâmicas do trabalho. Além de levar a cada filiado a tarefa de amplificar
presencial e digitalmente as ideias do partido e principalmente levar ao
eleitor de esquerda em geral que não dê engajamento e muito menos
amplifique as ideias da extrema-direita, pois é disso que eles vivem e a
tática que os vem fazendo crescer globalmente.
- Formação
política e educação popular: Ampliar escolas de formação, tanto
presenciais quanto online, onde se discuta teoria política, economia
crítica e práticas de mobilização mistas. Essa educação permanente é
fundamental desde a formulação do socialismo científico, hoje é ainda mais
vital para o surgimento de novas lideranças, mas principalmente para a
sobrevivência a longo prazo do que conhecemos como esquerda.
- Integração
teórica: Estudar e debater as contribuições de teóricos progressistas do
passado e também contemporâneos, para se obter um arcabouço de informações
que alimentem a luta política da militância, analisando as complexas
formas de poder, possibilidades de emancipação das sociedades, e como
governar ao ascender ao poder.
Regimes de
extrema-direita, apesar de aparentarem força, enfrentam profundas contradições
internas e podem desabar de forma inesperada ao se verem isolados política e
socialmente, principalmente em cenários de recessão econômica, escândalos de
corrupção ou pela simples incompetência de suas gestões. A história mostra que
o poder autoritário, em diversos momentos, ruiu com surpreendente rapidez
quando perdeu sua base de apoio internacional e quando o povo compreendeu que
questões de costumes, xenofobia ou um suposto inimigo interno ou externo não
resolviam seus problemas reais.
Para a esquerda, o grande
desafio é conseguir organizar e canalizar a insatisfação social nesses
momentos, apresentando propostas consistentes, capazes de demonstrar
viabilidade e compromisso humanista com o todo da sociedade. Ou os
progressistas avançam na elaboração de soluções concretas e inclusivas, ou
correm o risco de assistir, inertes, ao avanço de projetos mais e mais
regressivos. Resta claro que, se nada é eterno, nem mesmo as estruturas
autoritárias o são, a chance de mudança está justamente no potencial de
organização coletiva para criar novos horizontes de igualdade.
A sensação de crescimento
e robustecimento dos reacionários pode ser momentânea, dependendo de como se
comportam os democratas, assim estará sujeita a dissolver-se, diante de um
contraponto de mudanças de conjuntura e da força de movimentos progressistas
bem articulados. A esquerda capilarizada, internacionalizada e, principalmente,
unificada em suas convergências será uma força irrefreável. Assim, a máxima de
que “tudo que é sólido se desmancha no ar” novamente demonstrará a importância
vital do estudo das sociedades.
Cláudio Carraly -
Advogado, Ex-Secretário Executivo de Direitos Humanos de Pernambuco
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